Sorocaba e Região

Prédios do Sabe Tudo continuam sem uso em Sorocaba

Das 32 unidades, apenas duas estão ocupadas; programa prevê projetos de integração com a comunidade
Prédios do Sabe Tudo continuam sem uso
Unidade do Parque das Laranjeiras foi cedida para a Asipeca, entidade estuda a revitalização do prédio. Crédito da foto: Emidio Marques (22/10/2019)

 

Dos 32 prédios antes utilizados como Sabe Tudo, apenas dois estão ocupados e se encaixam nos moldes do programa nomeado Unidade de Proteção Cidadã. As outras 30 unidades seguem, após mais de três anos, inutilizadas e em processo de deterioração. Criado pela Prefeitura de Sorocaba há um ano, o novo programa previa a ocupação dos prédios por entidades dispostas a desenvolver projetos de integração com a comunidade. Atualmente a unidade do Jardim Maria do Carmo é utilizada pela autarquia Investe Sorocaba e a do Paineiras foi disponibilizada para a Associação Antonio José Guarda.

Sobre o prédio onde atualmente está instalada a autarquia Investe Sorocaba, a Prefeitura de Sorocaba informou que antes da cessão do próprio, a Secretaria de Conservação, Serviços Públicos e Obras (Serpo), providenciou a manutenção e revisão hidráulica e elétrica do prédio com equipes próprias e a Secretaria de Meio Ambiente, Parque e Jardins (Sema) efetuou a manutenção das árvores e roçagens do terreno. “Coube à autarquia a aquisição de tintas para pinturas de algumas paredes, materiais elétricos para a substituição da iluminação interna e externa, além de providenciar a limpeza pesada do prédio, bem como os serviços de manutenção do mobiliário existente, ao custo total de aproximados R$ 6 mil”, informou em nota.

Ao todo cinco funcionários e dois estagiários trabalham no local e segundo o Executivo, a autarquia tem “a missão de atrair recursos financeiros nacionais e internacionais, tanto públicos como privados, para que a Prefeitura de Sorocaba possa investir em infraestrutura e ações que ampliem os serviços prestados à população”.

Ressignificação

Já a Associação Antonio José Guarda, que existe desde 2004 com sede no Jardim Santa Lúcia, informa que a concessão para o uso do antigo Sabe Tudo do Paineiras ocorreu em 31 de março deste ano, mas por conta da deterioração do prédio, o local vem sendo utilizado como um verdadeiro “canteiro de obras” pelos alunos do curso de elétrica residencial que a entidade oferece. “Acho que esse prédio era um dos que estavam em pior estado e estamos fazendo uma recuperação nele para dar também as etapas teóricas dos cursos que oferecemos gratuitamente”, contou Celso Amaral, presidente da associação.

Prédios do Sabe Tudo continuam sem uso
No Jardim Santo André, prédio do Sabe Tudo está pichado e também segue sem uso. Crédito da foto: Emidio Marques (22/10/2019)

Ele explica que os alunos do curso estão fazendo os reparos elétricos na unidade e futuramente, além dos cursos, pretende utilizar o último andar do prédio — um mezanino — como espaço de atrações culturais para os moradores do bairro. “Já estamos desenvolvendo mais de 100 cursos online, todos gratuitos e quando o prédio estiver finalizado será possível realizar também as aulas presenciais”, conta. Outra intenção é montar um laboratório de reparos de smartphones e tablets no local. “Dessa forma a gente consegue ensinar à comunidade maneiras de geração de renda”, destaca.

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Amaral também disse que já solicitou à Prefeitura a concessão de mais unidades do antigo Sabe Tudo, entre elas a do Parque São Bento e assim poderá ampliar a oferta de cursos, até mesmo de nível superior. “Estamos aguardando todas as autorizações.” O processo de concessão, recorda, é sempre muito moroso.

A Secretaria de Segurança e Defesa Civil (Sesdec) informou que foi a outras associações de amigos de bairros, Ongs e algumas secretarias demonstraram interesse em utilizar os demais prédios hoje desocupados. A pasta afirmou que todas as solicitações estão em análise, mas não informou um prazo para a concretização das concessões. “A Sesdec vem adotando medidas administrativas para o seu efetivo compartilhamento por meio de visita técnica aos espaços escolhidos pelos interessados, para possíveis reformas e adequações do prédio”, disse em nota.

