Fotógrafo completa 58 anos no mesmo ponto da rua da Penha
Teófilo Negrão chegou a Sorocaba em 1968 e, atrás do balcão do estúdio, viu a fotografia, o comércio e o Centro da cidade se transformarem
"A gente tem o vinco do balcão na barriga". Um balcão, uma porta. Milhares de fotografias. Cadeiras para quem quiser chegar e cumprimentos pelo nome para cada um dos passantes. A cena poderia ser de uma pequena cidade no interior. Mas é em Sorocaba, em uma das principais ruas do Centro.
Atrás do balcão da "Foto Color Lima Duarte", está Teófilo Negrão. Fotógrafo com 58 anos de experiência no mesmo local. Sua vida pode ser contada pelas fotos que tirou, mas também por sua voz firme e pelas dezenas de amigos que passam por seu comércio diariamente.
A fotografia passou pelo sangue da família. Seu pai e seu tio já eram fotógrafos antes mesmo de chegar a Sorocaba. O tio era o fotógrafo oficial do estúdio, enquanto o pai era barbeiro de dia e fotógrafo de clubes sociais à noite.
Foi em 1968 que rumaram para a cidade da Terra Rasgada. Seduzidos pela proposta de Armando Pannunzio, então prefeito, que prometia trazer as primeiras indústrias para a cidade. "Nós acreditávamos que, com a chegada das indústrias, seriam contratados muitos funcionários novos. E esses funcionários precisariam de fotografias 3x4. Naquela época, a fotografia era básica para praticamente tudo."
A aposta deu certo. E a família se estabeleceu na cidade. Os três filhos — Francisco, Teófilo e Fernando — foram atraídos pelas lentes do pai e seguiram caminhos pela comunicação. Francisco se formou em marketing; Teófilo seguiu os flashes da fotografia e Fernando se tornou jornalista.
Portas abertas
Entrar no estúdio de Teófilo é uma viagem por Sorocaba. É quase impossível não reconhecer alguns rostos pelas paredes. Pessoas importantes, ilustres desconhecidos, prefeitos, coronéis, todos. Lado a lado. Em retratos grandes ou pequenos. Pessoas saudosas que trazem memórias boas, ou pessoas das quais só reconhecemos os nomes. Incluindo fotos de seu pai com a inseparável máquina fotográfica e o inigualável bigode que marca a figura. Traço herdado e mantido por Teófilo.
Pela rua da Penha passam milhares de pessoas. Muitas param para dar, pelo menos, um bom dia para Teófilo e para seus três gatos: Toddy, Nina e Milaydi. Alguns se demoram na visita. Alguns entram para contar velhas novidades, outros pedem uma foto, um porta-retrato. Tem gente que para e pede uma foto dos gatinhos, logo vira amigo. Entre vendas e causos a vida acontece. Devagarinho.
'De papai' não foi só a fotografia
"Meu pai me ensinou que o primeiro dinheiro era o do aluguel. Quando podia, ele pagava até adiantado, porque tinha medo de ficar devendo um mês e depois não conseguir pagar dois, três."
No mesmo ponto desde que chegaram a Sorocaba, Teófilo conta que paga o aluguel antes de se preocupar com qualquer outra conta. Atualmente, após ficar viúvo, Teófilo passou a morar nos fundos do estúdio e ali, na casa 873 da rua da Penha, leva a vida.
"Faço parte de diversas entidades em Sorocaba. Em algumas, como diretor; em outras, como voluntário. Muitas vezes faço trabalhos sem honorários, apenas para colaborar, para ajudar. A vida também é isso. Não é só o dinheiro que dignifica o homem, mas o bem-estar, a amizade, o relacionamento, a cortesia. Quando você deita, deita com a consciência tranquila, sabendo que fez aquilo que estava ao seu alcance, até um pouquinho mais."
As fotografias 3x4 ainda são procuradas, assim como as revelações. Mas a agenda social de Teófilo também é lotada com eventos de lojas maçônicas, ONGs e outras associações. Por vezes precisa até dizer não a amigos que o chamam para cobrir eventos, porque já tem outro compromisso agendado.
No passado, o movimento chegava a dezenas de clientes por dia. Hoje, boa parte das fotografias que antes levavam os sorocabanos até a rua da Penha é feita diretamente nos órgãos públicos ou pelas próprias empresas. O celular também tomou o lugar das câmeras e dos filmes. Ainda assim, há quem continue procurando Teófilo...
Ele é pai de dois filhos: Lucas, que seguiu o labor familiar e é jornalista, e Nicolas, que se tornou engenheiro mecânico.
Memória em flashes
O poeta Manoel de Barros uma vez escreveu que fotografou o perfume. Leoni e Léo Jaime afirmaram que o que fica na fotografia "são os laços invisíveis que havia, as cores, figuras, motivos". Um instante entre outros instantes. Teófilo, com suas mãos hábeis e olhos curiosos, parece ser especialista neles. Não apenas com a máquina, mas também com o dom da conversa, com as portas abertas para receber amigos, seja trazendo sorrisos ou lágrimas.
58 anos vendo a cidade passar
Da porta do estúdio, Teófilo também assistiu à transformação da rua da Penha. As casas onde moravam famílias deram lugar a comércios e prédios. Restaram poucos moradores antigos. Ele permaneceu.
Mesmo que alguns sonhos tenham ficado apenas na vontade, Teófilo afirma que sempre quis ser vereador para ajudar Sorocaba. Desde os 18 anos envolvido com política, filiado, ajudando em campanhas de deputados e prefeitos, a frustração ficou. "O que posso fazer sem ser vereador eu faço", afirma, embora não pretenda se candidatar novamente.
Em uma vitrine antiga vive um pequeno museu: câmeras antigas, testemunhas de uma cidade que se transformou. Do centro que virou comercial, das pessoas que construíram a história.
"Eu me lembro de muitas pessoas que passaram por aqui. Outras já faleceram e eu tenho, inclusive, fotografias delas aqui. Então, são 58 anos de história, de pessoas que passaram, de clientes que viraram amigos."