Sorocaba e Região

Onda de calor castiga sorocabanos que trabalham nas ruas

Trabalhadores que ficam sob o sol explicam como lidam com as altas temperaturas
Previsão é de que as altas temperaturas continuem em fevereiro. Foto: Erick Pinheiro

Quem conhece Carlos Divino Chaves, de 80 anos, pode ter dificuldade para acreditar na idade contada com orgulho por ele. O homem ainda trabalha cheio de vigor. E, de fato, é necessário ter boas condições ao lidar com serviços de roçagem e jardinagem. Mais do que isso: além da parte física, o sol escaldante não tem tido piedade neste verão. Aliás, projeções do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC-Inpe) e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) davam conta de que a temperatura média no Brasil entre dezembro, janeiro e fevereiro superaria os 31,5ºC registrados em iguais períodos de 2017 e 2018.

Carlos e José trabalham no sol. Foto: Erick Pinheiro

Chaves presta serviços de roçagem e jardinagem há pelo menos oito anos. “No sol quente, ficar parado é pior”, comenta. Ao lado dele, o companheiro de trabalho José Aparecido da Rosa, 47, admira o colega e, com a possibilidade de ouvir a voz da experiência no dia a dia, aproveita e pega dicas. Por isso, quando vai usar os equipamentos para deixar os arbustos milimetricamente cortados, praticamente se transforma: boné com um pedaço de camiseta acoplado para proteger o pescoço, mangas compridas, óculos de sol e protetor solar são regras. “Chego a beber cinco litros de água por dia”, contou ele no início desta semana, enquanto trabalhava sob sensação térmica de mais de 35ºC no Campolim.

A alguns metros dali, o pai Roni Ramak Doro, 36, e o filho Gabriel Ramak Doro, 15, formavam a dupla dinâmica que mata a sede dos motoristas que param no semáforo. Também precisam suportar os raios impiedosos de sol. “A gente passa (protetor) fator 50, pelo menos de três em três horas”, diz Roni. “E quando abre o sinal, o segredo é correr para a sombra”, emenda Gabriel. O calor, embora intenso, é o motivo do ganha-pão da família: eles vendem ao menos três isopores cheios de garrafas d’água por dia.

Roni e Gabriel vendem água em semáforo. Foto: Erick Pinheiro

Quem também fica em contato direto com o sol é o repórter Caio Rossini, 28, da rádio Cruzeiro FM 92,3. Para as transmissões ao vivo, ele permanece atrás de um dos gols e reporta as partidas do São Bento. Na estreia do Azulão no Campeonato Paulista, diante do Botafogo-SP, em Ribeirão Preto, às 11h, o efeito dos raios solares foi traiçoeiro. “E olha que gastei quase um tubo de protetor solar”, postou ele em uma rede social exibindo a foto de um dos braços extremamente vermelho. São 10 anos de carreira, mas nunca havia ficado dessa maneira. “De ficar queimado assim foi a primeira vez. Mas ‘calorão’ é normal, e não foi o pior lá. Trabalhei com sensação térmica de 42 graus em Mirassol e a gente ainda era obrigado a trabalhar de calça.” “Minha preocupação é sempre a hidratação, chego a tomar dois litros durante o jogo”, acrescenta.

Caio: é preciso muita água. Foto: Erick Pinheiro

Sem sol, mas com calor

As cozinheiras Ivone Toledo dos Santos, 48, e Fatima Maria da Silva Marciano, 57, atuam neste ramo há 10 e 30 anos, respectivamente. “Não tem muita alternativa (para o calor), mas a gente se acostuma”, garante Ivone. “A gente passa a maior parte do dia de frente para o fogão. E a tendência é o calor sempre aumentar”, cita Fatima. Elas procuram se hidratar bastante para amenizar o calor e, também, recebem garantias dos chefes de que a cozinha onde trabalham atende a Norma Regulamentadora (NR) 15, sobre atividades e operações insalubres. O limite de tolerância para exposição ao calor pode chegar no máximo a 30ºC. Lá, conforme a última medida, a temperatura média foi de 24,6ºC.

Fatima passa o dia em frente ao fogão. Foto: Emídio Marques

Há quem precise se agasalhar nesta época

Se o calor e o sol podem ser vilões durante o trabalho, há também quem viva o lado B da moeda e tenha de encarar o frio na “labuta”. É o caso de quem é funcionário na linha de produção em fábricas de gelo. De acordo com Daniel Jurado, diretor da Engelo, empresa do segmento em Sorocaba, há fiscalização para saber se os colaboradores estão usando os equipamentos de segurança e roupas apropriadas, como casacos e meias térmicas, luvas, botas e, por vezes, toucas “ninjas”. “Na produção, a temperatura geralmente é de 18 graus. Na câmara fria, onde se armazena o gelo antes do transporte, vai para -10 graus”, diz.

Na empresa, são produzidos gelo em cubo e gelo triturado. Além de ser usado, entre outras coisas, para gelar bebidas, conservar alimentos e vacinas, contribuir em processos industriais, o produto, curiosamente, também traz soluções para construção civil, já que pode auxiliar no resfriamento do concreto. Rogério Alves Bezerra, 29 anos, trabalha há 11 anos na empresa e hoje é líder de produção. Lembra facilmente do início no serviço. “Eu era garçom, então o começo foi complicado. Cheguei a pegar gripe, parecia que congelava os ossos”, recorda ele, dizendo que demorou pouco mais de um mês para se adaptar.

Rogério trabalha em fábrica de gelo com temperatura de -10ºC. Foto: Emídio Marques

Apesar do frio considerável, o diretor da empresa afirma que, com o tempo, alguns trabalhadores chegam até a transpirar ao carregar os sacos com gelo. A versão é confirmada por Bezerra. “É verdade. Dependendo do dia, dá até para sair suando daqui”, brinca.

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