Corte da Selic deve ter efeito limitado no crédito, diz economista
Renato Vaz Garcia explica que o repasse da redução aos consumidores demora meses e aponta juros elevados
A redução da taxa básica de juros de 14% para 13,75% ao ano deve ter efeito limitado sobre o crédito e o orçamento das famílias. Em entrevista ao Jornal da Cruzeiro, da Cruzeiro FM 92,3, na manhã de ontem (17), o economista e professor da Universidade de Sorocaba (Uniso), Renato Vaz Garcia, explica que o corte de 0,25 ponto percentual é pequeno e que seus reflexos podem levar de seis a nove meses para chegar ao consumidor.
A Selic é uma referência para as operações financeiras. Garcia explica que, ao emprestar dinheiro, os bancos consideram a taxa básica como um piso e acrescentam outros custos conforme o risco de cada operação. Assim, mesmo quando a Selic diminui, os juros cobrados de pessoas e empresas não necessariamente caem na mesma proporção.
“É uma redução muito pequena”, resume. Para ele, a decisão do Banco Central indica uma possível tendência de queda ou, ao menos, de manutenção dos juros no patamar atual. O efeito, porém, deve ser discreto no curto prazo.
Alívio limitado
A redução pode contribuir para diminuir o custo de empréstimos, mas não representa uma solução imediata para quem já enfrenta dificuldades para pagar as contas. Garcia considera improvável que o corte tenha impacto significativo sobre dívidas de cartão de crédito e cheque especial, modalidades em que os encargos são elevados.
O espaço para novas reduções também depende do comportamento da inflação. O economista cita a atividade econômica aquecida e a alta dos preços, especialmente dos alimentos, entre os fatores observados pelo Banco Central ao definir a taxa de juros. Na entrevista, menciona uma expectativa de inflação de aproximadamente 5% para o ano, acima da meta de 3% e do limite de tolerância de 4,5%.
Nesse cenário, quem pretende comprar um imóvel ou um carro não deve esperar mudanças expressivas nas condições de financiamento por causa do corte. Diante das incertezas econômicas e do período eleitoral, a orientação é avaliar com cuidado novos compromissos financeiros. “É sempre bom fazer uma avaliação bem consciente dos bens que a pessoa vai adquirir”, diz.
Crédito caro
Para pequenas e médias empresas, o efeito da decisão tende a ser quase imperceptível. Mesmo após a redução, os juros continuam elevados e encarecem operações como a obtenção de capital de giro, a compra de matéria-prima e o pagamento de despesas.
Além da Selic, os bancos consideram o risco de cada negócio. Esse componente pode permanecer alto ou até aumentar, mesmo com a queda da taxa básica, conforme o cenário econômico.
Garcia relaciona a dificuldade de reduzir os juros à situação fiscal brasileira. Ele menciona a rigidez do orçamento e os obstáculos para implementar medidas de ajuste. Também cita os gastos tributários — incentivos e benefícios fiscais —, que estimou em R$ 600 bilhões, valor que, segundo ele, supera a soma dos orçamentos da saúde e da educação.
A questão fiscal, acrescenta, influencia as expectativas sobre a economia e as decisões do Banco Central. Ele observa que candidatos à Presidência, tanto da situação quanto da oposição, têm mencionado a necessidade de ajuste, mas ainda há dúvidas sobre como as medidas seriam executadas.
O endividamento das famílias também foi discutido. Renato relaciona o problema à combinação entre juros elevados e renda que não avança no mesmo ritmo das necessidades de consumo. Segundo ele, a criação de empregos não tem garantido, em todos os casos, aumento de renda suficiente para evitar o acúmulo de dívidas.
O economista alerta para o risco de recorrer a empréstimos de curto prazo para pagar despesas. Uma dívida pequena pode crescer quando é renovada ou postergada em modalidades com taxas elevadas. “Conforme essa dívida vai rolando, como a taxa de juros é extremamente alta, isso impacta muito na renda”.
O cartão de crédito exige atenção especial por ser uma das formas mais caras de financiamento. Garcia recomenda que consumidores com dificuldade para pagar a fatura procurem alternativas de menor custo e tentem negociar com o banco. O alerta também vale para bancos digitais, cujas taxas podem superar as cobradas por instituições tradicionais.
Incerteza institucional
A entrevista aborda ainda os possíveis reflexos econômicos da crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF). Para o economista, a economia depende das expectativas de consumidores e empresários, e a incerteza institucional pode levar ao adiamento de compras, contratações e investimentos.
Ele cita tanto os efeitos indiretos sobre a confiança quanto a paralisação de discussões de interesse econômico no Judiciário. Entre os temas mencionados estão a pejotização, a regulamentação do trabalho de entregadores e questões previdenciárias e relacionadas a agentes de saúde.
Na análise do entrevistado, a falta de previsibilidade pode elevar o risco percebido pelas empresas e ser incorporada aos custos de investimento e aos preços. Quando há dúvidas sobre como uma discussão será conduzida ou decidida, empresários podem considerar esse risco ao planejar novos negócios.
Renato também associa a confiança no futuro às decisões de consumo e à expansão das empresas. “Quando todo mundo não faz nada hoje, esperando que no futuro a situação vai estar pior, realmente no futuro a situação vai estar pior, porque ninguém fez nada hoje”, afirma.
Ele volta a destacar o cenário fiscal como um dos fatores a serem acompanhados nos próximos anos. Para ele, a trajetória das contas públicas influencia o custo de financiamento do governo e as condições para a atividade econômica.