Por que dezenas de vagões estão reunidos na região da Dom Aguirre?

Acervo ferroviário faz parte de associação mantido pela Sorocabana – Movimento de Preservação Ferroviária

Por João Frizo

Vagões em Sorocaba seguem em reforma

Quem passa diariamente pela avenida Dom Aguirre, em Sorocaba, já deve ter reparado nos vagões de trem que permanecem parados às margens da linha férrea, na região da Estação Paula Souza. Mas você já parou para pensar por que tantos equipamentos estão reunidos naquele local? Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, os vagões não estão abandonados. Eles fazem parte de um acervo ferroviário mantido pela Sorocabana – Movimento de Preservação Ferroviária, que resgata equipamentos espalhados pelo Estado e trabalha para preservar parte da história das ferrovias.

Ao todo, o acervo reúne 34 itens, entre 22 carros de passageiros, quatro vagões de carga, sete locomotivas, dois trens-unidade elétricos e um guindaste. A peça mais antiga e também considerada a mais rara pela associação é a Locomotiva a Vapor nº 58, construída em 1891.

A maior parte dos equipamentos que hoje estão na Estação Paula Souza estava dispersa pelo Estado e, segundo a associação, corria o risco de ser leiloada como sucata. Com exceção da Locomotiva nº 58 e de outros equipamentos que já estavam em Sorocaba, a maioria foi transportada pela própria entidade para a cidade.

De acordo com o presidente da Sorocabana – Movimento de Preservação Ferroviária, Eric Mantuan, os últimos equipamentos foram trazidos de São Paulo, Rio Claro e Salvador. O trabalho começa com a identificação de peças que tenham importância para a história ferroviária e passa por uma série de autorizações até que seja possível retirá-las dos locais onde estão.

O transporte também está longe de ser uma operação simples. Como muitos equipamentos permanecem abandonados durante anos, não há condições de colocá-los novamente sobre os trilhos sem uma revisão. Por isso, o deslocamento costuma ser feito por rodovia, utilizando carretas e guindastes.

O custo varia de acordo com a distância, o peso e os equipamentos necessários para a operação. Em um transporte dentro de Sorocaba, por exemplo, o valor pode partir de cerca de R$ 10 mil, considerando a utilização de uma carreta e dois guindastes. No caso de equipamentos trazidos de Salvador, o custo pode chegar a R$ 200 mil.

Um 'hospital' de vagões

O estado de conservação é outro desafio. Segundo Mantuan, a regra geral é que os equipamentos cheguem à associação em condições que variam de ruins a péssimas. O longo período de abandono em pátios sem vigilância favorece o saque de componentes de cobre, bronze e alumínio e também deixa os veículos expostos ao risco de incêndios.

Nesse cenário, a Estação Paula Souza acaba funcionando como uma espécie de "hospital" de vagões. Os equipamentos são mantidos em segurança enquanto aguardam os processos de restauração, que podem ser demorados tanto pela complexidade do trabalho quanto pela falta de recursos disponíveis.

Cerca de 80% do acervo ainda aguarda restauração. Entre os trabalhos em andamento estão a finalização da restauração do Trem "Rio Claro", da Fepasa, e a modernização do antigo Trem Japonês, um TUE Toshiba da Estrada de Ferro Sorocabana produzido em 1985 e que circulava entre Mairinque e Amador Bueno.

A associação conta com seis pessoas trabalhando nas atividades de preservação. Conforme os projetos, outros profissionais são agregados às equipes.

Planejamento

Um dos trabalhos considerados mais difíceis foi o transporte dos carros do Trem Ouro Verde, realizado em 2021. Os equipamentos foram levados por via rodoviária e estavam em condições ruins de conservação. Além disso, havia dificuldades de acesso das carretas aos pátios onde os carros estavam, em Pirambóia e Engenheiro Acrísio.

Outro aspecto que chama atenção é o tempo necessário para retirar um equipamento de seu local de origem. Segundo a associação, todo o processo de autorização e transporte pode levar meses e, em alguns casos, até um ano.

A operação exige planejamento do trajeto, já que os equipamentos têm grandes dimensões e não podem circular por qualquer caminho. São avaliadas as curvas pelas quais a carreta passará, além das condições das vias e das autorizações necessárias para o transporte.

Peças

Entre os equipamentos preservados também estão os carros A-301 e A-302, construídos pela própria Estrada de Ferro Sorocabana em 1952 e 1953. Eles faziam parte do trem administrativo da ferrovia e eram utilizados para transportar autoridades, incluindo diretores e até o governador do Estado.

Segundo Maria Eugênia, gestora de Cultura da Sorocabana – Movimento de Preservação Ferroviária, cerca de 99% do acervo existente na Estação Paula Souza é proveniente da antiga Sorocabana. A exceção fica por conta de alguns equipamentos ligados à antiga linha da Votorantim e de peças que já estavam em Sorocaba.

A Estação Paula Souza, onde os equipamentos estão reunidos, também funciona como oficina de restauração e espaço para atividades culturais. Em entrevista realizada em agosto, Maria Eugênia explicou que a associação atua ainda como Ponto de Cultura certificado pelo Ministério da Cultura e como Ponto MIS, desenvolvendo atividades culturais relacionadas à preservação da memória ferroviária.

Para ela, preservar esses equipamentos não significa apenas manter viva uma história do passado. A intenção também é recuperar a relação da população com a ferrovia e mostrar a importância que os trilhos tiveram para o desenvolvimento de Sorocaba.

A associação mantém ainda projetos relacionados ao turismo ferroviário e trabalha para ampliar os trechos que podem ser percorridos pelo Trem dos Operários. A ideia é que a recuperação da infraestrutura permita, no futuro, ampliar as possibilidades de passeio e aproximar novamente a população da ferrovia.