Remendos no asfalto deixam desníveis em ruas de Sorocaba
Moradores e comerciantes relatam problemas no pavimento; engenheiro explica causas das irregularidades e prefeitura informa serviços de manutenção
A conservação das ruas faz parte da manutenção da infraestrutura urbana e contribui para as condições de circulação de veículos. Em Sorocaba, porém, moradores e comerciantes relatam que os serviços de tapa-buracos nem sempre deixam o pavimento nivelado. Em alguns trechos, os reparos resultam em elevações e depressões que podem ser percebidas durante o deslocamento.
Na avenida Riusaku Kanizawa e na rua Ministro Salgado Filho — zona norte da cidade —, os entrevistados apontam problemas relacionados à execução dos reparos e à repetição das intervenções. Os relatos mencionam remendos que se destacam em relação ao restante da pista e dificultam a passagem de veículos. Nos locais citados, a equipe de reportagem percorreu o trecho e observou remendos e ondulações ao longo da via. Em alguns pontos, a sequência de desníveis provocava balanços no veículo durante o deslocamento.
Desníveis
O empresário Eduardo Urso Vieira, que mantém um estabelecimento na av. Riusaku Kanizawa há cerca de quatro meses, relata que os reparos deixam partes do asfalto elevadas. Segundo ele, a situação é perceptível nas proximidades de uma unidade de saúde e de uma escola.
Vieira também afirma que o deslocamento pela via é desconfortável, principalmente durante as entregas realizadas pelo estabelecimento. Na avaliação dele, os remendos se assemelham a lombadas.
O mecânico Daniel Cardoso, que mora na região e passa diariamente pela avenida, também relata problemas nos reparos. Segundo ele, os serviços são realizados de forma recorrente, mas deixam partes do asfalto desniveladas. Cardoso afirma que observa situações semelhantes em outras ruas da cidade.
Embora não tenha presenciado acidentes relacionados aos remendos, ele considera que as irregularidades podem representar riscos, principalmente para motociclistas.
Vila Fiori
Na rua Ministro Salgado Filho, na Vila Fiori, o comerciante Daniel Salvador, que está há cerca de 20 anos no local, relata problemas no pavimento. Segundo ele, os reparos deixam desníveis que podem atingir a parte inferior dos veículos.
Salvador também trabalha com entregas e diz que as irregularidades dificultam o deslocamento. Ele afirma que solicitou um reparo pela última vez há cerca de três meses, mas deixou de fazer novos pedidos por considerar que o resultado não resolve o problema. O comerciante relata ainda a presença de buracos em frente ao estabelecimento.
Execução
O engenheiro Renato Gianolla, professor da disciplina de Projetos e Obras Viárias da UniFacens, explica que os desníveis podem estar relacionados a diferenças na quantidade de material aplicado, na espessura dos remendos e no grau de compactação do asfalto. As condições do pavimento ao redor e possíveis problemas na base ou na drenagem também podem contribuir para a formação de ondulações.
Segundo Gianolla, o procedimento de reparo exige a retirada do material deteriorado, a limpeza da área, a aplicação da mistura asfáltica e a compactação. A execução também deve considerar as condições das camadas inferiores do pavimento.
O nivelamento é outro aspecto importante. O engenheiro explica que o remendo deve ficar integrado à superfície existente. Embora pequenas diferenças possam ocorrer durante a execução, ressaltos e depressões perceptíveis durante a passagem dos veículos não são considerados adequados. “O correto tecnicamente é que fique nivelado e integrado ao pavimento existente. Pode existir uma pequena diferença praticamente imperceptível decorrente da execução, mas não deveria existir um ressalto ou uma depressão que o motorista perceba claramente ao transitar.”
Gianolla acrescenta que a realização de sucessivos reparos pode deixar a superfície irregular, principalmente quando cada intervenção apresenta diferenças de material, espessura e compactação. “Quando uma via recebe muitos reparos ao longo do tempo, cada remendo pode apresentar material, espessura e grau de compactação diferentes. Isso produz uma superfície irregular.”
O professor também aponta que a origem do problema pode estar nas camadas inferiores do pavimento ou na drenagem. Nesses casos, a realização de novos tapa-buracos não elimina necessariamente a causa da deterioração.
Recapeamento
De acordo com Gianolla, o tapa-buraco é indicado para defeitos pontuais, quando o restante do pavimento apresenta condições de uso. Quando os problemas passam a ocupar uma parcela significativa da via, com muitos remendos, trincas, deformações e buracos recorrentes, é necessário avaliar a recuperação de uma área maior. “O tapa-buraco é uma solução essencialmente localizada. Ele funciona bem quando temos defeitos pontuais e o restante do pavimento ainda apresenta boas condições”, afirma.
A decisão sobre a necessidade de recapeamento ou de uma intervenção mais profunda depende da análise das condições da superfície e da estrutura do pavimento, do volume de tráfego, da circulação de veículos pesados e da drenagem. Em situações que exigem investigação, podem ser realizados testes para verificar a resistência das camadas inferiores.
O engenheiro ressalta que a aplicação de uma nova camada de asfalto pode não resolver o problema quando a base está comprometida. Por isso, a avaliação deve considerar a origem dos defeitos e a extensão dos danos. “Se a base estiver comprometida, apenas colocar uma nova camada de asfalto por cima também pode não resolver”, explica.
Gianolla também destaca que a decisão deve levar em conta os custos ao longo do tempo. Segundo ele, a repetição de reparos pode chegar a um ponto em que uma recuperação mais abrangente seja necessária.
Segurança
Os desníveis também podem interferir na circulação de veículos. Segundo Gianolla, em automóveis, as irregularidades podem alterar o contato dos pneus com o pavimento, aumentar os esforços sobre a suspensão e prejudicar frenagens e mudanças de direção.
Para motociclistas e ciclistas, ressaltos e depressões podem provocar perda de equilíbrio ou desvios de trajetória. As depressões também podem acumular água, aumentando os riscos em dias de chuva. “Para motociclistas e ciclistas o problema é ainda mais significativo, porque um ressalto ou depressão pode provocar perda de equilíbrio ou desvio repentino de trajetória”, afirma.
O engenheiro reforça que os reparos pontuais não devem substituir a avaliação das condições gerais da via. “Tapa-buraco é uma técnica de manutenção pontual. Quando o defeito deixa de ser pontual e passa a ser uma característica de toda a rua, é preciso avaliar o pavimento como um sistema e não continuar tratando cada buraco isoladamente", conclui.
Manutenção
Em nota enviada à reportagem, a Prefeitura de Sorocaba, por meio da Secretaria de Serviços Públicos e Obras (Serpo), informou que os serviços de tapa-buracos integram a manutenção corretiva da malha viária.
Segundo a administração municipal, até julho de 2026, foram atendidas 14.595 ocorrências de buracos, com a aplicação de 3.395,12 metros cúbicos de material asfáltico.
A administração informa que o procedimento inclui a preparação da área, a retirada do material danificado, a limpeza, a aplicação da mistura asfáltica e a compactação. A execução é acompanhada por fiscais, que verificam os materiais utilizados e o cumprimento das exigências contratuais.
Sobre os locais mencionados pela reportagem, a Serpo informa que as vias serão encaminhadas à equipe técnica para avaliação e possíveis intervenções, conforme o cronograma de manutenção e as condições climáticas.
A administração municipal também orienta que solicitações de manutenção sejam registradas pelo portal sorocaba.sp.gov.br/atendimento, pelo WhatsApp (15) 99129-2426 ou pelo telefone 156.