Mão na massa

Prédios do Sabe Tudo continuam sem uso
Fernando e Margarida, alunos da Associação Guarda, fazem parte do grupo que trabalha na reforma do prédio do bairro Paineiras. Crédito da foto: Fábio Rogério (22/10/2019)

O professor do curso de elétrica da associação, Sérgio Bello, conta que é uma satisfação para os alunos que trabalham na recuperação do prédio, que já está todo pintado. “O serviço de pintura também foi feito por alunos e aos poucos vamos organizando tudo. Entre os alunos, há homens e mulheres, entre 17 e 69 anos. A mais experiente do grupo, hoje com nove pessoas, é a aposentada Margarida Maria da Silva, 69, que decidiu aprender sobre instalações elétricas para se virar nos pequenos reparos em casa. “Ficou mais especial ainda agora, que estamos trabalhando para servir a comunidade”, comemorou.

Já o pedreiro Fernando Luiz dos Santos, 58, conta que já fez também o curso de encanador na associação e com o de elétrica pretende tornar-se um profissional de construção civil mais completo. “Pego algumas obras e agora já consigo atender o cliente em todas as necessidades”, conta. Morador das proximidades do prédio do antigo Sabe Tudo, o aluno conta que voltar a fazer o prédio ser útil é uma satisfação.

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Algumas unidades estão deterioradas

Prédios do Sabe Tudo continuam sem uso
No Laranjeiras, prédio é usado por moradores de rua. Crédito da foto: Emidio Marques (22/10/2019)

Enquanto duas unidades ganham novo sentido, 30 prédios seguem desocupados e alguns vandalizados. A situação mais crítica é na unidade do Parque das Laranjeiras. Sem proteção por muros ou grades, o prédio fica ao lado da escola estadual Professor Antonio Cordeiro e virou moradia de pessoas em situação de rua e dependentes químicos. “Moram umas dez pessoas aí dentro e direto a gente escuta brigas, quebradeira e é um perigo para as crianças da escola também, já que acabou virando um ponto de tráfico”, reclama uma moradora das imediações que preferiu não se identificar.

Já o jardineiro Alexandre Correa, 42, que mora em frente ao prédio, contou que há quase um ano o local está sem proteção ao redor. Nas entradas foram colocados tijolos, já quebrados por vândalos. “Precisam utilizar isso de alguma forma que beneficie a comunidade. É um elefante branco. Gastaram o nosso dinheiro com essas construções que hoje são inúteis e só causam danos aos bairros”, reclamou.

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A Associação de Socorro Imediato a Pessoas com Câncer (Asipeca), que tem a sede no Parque das Laranjeiras, contou que conseguiu a concessão do prédio no mês passado, mas ainda estuda uma forma de revitalizar a unidade. “Precisamos levantar recursos para fazer uma reforma”, disse a coordenadora da entidade, Ana Cecília Fogaça. A Asipeca oferece atendimento médico e social a pacientes oncológicos.

Prédios do Sabe Tudo continuam sem uso
Prédio do Sabe Tudo no bairro Santa Bárbara está fechado e sem uso. Crédito da foto: Emidio Marques (22/10/2019)

Correa conta que os moradores do bairro estão dispostos a fazer um mutirão para reformar a unidade, já que em seu estado atual é um problema para a vizinhança. “Todos aqui estão insatisfeitos com a situação e cada um pode contribuir de uma forma para fazer isso aqui funcionar para o povo, que paga imposto em dia e vê uma má administração.” O aposentado João de Souza, 78, mora no bairro há 16 anos e também apoia o uso do prédio pela Asipeca. “Pelo menos vão usar para uma boa causa. Hoje isso aqui virou ponto de tráfico e eu entendo que também é um problema de saúde pública e de segurança, que cabe ao município solucionar”, destacou o cidadão.

As unidades do Jardim Santo André, também na zona norte, e a do Jardim Santa Bárbara, no zona oeste, também foram visitadas pelo Cruzeiro do Sul e ambas estão pichadas. “Dá pena ver algo que já funcionou hoje não servindo para nada”, lamentou uma moradora do Jardim Santo André, que preferiu não se identificar.

Questionada sobre os prédios vandalizados, a Prefeitura informou que a “Guarda Civil Municipal (GCM) intensificou os patrulhamentos nas unidades”. (Larissa Pessoa)

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