Denúncias sobre atendimento no CHS motivam campanha por mudanças
Pacientes, familiares e colaboradores relatam problemas na estrutura e nos serviços do hospital; vereadores pedem substituição da atual gestão
Colaboradores, pacientes e familiares denunciam uma série de irregularidades no Conjunto Hospitalar de Sorocaba (CHS), administrado pelo Seconci. Diante dos problemas relatados, a Comissão Especial da Câmara Municipal lançou, na quarta-feira (4), a campanha “Salve o Hospital Regional”, com a coleta de assinaturas em um abaixo-assinado que reivindica mudanças na gestão da unidade.
O hospital, que já foi alvo de questionamentos em outras ocasiões, volta a chamar a atenção pelas denúncias. Segundo um dos colaboradores, que preferiu não se identificar, o CHS enfrenta problemas graves. “Há falta de insumos, falta de funcionários e profissionais que acabam fazendo mais do que suas obrigações”, afirma.
Ainda de acordo com o funcionário, a unidade enfrenta problemas que vão desde a qualidade da água fornecida pela rede até a falta de insumos básicos e profissionais para atendimento e limpeza. Ele também aponta a ausência de uma área de descanso para os profissionais de enfermagem, conforme previsto em determinação do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), além da falta de ar-condicionado no hospital.
A ausência de climatização, acrescenta o colaborador, também comprometeria as condições da sala de esterilização de materiais. Ele afirma que o setor não atende às exigências sanitárias relacionadas ao controle da entrada de ar externo, o que poderia comprometer o processo de esterilização.
“Imagine: você faz uma esterilização, passa por todo um processo de autoclave e, como não existem essas condições, as janelas ficam abertas. Todo aquele ar externo volta para dentro do material, que é acondicionado em pano que teria que ser estéril. Então, a esterilização dos materiais é uma coisa muito grave.”
Outro problema apontado diz respeito às condições de acomodação dos pacientes. Segundo o funcionário, as janelas não possuem telas de proteção contra insetos, mas precisam permanecer abertas devido ao calor, o que, na avaliação dele, favorece a contaminação do ambiente.
O colaborador também criticou o modelo de gestão adotado pelo Seconci. “Desde que a Seconci chegou aqui, ela persegue funcionários e sempre tenta mascarar a situação. Então, esse é o tipo de gestão deles: gestão de medo, de coação e de perseguição”, denuncia.
Há ainda questionamentos sobre a aplicação dos recursos destinados à unidade. “Existe a questão do desvio de recursos. A gente não sabe para onde estão indo os recursos, porque são três reformas: no primeiro andar, aqui embaixo e lá em cima. E fica aquela sujeira, não resolve nada, é uma coisa dispersa”, questiona.
‘Salve o Hospital Regional’
A Comissão Especial da Câmara de Sorocaba lançou a campanha “Salve o Hospital Regional” para reunir assinaturas em um abaixo-assinado que solicita a substituição da atual gestão do Conjunto Hospitalar de Sorocaba.
De acordo com o vereador Izídio de Brito (PT), a iniciativa pretende transformar as informações reunidas em medidas concretas para mudar a situação da unidade. “A ideia é que a gente possa fazer deste relatório resoluções que possam mudar a situação aqui, coisa que nós estamos vendo resistência da Seconci”, explica.
O parlamentar também questionou o modelo de contratação de trabalhadores no hospital. “Nós entendemos que tem alguns serviços que podem ser feitos com prestação de serviço, mas aqui do jeito que está mais de 70% dos trabalhadores são de prestação de serviço ligados ao Seconci. Esse mesmo Seconci tem 127 empresa que presta serviço para eles, quer dizer quarteiriza, quinteiriza até sexteiriza na minha opinião, nós precisamos mudar esse conceito.”
Já o vereador Ítalo Moreira (Missão) cobrou melhorias no atendimento e apontou suspeitas de irregularidades na unidade. Ele citou mortes que, segundo sua avaliação, estariam relacionadas a falhas na assistência prestada aos pacientes, entre elas ocorrências envolvendo sessões de hemodiálise.
