Aplicativos de transporte são usados por 74% dos moradores da região de Sorocaba

Pesquisa da Fundação Seade aponta que 27% utilizam os serviços com frequência; passageiros citam praticidade e dificuldades com ônibus, enquanto motorista relata aumento da demanda e redução no valor das corridas

Por João Frizo

Para 67%, aplicativos reduziram a necessidade de ter carro

Os aplicativos de transporte fazem parte da rotina de 74% dos moradores da Região Administrativa de Sorocaba, segundo pesquisa da Fundação Seade divulgada em 9 de outubro. Do total, 27% utilizam os serviços com frequência e 47% ocasionalmente. Outros 26% afirmaram não recorrer às plataformas. No Estado de São Paulo, o índice de usuários é de 76%, sendo 26% de uso frequente e 50% ocasional.

O levantamento ouviu 8.189 pessoas com 18 anos ou mais, entre maio e junho de 2026. Os resultados mostram que os aplicativos são utilizados por diferentes motivos, desde a praticidade nos deslocamentos até a dificuldade de acesso ao transporte coletivo. Os relatos de passageiros da região também apontam o peso dos gastos no orçamento, enquanto um motorista destaca os custos para manter o veículo e a variação dos ganhos.

A pesquisa indica ainda que 77% dos entrevistados no Estado consideram que os aplicativos ajudam quando o transporte público é lento ou de difícil acesso. Para 67%, os serviços reduziram a necessidade de ter carro próprio. Entre os usuários frequentes, essa proporção chega a 80%.

Praticidade

O vendedor Fernando Henrique Alves da Silva de Paula tem carro próprio, mas utiliza os aplicativos de corrida diariamente para levar o filho à escola, localizada a cerca de cinco quilômetros de casa. Ele estima gastar aproximadamente R$ 600 por mês com as corridas, considerando os deslocamentos que realiza. “Eu tenho carro, mas uso o app todo dia”, conta. Segundo ele, a escolha está relacionada à comodidade de ser buscado em casa e evitar o deslocamento de ônibus com a família. “A vantagem é a comodidade de você estar na sua casa, o carro chegar rápido e num preço acessível”, diz.

Fernando considera que o serviço facilita a rotina, especialmente nos trajetos com o filho. Ele também menciona mudanças no acesso ao transporte coletivo após alterações no BRT, que, dependendo do bairro, podem exigir caminhadas maiores até os pontos de embarque.

O vendedor aponta como desvantagens a falta de informações sobre o motorista e as condições do veículo que fará a viagem. Também observa que os preços podem aumentar em dias de chuva, o que interfere no custo do deslocamento.

Já Kaique Tobias da Silva, de 19 anos, trabalha em uma central de relacionamento e não tem carro. Ele afirma que utiliza aplicativos com mais frequência do que o transporte público, embora também ande de ônibus diariamente. Como mora longe, estima pagar entre R$ 20 e R$ 30 por corrida e considera os aplicativos mais vantajosos para seus deslocamentos.

Acesso

A dificuldade de chegar ao destino de ônibus também influencia a escolha de Cristiane Oliveira Neves, cuidadora e depiladora que atualmente não tem carro. Embora more em Sorocaba, ela passa boa parte do tempo em Araçoiaba da Serra e trabalha em Votorantim, o que exige deslocamentos entre diferentes municípios.

Cristiane usa os aplicativos seis vezes por semana e estima pagar entre R$ 25 e R$ 35 por corrida. Em outro período, chegou a gastar de R$ 500 a R$ 600 por mês com aplicativos. Segundo ela, os trajetos de transporte coletivo exigem caminhadas e nem sempre têm horários compatíveis com sua rotina.

“Para eu sair da minha casa até o ponto de ônibus, são 900 metros de caminhada”, relata. Em outro trecho do percurso, ela calcula precisar andar cerca de 1,2 quilômetro até chegar ao destino. A necessidade de combinar linhas, horários e caminhadas faz com que, em algumas situações, o aplicativo seja a opção escolhida.

Além da distância, ela aponta dificuldades para conseguir uma corrida. Relata cancelamentos mesmo quando o motorista está próximo de sua casa e diz que a localização pode aumentar o tempo de espera. Para reduzir os gastos, procura comparar os preços antes de solicitar o veículo.

Despesas

A pesquisa estadual também investigou quanto os passageiros pagam pelas viagens. Entre os usuários, 33% gastam até R$ 15 por corrida, enquanto 45% desembolsam de R$ 16 a R$ 30. Outros 17% pagam de R$ 31 a R$ 50, e 5% gastam mais de R$ 50. Assim, 78% dos entrevistados que utilizam os serviços informaram pagar até R$ 30 por viagem.

O levantamento mostra ainda que 40% dos usuários aumentaram a frequência de utilização nos 12 meses anteriores à pesquisa. Outros 27% mantiveram o mesmo ritmo, 20% reduziram o uso e 13% começaram a utilizar os serviços nesse período. Entre os entrevistados de até 29 anos, 48% disseram ter aumentado a frequência.

Entre os que não utilizam aplicativos, 51% afirmaram não sentir necessidade, 17% apontaram o preço e 9% citaram a insegurança. Os dados indicam que a decisão de recorrer às plataformas envolve tanto a disponibilidade de outras opções de transporte quanto a avaliação dos custos e da segurança.

Para quem trabalha nas plataformas, o aumento da procura não significa necessariamente ganhos maiores. Abel de Oliveira, de 65 anos, atua como motorista de aplicativo há cinco anos e afirma que o volume de passageiros cresceu, mas o valor recebido pelas corridas diminuiu. “Aumentou o volume e diminuiu o valor da corrida”, resume.

Segundo Abel, despesas com seguro, manutenção e limpeza do carro comprometem parte do faturamento. Para economizar, ele realiza alguns reparos por conta própria, incluindo serviços nos freios do veículo. Também precisa considerar os gastos com a lavagem, principalmente em dias de chuva, quando o carro fica mais sujo.

Trabalho

A renda de Abel varia conforme a demanda. Ele relata que, quando chove, mais passageiros recorrem aos aplicativos e o preço das viagens pode aumentar. Ao mesmo tempo, o veículo exige mais cuidados e despesas. Por isso, o aumento no número de chamadas nem sempre representa um ganho proporcional.

O motorista afirma que recusa viagens quando considera que o valor não compensa os custos e o tempo de deslocamento. Aos 65 anos, diz que trabalha diariamente com o aplicativo enquanto busca o processo de aposentadoria. A possibilidade de organizar os próprios horários, conforme as demandas domésticas, é um dos aspectos positivos da atividade.

Entre as dificuldades, Abel cita a segurança e a falta de habilidade de alguns motoristas. Ele também defende que a plataforma custeie o seguro dos veículos e reduza a parcela retida sobre o valor das corridas. Na avaliação dele, os custos para manter o automóvel precisam ser considerados na remuneração de quem realiza o serviço.

Mobilidade

Os dados da Fundação Seade ajudam a contextualizar as diferentes experiências dos passageiros. A pesquisa também mostra que 58% dos entrevistados no Estado concordam que os aplicativos ajudam a evitar situações de risco. O percentual chega a 69% entre os usuários frequentes e fica em 47% entre os que não utilizam o serviço. Já 35% consideram que os aplicativos reduzem a necessidade de obter a carteira de habilitação.

Os resultados indicam que as plataformas ocupam diferentes espaços na mobilidade da população. Podem ser utilizadas por quem não tem carro, por quem busca complementar o transporte coletivo ou por pessoas que, mesmo possuindo veículo, preferem recorrer ao serviço em determinados trajetos.