Advogado vê no jornal um registro da história de Sorocaba
Aos 68 anos, José Milton do Amaral preserva edições antigas, recorda reportagens sobre o pai e relembra momentos de sua trajetória profissional
Mesmo adepto da tecnologia, com o celular sempre à mão e as notícias em tempo real, o advogado José Milton do Amaral, 68 anos, mantém um hábito que atravessa gerações: ler a edição diária do jornal Cruzeiro do Sul. Para ele, os recursos digitais oferecem rapidez, mas o jornal impresso proporciona uma experiência diferente de leitura. "No celular eu vejo a notícia. No jornal eu entendo a notícia", justifica.
Com o exemplar nas mãos, José Milton diz que consegue se aprofundar nos assuntos que despertam seu interesse e compreender melhor os acontecimentos. Assinante desde a década de 1990, manteve o vínculo com o jornal por anos, fez uma pausa e retomou a assinatura em 2010. Desde então, continua acompanhando as páginas do periódico, acumulando mais de três décadas de história como leitor.
A relação com o Cruzeiro do Sul, porém, vai além da leitura diária. Ao longo dos anos, o jornal também registrou momentos importantes de sua trajetória profissional e da história de sua família. Quando iniciou a carreira na advocacia, José Milton chegou a anunciar seus serviços nas páginas do impresso. Seu pai, um homem de origem humilde que trabalhava como vendedor de Yakult (leite fermentado à base de leite desnatado e xarope) nas ruas da cidade, também foi personagem de reportagens.
"Também tenho reportagens sobre o meu pai. Meu pai trabalhava na rua há muitos anos, vendendo Yakult. Meu pai era uma pessoa muito simples, eu venho de uma família simples, não escondo isso. Várias vezes o Cruzeiro do Sul fez reportagens com ele. Tem uma delas com uma foto que eu achei tão bonita dele trabalhando no Boulevard. Eu recortei, colei numa cartolina para colocar num quadro, é uma lembrança muito especial do jornal", conta.
A fotografia, guardada com carinho, representa mais do que uma lembrança familiar. É o registro de uma história de trabalho e simplicidade que ganhou espaço nas páginas do jornal e permanece viva na memória do advogado.
O próprio José Milton também virou notícia. Durante o governo do então presidente Fernando Collor, quando os valores depositados em contas bancárias foram bloqueados, ele esteve entre os primeiros a conseguir o desbloqueio por meio de uma decisão da Justiça Federal.
"Eu fui, se não o primeiro, um dos primeiros a conseguir, por meio de uma decisão da Justiça Federal, o desbloqueio desses valores. O Cruzeiro do Sul veio fazer uma entrevista comigo na época. Eu lembro muito bem disso", relembra.
A repercussão da conquista teve consequências profissionais. Depois da publicação, ele foi procurado por pessoas influentes da cidade naquele período, que buscavam sua atuação para obter o mesmo resultado judicial.
Ao longo dos anos, José Milton também reuniu exemplares e reportagens que considera importantes. Entre as edições guardadas estão registros de acontecimentos que marcaram o país, como a conquista da Copa do Mundo de 1970 pela seleção brasileira e a morte do piloto Ayrton Senna, em 1994.
"Eu tenho até alguns exemplares do Cruzeiro do Sul guardados. Por exemplo, eu tenho o jornal da Copa de 1970, quando o Brasil foi campeão. Quando morreu o Ayrton Senna, foi feita uma reportagem grande pelo Cruzeiro do Sul."
Embora já tenha assinado outros grandes jornais, como O Estado de S. Paulo e a Folha de S.Paulo, ele ressalta que o diferencial do Cruzeiro do Sul está na proximidade com os acontecimentos e com as pessoas da região.
"Eu posso até ler uma notícia nacional em outro lugar, mas quero saber o que está acontecendo em Sorocaba, em Votorantim, em Itu, na nossa região. É isso que faz diferença", afirma.
Sentado no sofá de casa, com os exemplares dos últimos dois dias ao lado, José Milton conversa com facilidade sobre temas que mobilizam a população, como o caso do elefante Sandro e as discussões sobre a Marginal Direita. A leitura das reportagens, segundo ele, ajuda a conhecer diferentes aspectos dos assuntos e a formar a própria opinião sobre questões importantes para a cidade.
Sorocaba ao longo do tempo
"Eu consigo fechar os olhos e lembrar como era Sorocaba há 50 anos", afirma José Milton, que também é apaixonado por fotografia e guarda registros de diferentes épocas do município.
Desde que chegou à cidade, se estabeleceu na Vila Haro, bairro da zona leste onde construiu sua vida e permanece até hoje. Foi ali que formou a família ao lado da esposa e criou os dois filhos. Hoje, celebra a chegada de cinco netos — o mais novo ainda está na barriga da filha.
Com bom humor, brinca que a família já tem um time de futsal completo, faltando apenas o goleiro, função que reserva para si mesmo.
Entre lembranças, fotografias e páginas cuidadosamente guardadas, a história de José Milton se mistura à de Sorocaba. O jornal que acompanhou sua trajetória profissional, registrou a história de seu pai e documentou acontecimentos marcantes da cidade continua presente em sua rotina.
Mais do que informar, o Cruzeiro do Sul faz parte de suas memórias. E, ao contar a história de um leitor que atravessa gerações com o mesmo hábito, volta a registrar em suas páginas um capítulo da família Amaral.