Morte de anta reacende alerta sobre caça ilegal na região de Tapiraí
Caso do animal conhecido como Neymar expõe uma prática recorrente que ameaça a fauna da Mata Atlântica
A morte da anta conhecida como Neymar, em Tapiraí, na Região Metropolitana de Sorocaba (RMS), ultrapassou a perda de um animal silvestre. O caso, que mobilizou equipes de resgate, especialistas e moradores, reacendeu o alerta para um crime que continua ameaçando a biodiversidade brasileira: a caça ilegal. Embora proibida por lei, a prática ainda coloca em risco espécies nativas, compromete o equilíbrio dos ecossistemas e desafia a fiscalização em diferentes regiões do país.
Resgatado em 8 de junho, após ser encontrado debilitado às margens da Estrada Municipal Gumercindo Alves da Silva (TPR-188), o animal recebeu atendimento especializado no Núcleo da Floresta, em São Roque, mas não resistiu. O laudo da instituição apontou que Neymar apresentava perfurações compatíveis com disparos de arma de fogo e morreu em decorrência de complicações relacionadas ao chumbo.
O episódio provocou comoção entre moradores e ganhou repercussão nas redes sociais. Para especialistas, porém, a morte da anta está longe de representar um caso isolado. Ela evidencia uma realidade que permanece distante dos holofotes: a caça ilegal continua fazendo vítimas silenciosamente em áreas de mata preservada.
Em Tapiraí, município inserido em um dos mais importantes remanescentes de Mata Atlântica do Estado de São Paulo, moradores denunciam que a prática ocorre com frequência em propriedades rurais da região da Vila da Saudade, localizada na Serra de Paranapiacaba, na divisa entre Tapiraí e Pilar do Sul.
Denúncias
Morador da região, Nilton Jaracambé afirma acompanhar há anos a atuação de caçadores. Segundo ele, a atividade ocorre em uma fazenda localizada na Vila da Saudade, onde, durante anos, a Polícia Ambiental realizou fiscalizações frequentes que, conforme seu relato, resultaram na prisão de caçadores. No entanto, ele afirma que essas ações diminuíram com o passar do tempo.
Ainda de acordo com Nilton, atualmente grupos frequentariam a região, principalmente aos sábados e domingos, para caçar animais silvestres. Ele relata que os caçadores utilizariam cães para localizar as presas e cita episódios envolvendo antas, veados e outros animais. Um dos casos mencionados pelo morador é o de um veado que, segundo ele, permaneceu ferido por cerca de uma semana antes de morrer.
Para Nilton, a morte da anta Neymar apenas trouxe visibilidade para uma realidade que já ocorre há anos. "Essa teve a felicidade de causar uma comoção social, mas centenas de antas morrem ali e, infelizmente, ninguém fica sabendo", lamenta.
O Cruzeiro do Sul procurou a Polícia Militar Ambiental para comentar as denúncias, informar se há registros de ocorrências na região e esclarecer quais ações de fiscalização são realizadas na área, mas não obteve resposta. O espaço permanece aberto.
O caso Neymar
A Prefeitura de Tapiraí informou que recebeu uma denúncia sobre uma anta caída na Estrada Municipal TPR-188 na manhã de 8 de junho. Equipes da Defesa Civil foram enviadas ao local para isolar a área e acompanhar o animal até a chegada do Núcleo da Floresta, responsável pelo resgate e tratamento veterinário.
Apesar dos esforços das equipes envolvidas no resgate e do tratamento veterinário especializado, Neymar morreu dois dias depois. De acordo com o biólogo Rafael Mana, do Núcleo da Floresta, os exames identificaram perfurações compatíveis com disparos de arma de fogo e alterações neurológicas relacionadas à intoxicação por chumbo, indicando que o animal foi vítima de caça ilegal.
Para o especialista, a morte da anta representa um impacto muito maior do que a perda de um único indivíduo. As antas são consideradas grandes dispersoras de sementes e desempenham papel essencial na regeneração das florestas e na manutenção do equilíbrio ecológico.
"Uma anta macho só começa a reproduzir entre os três e quatro anos de idade. A morte de um animal como esse representa um atraso de anos para uma população que já enfrenta um declínio acentuado. Isso tem impacto não apenas sobre o número de indivíduos, mas também sobre a diversidade genética da espécie", explica.
Rafael Mana ressalta que a retirada desses animais compromete diretamente o funcionamento do ecossistema. "Quando a gente tira esses animais de uma floresta que depende deles para a dispersão de sementes, gera um impacto ambiental a médio e longo prazo. As antas são consideradas as jardineiras da floresta justamente porque ajudam a manter a dinâmica natural desses ambientes."