Empresário prevê pressão sobre economia
Flávio Amary cobra ajuste das contas públicas em 2027 e critica insegurança jurídica
O empresário Flávio Amary avalia que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá de promover ajustes nas contas públicas, buscar a redução dos juros e criar condições para estimular os investimentos a partir de 2027. Em entrevista à rádio Cruzeiro FM, na manhã de ontem (26), ele afirmou que o mercado financeiro deverá enfrentar um período de turbulência após o resultado das eleições, mas disse acreditar na possibilidade de melhora no primeiro semestre do próximo ano.
Para Amary, a perspectiva mais favorável dependerá da capacidade do governo de cumprir compromissos assumidos durante a campanha e adotar medidas para equilibrar as contas públicas. Caso isso não ocorra, segundo ele, o cenário poderá se deteriorar a partir da segunda metade de 2027, com reflexos nos anos seguintes.
"Para ele ter um governo que dê certo, ele vai ter que consertar as contas públicas", afirmou. O empresário acrescentou que o ajuste fiscal é necessário para criar condições para a redução dos juros e ampliar a disposição de empresas e investidores para realizar novos negócios.
Embora tenha declarado que não votou em Lula, Amary reconheceu a habilidade política do presidente para conquistar votos no segundo turno. Na avaliação dele, Lula conseguiu reverter o cenário eleitoral ao apresentar propostas que convenceram parte do eleitorado, embora ainda existam dúvidas sobre a capacidade de execução das promessas.
"Eu quero acreditar que a gente vai ter um momento agora difícil, nos próximos dias, nas próximas semanas", disse. Ele ponderou, porém, que o início de 2027 poderá trazer um ambiente econômico mais equilibrado. Para isso, o governo precisará avançar também em temas como a reforma administrativa e o controle das despesas públicas.
Reforma tributária
Ao comentar os desafios dos primeiros 100 dias do próximo governo, Amary destacou as incertezas que envolvem a regulamentação da reforma tributária, a adaptação das empresas às novas regras e as possíveis mudanças na jornada de trabalho.
O empresário citou a divulgação das alíquotas da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), além das medidas relacionadas à redução da jornada de trabalho e à mudança do modelo de escala 6 por 1 para 5 por 2.
Ele também questionou como o governo pretende financiar os compromissos assumidos com os microempreendedores individuais (MEIs). Na avaliação dele, a combinação de juros elevados, mudanças tributárias e dúvidas sobre os custos trabalhistas exige atenção dos empresários.
Apesar das preocupações, Amary afirmou que a atividade econômica precisa continuar. Segundo ele, mesmo diante das incertezas, as empresas seguem tendo de pagar fornecedores, receber clientes e manter as operações.
O empresário defendeu que o governo reconheça os sinais dados pelas urnas e busque uma pacificação política. Para ele, a administração federal precisa governar para além de sua base eleitoral e conciliar políticas sociais com medidas voltadas ao crescimento econômico.
Prorrogação da votação
A entrevista também abordou a decisão de prorrogar o horário de votação no segundo turno das eleições, no domingo (25), e os possíveis reflexos do episódio na confiança das instituições eleitorais.
O empresário criticou a atuação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante o episódio e considerou que a situação contribuiu para aumentar a insegurança jurídica entre partidos, candidatos e eleitores. Para ele, a tensão institucional evidenciada durante a disputa reforça a necessidade de mudanças no sistema político.
Ao ser questionado sobre os possíveis efeitos do episódio nas eleições municipais de 2028, Amary avaliou que a influência tende a ser menor do que em uma disputa presidencial.
Reforma política
Amary também defendeu uma reforma política que altere o modelo eleitoral brasileiro. Entre as mudanças citadas, estão o fim da reeleição, a unificação das eleições e a adoção do voto distrital.
Na avaliação dele, a realização de eleições a cada dois anos contribui para a instabilidade e leva empresas a adiar investimentos e decisões de longo prazo diante das incertezas políticas.
O empresário ainda manifestou preocupação com a eleição de candidatos impulsionados pela popularidade nas redes sociais. Para ele, esse movimento pode abrir espaço para políticos sem experiência e reduzir a presença de representantes com trajetória na administração pública.
Como exemplo, citou a eleição de influenciadores e a derrota de políticos experientes, incluindo ex-prefeitos que disputaram vagas no Legislativo federal. Na avaliação de Amary, a discussão sobre a reforma política deve considerar mecanismos que fortaleçam a representação regional, como o voto distrital.
Ao encerrar a entrevista, ele voltou a defender o equilíbrio entre responsabilidade fiscal e políticas sociais. (C.M.)