Banca da Sé guarda 78 anos de histórias de Sorocaba

Filho do fundador, Miguel Moreira Machado Júnior cresceu atrás do balcão e coleciona causos, tragédias e afetos da cidade

Por Vernihu Oswaldo

Miguel conhece os clientes pelo nome e trata todos como amigos

Por vezes, uma grande história nos engana. Ela está onde não se espera. Em prateleiras cheias de jornais e revistas, onde histórias se acumulam e outras não se perdem, a grande história está na voz firme do senhor atrás do balcão.

Miguel Moreira Machado Júnior cresceu dentro da Banca da Sé, localizada na Praça Coronel Fernando Prestes, e já aos 9 anos ajudava no local. "A palavra 'Sé' são iniciais. O 'S' é de sede e o 'E', de episcopal. Então, a sede episcopal de Sorocaba é essa aqui. Lá na Praça da Sé tem a Catedral da Sé, que é a sede episcopal da cidade de São Paulo. E aqui é a sede episcopal de Sorocaba. Por isso o nome", explica.

A banca foi fundada por seu pai em 1948. Desde então, toda a família teve sua história entrelaçada à dela. Os três irmãos, Miguel, José e Carlos, passaram pelo balcão. E a terceira geração já chega para ocupar o espaço e manter a tradição.

Nos tempos românticos do jornalismo, milhares de jornais e revistas adornavam as prateleiras e eram vendidos não apenas como produto: a banca era um ponto de encontro aonde a cidade inteira chegava. De lá para cá, amigos ficaram. Alguns deixaram saudade. Miguel testemunhou a cidade se transformar.

Entre as histórias familiares, a cidade se entremeia e cria uma imensa trama. Miguel relembra grandes momentos de Sorocaba, como a "Noite do Beijo", em 1981, quando milhares de pessoas se reuniram na praça para se beijar em público, em protesto contra uma portaria do juiz de direito Manuel Moralles que pretendia proibir beijos em praças públicas, por considerá-los "atos obscenos".

As transformações físicas da praça também chamam a atenção de Miguel: "Tinha o banheiro subterrâneo da praça. Aqui, qualquer ocorrência no banheiro, pelo que eu sei, chamavam a Polícia Militar. Até o comandante falou que seria preciso criar uma força especial para cuidar do banheiro público. Ele ficava ali no meio da praça."

Mas, como em qualquer história familiar, as felicidades são parecidas, e as tristezas, próprias. Miguel se emociona ao se lembrar do irmão. Com a voz embargada e os olhos úmidos, ele conta sobre o crime que tirou a vida de Carlos. "Foi um dia fatídico, por volta das 7h da manhã. Não sei se era uma quarta ou uma quinta-feira. Não sei se consigo falar, vou chorar."

Mesmo com a voz trêmula, ele continua. É também uma forma de homenagear o irmão. Naquele dia, um assaltante entrou na banca, matou Carlos e fugiu de táxi. As notícias correram rapidamente, e uma denúncia levou a polícia a um daqueles hoteizinhos do Centro, onde o acusado foi encontrado embaixo da cama. Condenado a 26 anos, o homem cumpriu só um terço da pena, de acordo com Miguel.

"Meu irmão era gente fina para caramba, trabalhou bem, era super contente e ajudava bastante", lembra.

A resistência da Banca da Sé, e de Miguel, não se sustenta apenas na história, mas também no cotidiano. Miguel conhece gerações de famílias sorocabanas. Há clientes fiéis de quatro, cinco décadas. Ele lembra com carinho de uma senhora que, mesmo morando longe, exige que o filho a leve até o Centro. "Mãe, tem lugar mais perto", tenta argumentar o filho. "Não, eu quero ir lá na banca do Seu Miguel", responde ela. Para ele, o balcão funciona quase como um divã. "Tem cliente que não gosta só de chegar, pagar e ir embora. Gosta de conversar, às vezes quer desabafar. A gente escuta, a gente orienta", orgulha-se Miguel.

A praça também foi palco de verdadeiros fenômenos culturais que ditavam as conversas da cidade. Miguel recorda as edições históricas de revistas que sumiam das prateleiras, como a que trazia a jogadora de basquete Hortência, que atuou em Sorocaba. A revista chegou a vender impressionantes seis mil exemplares apenas na Banca da Sé e se tornou o recorde de vendas do local.

E as histórias passam de pai para filho e se perpetuam no imaginário sorocabano. Miguel relembra algumas contadas pelo pai, principalmente sobre as visitas de Getúlio Vargas a Sorocaba, ocasiões em que o perímetro do Centro era isolado para os discursos do presidente na sacada do Sorocaba Clube.

A memória mais inusitada desse período envolve um ilustre desconhecido: um morador da cidade que era a "cara escarrada" de Getúlio, da altura ao jeito de andar. A semelhança era tanta que, em um dos dias de visita presidencial, o sósia foi expressamente orientado a não circular pelo Centro para evitar qualquer confusão. O alerta não foi exagero. O episódio, absurdo, ficou marcado na memória da família Machado: segundo Miguel, o sósia teria levado um tiro depois de ser confundido com o próprio presidente. "Quase que morreu ali", reconta, preservando uma daquelas histórias que entram para o folclore da cidade.

Jornais normalmente têm a duração de um dia. Depois vão embrulhar peixe ou limpar vidros. A vida do jornalista é marcada por novas notícias; as de ontem já são velhas. E com o jornaleiro não é diferente. Miguel é um jornaleiro, por ofício e por natureza. Atrás de seu balcão, conhece as pessoas pelo nome, trata todos como amigos e sabe que o amanhã sempre chega com novas notícias. Com novas histórias.