Perda de mata leva onças e lobos-guarás para perto das cidades

Na região de Sorocaba, fragmentação da vegetação nativa aumenta avistamentos e atropelamentos de animais silvestres, enquanto javalis avançam sobre lavouras

Por Vernihu Oswaldo

Tupã, lobo-guará de 29 quilos, foi resgatado apático às margens da SP-127, em Itapetininga

A presença cada vez mais frequente de onças, lobos-guarás, javaporcos e capivaras em parques, rodovias e margens de rios da região de Sorocaba evidencia uma mudança na relação entre a fauna e o território.

O aumento de avistamentos de grandes mamíferos, no entanto, não indica crescimento populacional. Segundo o biólogo Hélio Rubens, a aproximação de lobos-guarás e onças das cidades é reflexo direto da redução e do isolamento dos fragmentos de vegetação nativa.

Com a Mata Atlântica reduzida a ilhas verdes cercadas por rodovias, áreas urbanas e propriedades rurais, animais que precisam de grandes territórios são forçados a percorrer distâncias maiores em busca de água, alimento e abrigo.

Esse cenário explica registros recentes. Em maio, um casal de onças-pintadas atravessou a SP-250 (Guapiara-Apiaí); em junho, uma onça-parda foi vista no pátio de uma indústria no bairro Éden, em Sorocaba; e, em setembro, um lobo-guará foi resgatado às margens da SP-127, em Itapetininga, enquanto outro da mesma espécie foi atropelado e levado ao Zoológico Quinzinho de Barros.

Fragmentação e rodovias

A expansão agrícola, os novos loteamentos e a malha viária fragmentam a paisagem. Ao mesmo tempo que dificultam a circulação dos animais, as rodovias têm suas margens transformadas em rotas de deslocamento, o que resulta em altos índices de atropelamento. Um estudo da Universidade Estadual Paulista (Unesp) apontou maior concentração de acidentes com fauna perto de Sorocaba, Barueri e Osasco. Na rodovia Raposo Tavares, a média chega a 2,34 animais mortos por quilômetro ao ano, com 25 pontos críticos.

Nesse contexto, os corredores ecológicos são vitais. A aparição de uma onça em área industrial pode sinalizar tanto o avanço urbano sobre a mata quanto a capacidade dos fragmentos florestais de sustentar grandes predadores.

Para o promotor de Justiça de Meio Ambiente Jorge Alberto Marum, a presença da onça-parda no Éden, bairro próximo à Estação Ecológica Municipal do Pirajibu, área de 450 mil metros quadrados, é um "indicativo positivo" de décadas de preservação ambiental. Sorocaba conta ainda com o Parque da Biodiversidade, criado em 2008, com 715 mil metros quadrados.

Espécies invasoras

Se os animais nativos são acuados pela perda de habitat, os invasores exóticos fazem o caminho inverso. Javalis e javaporcos (cruzamento do javali com o porco doméstico) prosperam na paisagem modificada. Com dieta variada e alta taxa reprodutiva, encontram alimento farto nas lavouras. A Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) já registrou o problema em áreas rurais de 16 municípios da Região Metropolitana de Sorocaba. Esses animais destroem plantações, impactam nascentes, revolvem o solo e competem por recursos com a fauna local.

Refúgios urbanos

A transformação do território atinge também espécies menores. Capivaras, quatis, tamanduás, iraras e diversas aves têm usado parques urbanos e margens de rios, a exemplo do trecho urbano do rio Sorocaba, como refúgio e rota de passagem. Só no Parque da Biodiversidade já foram catalogadas 128 espécies de aves, o que mostra que a fauna tenta resistir e se adaptar aos espaços que restaram.

A reportagem procurou o Núcleo da Floresta - Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (Cras), de São Roque, e as polícias Civil e Militar, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto.