Figo abre caminho para o turismo rural em Alambari
Produtor aposta na colheita de frutos totalmente maduros e transforma a propriedade em destino para visitantes durante a reta final da safra
João Frizo
Entre figueiras, mata preservada e trilhas pelo campo, uma propriedade rural de Alambari, Região Metropolitana de Sorocaba, mostra como uma fruta que até pouco tempo era pouco cultivada no município passou a movimentar não apenas a agricultura, mas também o turismo e a economia local.
Um dos responsáveis por esse movimento é o produtor rural Daniel Nache, 42 anos. Na propriedade da família, ele cultiva cerca de 500 figueiras e transformou a produção em uma experiência voltada ao contato com a natureza, à gastronomia e à visitação rural.
Segundo Daniel, o cultivo do figo começou a ser incentivado na região por técnicos agrícolas, mas poucos produtores permaneceram na atividade ao longo dos anos. "Começaram oito produtores aqui em Alambari. Desses oito, só restou eu", conta.
O cultivo, porém, exige dedicação constante e enfrenta desafios específicos na região. A grande amplitude térmica — com madrugadas frias e dias muito quentes — dificulta a uniformidade da maturação dos frutos e exige cuidados extras no manejo.
Além disso, ataques de pássaros já provocaram prejuízos severos em algumas safras. "O figo é uma fruta muito complexa. Já tivemos anos de perder 100% da produção por causa dos pássaros", afirma.
Produção diferenciada
As dificuldades levaram Daniel a buscar um diferencial para permanecer no mercado. Em vez de competir diretamente com grandes polos produtores, como Valinhos, referência nacional na cultura do figo, ele decidiu apostar em frutos mais maduros e mais doces, comercializados diretamente aos consumidores da região.
Segundo o produtor, o figo é uma fruta não climatérica, ou seja, não continua amadurecendo depois de colhido. "O figo só amadurece no pé", explica. Ainda de acordo com Daniel, o fruto permanece cerca de 90 dias verde e completa a maturação em apenas quatro dias, período em que o teor de açúcar aumenta rapidamente.
Por causa do transporte até os centros de distribuição, produtores de regiões tradicionais costumam colher os frutos antes do ponto ideal de maturação, reduzindo o risco de perdas durante o deslocamento. Em Alambari, a venda direta permitiu adotar outra estratégia. "Eu colho de manhã cedo e à tarde já estou entregando. Isso permite colher o figo 100% maduro", diz.
Segundo ele, esse modelo tornou possível oferecer um produto diferenciado ao mercado local e manter a viabilidade econômica da plantação mesmo diante das perdas naturais e das condições climáticas.
Dados da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) mostram que o mercado do figo permaneceu estável durante a safra passada. Na cotação divulgada em 25 de maio, o preço médio no atacado era de R$ 24,78 por quilo.
Campinas e Valinhos concentram, juntas, cerca de 90% do abastecimento do entreposto paulista, enquanto o figo roxo segue como a variedade mais comercializada. Segundo a Ceagesp, o consumo permanece concentrado em hortifrutis especializados, supermercados de regiões centrais, padarias e confeitarias.
A companhia também informou que não houve impactos climáticos generalizados sobre a safra. Em abril de 2026, foram comercializadas 124 toneladas da fruta, ante 106 toneladas registradas no mesmo período do ano passado.
Natureza e turismo
Além da produção agrícola, a propriedade passou a investir em turismo rural e experiências ligadas ao campo. Cercada por vegetação preservada e com mais de 120 variedades de frutas, a área começou a receber visitantes neste ano.
Segundo Daniel, o espaço foi criado inicialmente sem objetivo comercial. A intenção era preservar a natureza e proporcionar qualidade de vida à família. Com o tempo, porém, os elogios recebidos despertaram a possibilidade de transformar o local também em fonte de renda. "O pessoal sempre elogiava muito a propriedade e isso despertou a vontade de abrir para visitação", afirma.
A primeira abertura ao público ocorreu em abril, com almoço rural e colheita monitorada de figos. Cerca de 125 pessoas participaram da experiência. Em maio, uma nova edição reuniu outros 85 visitantes. A atividade de "colha e pague" inclui orientações sobre o ponto correto de colheita e cuidados durante o manuseio da fruta. Isso porque o látex liberado pela figueira pode causar irritação na pele. "Tem toda uma instrução antes da colheita. O leite do figo pode queimar a pele", explica.
A experiência inclui visita guiada, contato com a natureza e informações sobre todas as etapas do cultivo, da maturação aos cuidados necessários para a colheita. Agora, a proposta é investir em grupos menores e experiências mais personalizadas, com café da manhã rural e alimentos produzidos na própria propriedade.
Tradição
Consumido principalmente in natura, o figo também é utilizado na produção de doces, compotas, geleias e pratos salgados. Originária da região do Mediterrâneo, a fruta é cultivada há milhares de anos e é considerada uma das plantas domesticadas mais antigas da humanidade.
Rico em fibras, minerais e antioxidantes, o figo conquistou espaço na culinária pela versatilidade e costuma acompanhar queijos, carnes, saladas e sobremesas. No Brasil, o principal polo histórico de produção está em Valinhos, no interior paulista. Em municípios menores, porém, produtores têm apostado na venda direta ao consumidor, na qualidade da fruta e no turismo de experiência como alternativas para agregar valor ao cultivo.
Em Alambari, Daniel pretende ampliar as atividades de visitação nos próximos meses. "Agora a gente depende essencialmente da propriedade. Tivemos que buscar outras fontes de renda, e a visitação acabou entrando nessa opção". conclui