Uma das cidades mais antigas da RMS, o Berço da República reúne também turismo e cultura
Município teve origem a partir da instalação de uma capela dedicada a Nossa Senhora da Candelária
Quem caminha pelas ruas do Centro Histórico de Itu percebe rapidamente que o tempo parece correr em outro ritmo. Entre igrejas centenárias, fachadas coloniais e praças que guardam memórias de diferentes gerações, a cidade convida moradores e visitantes a uma viagem pela história do interior paulista, um percurso que atravessa séculos e ajuda a entender por que o município se tornou um dos mais importantes do Estado. Fundada em 1610, Itu chega aos 416 anos amanhã (2) como uma das cidades mais antigas da Região Metropolitana de Sorocaba e referência histórica no interior paulista.
O município teve origem a partir da instalação de uma capela dedicada a Nossa Senhora da Candelária, marco inicial do povoado conhecido como Utu-Guaçu, expressão de origem tupi associada à abundância de águas da região.
Elevada à condição de vila ainda no século XVII, Itu cresceu lentamente até ganhar impulso econômico no final do século XVIII e ao longo do XIX, impulsionada principalmente pelo ciclo do açúcar. Esse período de prosperidade transformou a cidade em um importante centro agrícola e comercial da então Província de São Paulo, criando as bases para seu protagonismo político nas décadas seguintes.
No início do século XIX, Itu já figurava entre os municípios mais ricos do interior paulista. Em reconhecimento ao apoio à Independência do Brasil, recebeu em 1823 o título de “Fidelíssima”, concedido por D. Pedro I. Anos depois, participou ativamente da Revolução Liberal de 1842, reafirmando sua presença nos principais episódios da história nacional.
Patrimônio e identidade
Grande parte desse passado permanece visível no Centro Histórico, onde se concentram alguns dos principais cartões-postais da cidade. A Igreja Matriz Nossa Senhora da Candelária, inaugurada em 1780, as igrejas do Carmo e do Senhor Bom Jesus, além do Cruzeiro Franciscano, obra atribuída ao Mestre Thebas, são testemunhos da riqueza econômica e cultural de outros períodos.
As construções em taipa de pilão e taipa de mão, bem como as fachadas preservadas, ajudam a contar a trajetória urbana de Itu desde os primeiros tempos coloniais. Esses marcos arquitetônicos dialogam com a produção artística local, que revelou nomes como Almeida Júnior, Miguelzinho Dutra, Elias Álvares Lobo e Jonas de Barros, além de artistas que escolheram Itu como morada, caso de Jesuíno do Monte Carmelo.
A cidade também se destacou no campo educacional, com a implantação da primeira escola destinada à alfabetização de mulheres, em 1859, e do Colégio São Luís, em 1867, consolidando-se como polo cultural e formativo da região.
Convenção e República
Entre os espaços mais simbólicos está o Museu Republicano Convenção de Itu, instalado no prédio onde, em 18 de abril de 1873, ocorreu a Convenção Republicana.
Segundo a Anicleide Zequini, doutora especialista em Pesquisa e Apoio de Museu, Itu se consolidou como um polo político ainda no século XIX, quando já figurava entre as cidades mais ricas da Província de São Paulo. “Esse contexto econômico ajudou a fortalecer lideranças locais e abriu espaço para a organização do movimento republicano”, explica.
Foi nesse cenário que, em 18 de abril de 1873, o município sediou a Convenção Republicana, reunindo 133 representantes dos Clubes Republicanos paulistas. “Ali foram lançadas as bases do Partido Republicano Paulista. A partir da institucionalização do partido, tornou-se possível concorrer às eleições e ocupar posições importantes na política nacional”, afirma.
Ela lembra que Itu também recebeu o título de Fidelíssima, concedido por D. Pedro I em 1823, participou da Revolução Liberal de 1842 e é terra natal de Prudente de Moraes, primeiro presidente civil do Brasil. “São episódios que ajudam a entender por que a cidade ocupa um lugar tão relevante na história política do País.”
“A herança do período açucareiro permanece visível tanto nas edificações religiosas quanto na produção artística local”, observa.
A pesquisadora explica que o acervo do Museu Republicano permite compreender o processo de organização política da segunda metade do século XIX e o início da República. “Temos documentos relacionados à Convenção de Itu e dois importantes conjuntos presidenciais, de Prudente de Moraes e Washington Luís, compostos por objetos pessoais, fotografias e bibliotecas abertas à pesquisa pública.”
