Lixo atômico guardado em Itu está à venda

Material radioativo é resíduo de mineração e permanece armazenado desde a década de 1970

Por Cruzeiro do Sul

Depósito tem cerca de 3.500 toneladas e fica em terreno cercado com alambrados


Falar em materiais atômicos ou radioativos costuma despertar preocupação imediata. Afinal, grandes desastres históricos criaram um imaginário trágico em torno dessas substâncias. No entanto, nem sempre o risco é alarmante: rejeitos de baixa intensidade, por exemplo, não representam ameaça significativa de radiação. Esse é o caso do lixo atômico que está depositado no sítio São Bento, no bairro Botuxim, em Itu, na Região Metropolitana de Sorocaba (RMS).

O resíduo em questão seria o chamado “Torta II”, um material sólido radioativo de baixo nível, gerado pelo tratamento químico da monazita. O material é formado por elementos de terras raras, tório e hidróxido de urânio.

No depósito de Itu, segundo documento da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), estariam cerca de 3.500 toneladas. Há outros dois depósitos do mesmo material: um em Caldas, no Estado de Minas Gerais, que seria maior, com cerca de 11.334 toneladas, e outro em São Paulo, com aproximadamente 590 toneladas.

Um especialista em energia nuclear, que preferiu não se identificar, disse que esse tipo de lixo, normalmente, é composto por todos os materiais que entram em contato com a radiação, como picaretas, pás, roupas, instrumentos de segurança, entre outros. Qualquer objeto que tenha sido testado e constatado como irradiado e com potencial de contaminação é descartado junto com o metal.

Segundo a Prefeitura de Itu, o material veio da Usina de Santo Amaro (Usam), localizada no bairro do Brooklin, em São Paulo, e desativada nos anos 1990. O local processava areia monazítica para extrair terras raras.

Leilão

O material, que atualmente está sob responsabilidade da INB, foi posto em leilão em 2024. Na primeira versão do edital, o prazo limite para entrega de proposta de compra era 30 de setembro de 2024. Porém, nenhuma proposta foi feita e o prazo foi adiado diversas vezes. Segundo o edital, a quantia total seria de 15.424 toneladas e os principais compostos seriam hidróxido de urânio, tório e terras raras.

Para que a proposta seja validada, a empresa compradora terá que garantir a segurança de todo o processo: desde a retirada dos depósitos atuais, passando pelo transporte, até o processamento, qualquer que seja o fim.

A Prefeitura de Itu informou que, de acordo com a INB, o material está armazenado de forma correta e sob normas de segurança.

Segundo a professora Camila A. de Oliveira Martins Arakaki, esses elementos, por serem de baixa radioatividade, apresentam baixo risco para humanos e animais. Apenas uma exposição muito prolongada poderia aumentar o risco de câncer. Em caso de aspiração ou ingestão do resíduo, os problemas podem ser mais graves.

Ainda de acordo com Camila, caso os materiais sejam mal armazenados, pode ocorrer a lixiviação — processo de contaminação do solo a partir do contato da água com o material em questão. Isso pode levar à contaminação do solo e de lençóis freáticos, além da chamada “bioacumulação”, que é a concentração desses materiais em plantas e animais, podendo contaminar toda a cadeia alimentar.

A professora explica que as “terras raras” são materiais formados pelos lantanídeos, elementos que aparecem em linhas abaixo da tabela periódica tradicional, mais o escândio e o ítrio. Hoje em dia se sabe que eles não são tão raros, mas, no momento da descoberta, acreditava-se que fossem, e o nome acabou se mantendo.

No geral, esses materiais são utilizados para a fabricação de ímãs de alto desempenho, baterias de celular, aerogeradores e outras aplicações industriais de alto rendimento. (Vernihu Oswaldo)