Cemitério da Saudade revela histórias de Sorocaba
Para a pesquisadora Kelly Rufino, o Dia de Finados sempre foi um momento de observar sepulturas e imaginar as trajetórias de quem viveu antes. O costume começou na infância, quando acompanhava a avó nas visitas ao Cemitério São João Batista, em Votorantim, e hoje guia seu trabalho de doutorado: a análise dos livros de óbito do Cemitério da Saudade, em Sorocaba, com a qual busca resgatar histórias apagadas do cotidiano e entender a formação social da cidade.
Uma das lembranças mais marcantes daqueles feriados de Finados envolve um túmulo aparentemente abandonado, sem placa de identificação, ao lado da sepultura de seu bisavô. Mesmo sem saber quem estava enterrado ali, a avó tinha o hábito de limpar o local e deixar flores. Chamava o desconhecido de "vizinho" do familiar. Anos depois, o interesse de infância se transformou em pesquisa acadêmica. Para o doutorado, a orientadora sugeriu que ela trabalhasse com documentação histórica de Sorocaba. Durante as buscas, Kelly chegou aos livros de registro de óbito do Cemitério da Saudade e encontrou um conjunto documental ainda pouco explorado.
Inaugurado em 1863, no bairro Além Linha, o local gerou um acervo de aproximadamente 51 livros de registros de óbito, com documentos que abrangem o período de 1880 a 2024. O material está guardado no Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba (IHGGS). Cada volume possui entre 200 e 500 fólios manuscritos, com informações sobre os falecimentos de moradores da cidade. O livro mais antigo, porém, não foi preservado, e não há notícias sobre seu paradeiro.
Kelly explica que esses documentos apresentam uma característica particular: diferentemente dos registros paroquiais, bastante utilizados em pesquisas históricas, os livros do Saudade pertencem à esfera pública e administrativa. Isso se reflete na forma como as informações foram escritas e organizadas e oferece outras possibilidades de investigação sobre a história local.
O doutorado prevê a edição semidiplomática de um dos livros de óbito, acompanhada de análise filológica. O método permite transcrever o documento mantendo, tanto quanto possível, suas características originais. A proposta também inclui a elaboração de um material pedagógico para os anos iniciais do Ensino Fundamental, que utiliza os registros históricos para aproximar os estudantes da documentação antiga e da história de Sorocaba.
As divisões da morte
A organização do Cemitério da Saudade também ajuda a compreender as diferenças sociais e religiosas de outras épocas. A disposição das sepulturas e a arquitetura dos jazigos mostram que nem mesmo a morte eliminava as distinções existentes em vida. Túmulos suntuosos dividem espaço com outros bastante simples, enquanto algumas áreas apresentam separações relacionadas à idade e à religião. Um exemplo é a chamada "Quadra dos Anjos", destinada inicialmente ao sepultamento de crianças. Ali há placas infantis, mas, com o tempo, pessoas de outras idades também passaram a ser enterradas na quadra.
A divisão religiosa também influenciou a organização do espaço. Originalmente, o cemitério foi planejado para receber exclusivamente católicos, com os túmulos voltados para a Catedral de Sorocaba. Depois de solicitações à prefeitura, uma área acima da capela foi destinada aos protestantes. Nessa ala, as sepulturas foram posicionadas na direção oposta, de costas para a catedral.
Entre as histórias recuperadas pela pesquisadora nos registros do cemitério, também estão episódios de violência que acabaram esquecidos. Um deles envolve o dentista Benedito Dias e sua esposa, Sônia Maria. O casal havia comprado uma propriedade em Paragominas, no Pará, e se mudado para lá a fim de administrar a fazenda, enquanto ele também trabalhava em uma cidade vizinha.
Após desaparecerem, os dois foram encontrados mortos, vítimas de golpes de foice. O corpo de Benedito estava esquartejado dentro de um poço. O da esposa, que estava grávida de seis meses e apresentava indícios de violência sexual, havia sido escondido na despensa da residência. O jornal Cruzeiro do Sul noticiou a morte do casal em 1º de fevereiro de 1977 e, em agosto do mesmo ano, a prisão de um suspeito. Em janeiro de 1978, o jornal publicou um resumo do caso, que ficou conhecido como "Crime do Poço".
Outra história trágica recuperada por Kelly é a de Therezinha Carvalho, assassinada por seu patrão, Alexandre Urbina, que teria tirado a própria vida logo depois. Os dois estão sepultados no Saudade, mas em túmulos distantes, que evidenciam a diferença social entre eles. O crime foi noticiado pelo Cruzeiro do Sul em 25 de fevereiro de 1951.
A pesquisa também resgata episódios ligados à estrutura do Cemitério da Saudade, como o de uma das entradas originais, na rua Princesa Isabel. O portão acabou sendo fechado, e uma das explicações para a mudança seria a existência de uma grande cova coletiva nas proximidades, onde teriam sido enterradas vítimas da febre amarela.
Memória urbana
Os livros de óbito permitem ainda reconstruir relações familiares e investigar a origem de parte da população sorocabana. A partir dos registros, é possível elaborar árvores genealógicas, identificar nacionalidades presentes na formação da cidade e perceber quais grupos aparecem pouco ou não estão representados nos documentos, como negros e indígenas, cujas trajetórias nem sempre foram registradas ou preservadas nos arquivos oficiais.
Para Kelly, o cemitério funciona como um retrato da própria vida urbana. A localização das sepulturas, os diferentes níveis de ornamentação dos túmulos e as histórias gravadas nas lápides revelam aspectos da organização social e cultural de cada período.
Segundo a pesquisadora, os registros escritos e as inscrições nas sepulturas formam uma espécie de memória da vida sorocabana, reunindo histórias de pessoas e lugares pelos quais os moradores passam diariamente, muitas vezes sem conhecer seu passado. "Pelos cemitérios nós conhecemos a cidade", resume.