Uso de IA sem autorização expõe dados das empresas

Incidentes ligados à chamada shadow AI mais que dobraram em um ano, segundo relatório da IBM

Por Frederico Spindola

Vazamento de dados pode estar associados ao uso sem supervisão de IA, principalmente as não homologadas

O uso de ferramentas de inteligência artificial (IA) sem autorização ou supervisão das empresas pode expor informações corporativas e gerar consequências jurídicas e de reputação. Conhecida como shadow AI (algo como "IA nas sombras"), a prática ocorre quando funcionários usam essas tecnologias para redigir e-mails, resumir documentos ou analisar dados sem seguir as diretrizes da organização.

Segundo o relatório Cost of a Data Breach, da IBM, feito com base em pesquisa do Ponemon Institute, a proporção de incidentes de segurança relacionados ao uso dessas ferramentas mais que dobrou no mundo, de 20%, no relatório de 2025, para 43%, no de 2026. O levantamento também indica que 68% das organizações que sofreram violações de dados não tinham governança adequada para gerenciar o uso de inteligência artificial ou monitorar ferramentas não autorizadas.

Para Pedro Rizzo, sócio-diretor da Apter e responsável pela área digital da empresa, um dos principais riscos é a perda de controle sobre o destino das informações. Segundo ele, contratos, planilhas e dados de clientes podem ser inseridos em ferramentas não homologadas sem que a empresa saiba onde esse conteúdo será armazenado ou se poderá ser usado no treinamento de modelos de IA.

"Com a LGPD, o que parecia uma questão técnica passa a ter consequências jurídicas e reputacionais", diz, em referência à Lei Geral de Proteção de Dados.

Rizzo defende que a inteligência artificial seja incorporada aos processos das empresas, em vez de ficar restrita ao uso individual dos funcionários. "Quando ela faz parte do processo, a segurança deixa de depender do comportamento de cada pessoa", afirma.

Quatro cuidados para usar IA no trabalho

Para reduzir o risco de vazamento de informações, o especialista recomenda quatro medidas. A primeira é usar ferramentas homologadas, com contratos que definam onde os dados ficam armazenados e proíbam seu uso no treinamento de modelos.

A segunda é controlar os acessos por meio de contas corporativas, com registro de quem usa as ferramentas e de quais funcionalidades são acessadas.

A terceira é proteger os dados antes do envio, classificando as informações e anonimizando o que for sensível antes de inseri-lo nos sistemas de IA. Também existem plataformas que intermediam o acesso à IA e aplicam regras de segurança.

Por fim, a revisão humana é indispensável. Os resultados devem ser verificados antes de qualquer uso externo. Embora a IA possa apoiar a tomada de decisões, a responsabilidade pelo conteúdo continua sendo de quem o valida e assina.

Critério simples evita compartilhamento indevido

Segundo Rizzo, o uso de ferramentas não autorizadas costuma surgir quando o funcionário precisa resolver uma tarefa e a empresa não oferece uma alternativa oficial. Por isso, além de criar regras, é importante orientar as equipes sobre quais informações podem ser compartilhadas com sistemas de IA.

O especialista sugere um critério simples: se uma informação não pode ser enviada por e-mail a alguém de fora da organização, também não deve ser inserida em uma ferramenta de IA não autorizada. A regra vale para dados pessoais de clientes e funcionários, números financeiros não divulgados, contratos, estratégias de negócio, códigos-fonte e senhas de acesso.