“São várias mortes por descuido, por exemplo, a gente teve o problema da hemodiálise que custou duas vidas, um outro senhor foi parar também na UTI que teve AVC e vários outros casos, alguns sobreviventes inclusive relatam ali tudo que aconteceu. E não só isso, teve a morte das crianças, são várias mortes. A gente tem vários indícios aqui de corrupção a gente tem várias questões a gente já mandou para o Ministério Público Estadual, para o Ministério Público Federal, para a Polícia Federal, tiveram alguns diretores afastados mas isso é insuficiente”, relata.
Para Henri Arida (MDB), a campanha também busca mobilizar a população em torno das condições de atendimento oferecidas pelo hospital. “A intenção é que haja uma conscientização da população com o descaso que está acontecendo ao nosso lado e o objetivo central é a mudança do atendimento. A população não merece mais ser humilhada, ficar sem leito, ficar nos corredores passando fome, não tendo uma uma troca de lençol, não tendo o básico. Até mesmo as mães que fazem uma cesárea aqui é recorrente não ter um elevador funcionando, isso é inadmissível.”
Relatos de pacientes e familiares
Nas redes sociais, familiares e pacientes também relatam problemas durante o atendimento no Conjunto Hospitalar de Sorocaba. Entre as manifestações estão queixas sobre infecções e intercorrências durante sessões de hemodiálise no Hospital Leonor Mendes de Barros.
Um familiar contou que um paciente passou mal durante o procedimento e precisou ser transferido para o Hospital Regional de Sorocaba, onde permanece internado em estado grave.
“Meu tio passou mal gravemente após aproximadamente 1h30 de tratamento. Segundo seu relato, outros dois pacientes do mesmo turno também apresentaram mal-estar. Meu tio foi transferido para o Hospital Regional de Sorocaba, onde permanece internado em estado grave. Recebemos apenas a informação de que ele estaria com uma infecção no sangue, sem esclarecimentos suficientes sobre a origem da infecção, os resultados das hemoculturas e as medidas adotadas em relação ao cateter.”
Outros relatos mencionam pacientes que teriam sofrido complicações durante a hemodiálise. Um deles teria apresentado um Acidente Vascular Cerebral (AVC), sido transferido em estado grave para outra unidade e morrido. Há ainda manifestações sobre outros dois pacientes que estariam em estado grave devido a infecções.
A qualidade da água também foi questionada por usuários nas redes sociais. “A Vigilância Sanitária deveria investigar a água turva que sai das torneiras, água de banho dos pacientes, imagina essa água entrando nas lesões dos pacientes”, afirma um dos comentários.
A superlotação é outra reclamação recorrente. Uma familiar relatou que o marido passou mal durante uma sessão de hemodiálise no Hospital Leonor Mendes de Barros, foi transferido para o Regional e permaneceu no corredor da unidade.
“Meu marido faleceu no Regional, ele passou mal na hemodiálise no Leonor e foi transferido para o Regional, deixaram ele no corredor, pedi para colocar ele na UTI e a médica falou que estava lotado, não tinha vaga, quem cuidou dele fui eu.”
O que dizem os responsáveis
O Cruzeiro do Sul procurou a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo (SES-SP) e o Seconci, responsável pela administração do Conjunto Hospitalar de Sorocaba (CHS), para obter esclarecimentos sobre os problemas relatados.
Em nota, a Secretaria informou que “apura a denúncia relatada pela reportagem. Segundo informações da entidade gestora do CHS, foram adotadas medidas de controle e segurança e, até o momento, não há registro de novos casos suspeitos relacionados à ocorrência”.
A manifestação também abordou os dois óbitos mencionados. “A Secretaria adotará todas as providências cabíveis após o término da apuração”.
Os demais problemas apontados pelo Cruzeiro do Sul foram questionados à pasta, mas não houve esclarecimentos sobre esses assuntos.
O Seconci foi procurado por e-mail e também por meio de contato direto com sua assessoria de imprensa. A entidade orientou que os questionamentos fossem encaminhados à Secretaria da Saúde, mas não apresentou posicionamento próprio. O espaço permanece aberto para manifestações.