Para quem chega à cidade, ela recomenda iniciar o roteiro pelo próprio Museu Republicano, instalado no edifício onde ocorreu a Convenção. “O prédio é um testemunho material daquele momento histórico, e os painéis de azulejos já convidam o visitante a mergulhar na história política e cultural de Itu.”
Anicleide também ressalta o papel educativo da instituição na relação da população com o passado. “Projetos com escolas, exposições, cursos e palestras ajudam a manter viva a memória republicana. Muitas gerações já passaram por aqui e deixaram suas marcas. Cabe às futuras preservar essa memória”, completa.
Memória e educação
Além do patrimônio arquitetônico, a especialista ressalta o papel educativo do Museu na relação da população com o passado. Projetos desenvolvidos junto às escolas, exposições, cursos e palestras ajudam a manter viva a memória republicana. Fundada em 1923, a instituição soma mais de um século de atuação.
Hoje, quem percorre o Centro Histórico encontra uma cidade que preserva suas raízes, mas segue em movimento, conciliando tradição, turismo e vida cultural ativa. Igrejas, museus, praças e espaços culturais formam um roteiro que conecta moradores e visitantes à história local, enquanto novas iniciativas buscam fortalecer o desenvolvimento urbano e social.
Programação dos 416 anos
Dentro das comemorações dos 416 anos, celebrados oficialmente amanhã, a Prefeitura preparou uma programação especial que reúne atividades esportivas, culturais, religiosas e institucionais em diferentes pontos da cidade.
As atividades começam hoje (1º), às 7h, com o Passeio Ciclístico Caminho do Padre Bento, com saída do estacionamento do Paço Municipal. À noite, às 18h30, o Espaço Fábrica São Luiz recebe a cerimônia de entrega da Medalha Domingos Fernandes, que homenageia personalidades que contribuíram com o desenvolvimento do município, neste ano, o agraciado será Denis Batalha, com apresentação da Banda União dos Artistas.
Na sequência, às 19h30, acontece o tradicional acendimento da Pira, na praça Padre Anchieta (praça do Bom Jesus), marcando simbolicamente o aniversário da cidade. Encerrando o dia, às 20h, dentro da Festa Italiana, a praça da Matriz recebe apresentações da Banda Via Roma e dos Três Tenores Brasileiros.
Amanhã, feriado municipal, a programação começa às 10h, com missa em louvor à Nossa Senhora da Candelária, padroeira de Itu, na Igreja Matriz. Às 13h ocorre o tradicional Corte do Bolo, com apresentações do Grupo Folklórico Stella Bianca e shows da Banda Via Roma e da Banda SPX.
Ainda no feriado, às 15h, no Paço Municipal, será oficializada a parceria da Prefeitura com a equipe feminina do Kansas City Current, da principal liga de futebol feminino dos Estados Unidos, que terá Itu como sede de seu projeto no Brasil. Às 16h30, será inaugurado o Ceama+ (Centro Especializado de Atenção Municipal ao Autista), na Praça Duque de Caxias.
Na terça-feira (3), a agenda segue com a entrega de quatro unidades educacionais. Outros eventos, inaugurações e entregas estão previstos ao longo de fevereiro.
Museu Republicano
Além da agenda oficial da Prefeitura, o Museu Republicano Convenção de Itu também participa das celebrações com uma programação cultural gratuita ao longo de fevereiro. Inspiradas no próprio acervo da instituição e em pesquisas históricas, as atividades buscam aproximar o público da memória da cidade por meio de experiências práticas e educativas.
A programação inclui mediações que apresentam os painéis de azulejos do Museu, que retratam passagens da história de Itu entre os séculos XVII e XIX, oficinas de aquarela inspiradas nas obras de Miguel Dutra, atividades que resgatam memórias do carnaval a partir de jornais e fotografias antigas e uma oficina de composição fotográfica baseada no acervo da família Katahira, abordando temas como enquadramento, luz e narrativa visual.
Também integra a agenda a cerimônia de posse da historiadora Lígia Souza Guido na Academia Ituana de Letras, realizada no Centro de Estudos do Museu Republicano, reforçando o vínculo da instituição com a produção cultural e intelectual do município.
Com entrada gratuita, as ações acontecem entre os amanhã e 28 de fevereiro, no Museu Republicano e no Centro de Estudos, ambos no Centro Histórico. Parte das atividades exige inscrição prévia, e a programação completa pode ser consultada nos canais oficiais da instituição.
Entre passado e presente, Itu comemora mais de quatro séculos reafirmando sua importância histórica e cultural, ao mesmo tempo em que projeta novos caminhos para o futuro. (João Frizo)