Ricardo Salles defende adaptação climática e critica atuação do Senado

Em entrevista ao Jornal da Cruzeiro, candidato também explicou saída do PL e comentou a crise entre ministros do STF

Por João Frizo

Ricardo Salles é deputado federal pelo Partido Novo e concorre agora ao Senado

O candidato ao Senado e Deputado Federal Ricardo Salles (Novo), ex-ministro do Meio Ambiente entre 2019 e 2021, defende que o Brasil priorize investimentos em adaptação às mudanças climáticas, com medidas para enfrentar enchentes e períodos de seca. Em entrevista ao Jornal da Cruzeiro, da Cruzeiro FM 92,3, na manhã de ontem (16), ele também explica sua saída do PL, critica a atuação do Senado diante do Supremo Tribunal Federal (STF) e comenta a renovação de 54 das 81 cadeiras da Casa nas eleições deste ano.

Ao abordar os eventos climáticos extremos, o deputado divide as ações em duas frentes: mitigação, voltada à redução das causas das mudanças climáticas, e adaptação, destinada a preparar a sociedade para seus efeitos. Para ele, o país deve concentrar recursos na segunda área, considerando a limitação do orçamento e a participação brasileira nas emissões globais.

“Eu acho que este é o caminho mais lógico para o Brasil”, declara. Entre as medidas que cita estão obras para armazenamento de água, melhorias na infraestrutura e retirada de moradias de áreas sujeitas a inundações, com construção de novas unidades em locais seguros.

Ele afirma que o planejamento deve considerar tanto o excesso quanto a falta de chuva. Menciona enchentes, crises hídricas, ventanias e tornados e inclui entre as ações necessárias investimentos em rodovias, ferrovias e logística. “A gente tem que gastar na adaptação, que aí sim nós temos um grande impacto na sociedade”, diz.

Para justificar sua posição, o candidato apresenta percentuais sobre a participação de diferentes países nas emissões globais de gases de efeito estufa. Segundo os números citados por ele, o Brasil responderia por 2,8% do total, enquanto China, Estados Unidos e Europa teriam participações maiores. Com base nesses dados, argumenta que a mitigação feita isoladamente pelo país teria influência limitada no cenário internacional.

Saída do PL

Questionado sobre a mudança partidária, Salles afirma que deixou o Partido Liberal (PL) e retorna ao Partido Novo por discordar da condução da legenda. Ele foi eleito deputado federal pelo PL com 640.918 votos, mas diz que não se sentia confortável em permanecer no partido sob a direção de Valdemar Costa Neto.

O candidato critica dirigentes do PL e setores do chamado Centrão, a quem atribui alianças motivadas por interesses políticos e acesso a recursos. Também faz acusações sobre supostos desvios de emendas parlamentares e outros esquemas. As declarações foram apresentadas por ele durante a entrevista.

Ele diferencia sua relação com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a quem diz continuar apoiando, da discordância em relação à direção partidária. “Uma coisa é o presidente Bolsonaro. Outra coisa é o Valdemar e a turma dele”.

Segundo Salles, ao ingressar no PL junto de Bolsonaro, esperava que os apoiadores do ex-presidente tivessem maior influência nas decisões da sigla. Como isso não ocorreu, decidiu retornar ao Novo. “Eu não vou me submeter a esse joguinho do Valdemar”, declara.

Crise no Supremo

Ao comentar a crise institucional envolvendo ministros do STF, o deputado classifica como “lamentável” o episódio recente de discussão pública entre integrantes da Corte. Para ele, o problema não está no fato de a sessão ter ocorrido publicamente, mas no conteúdo debatido.

“O problema está no conteúdo do que foi discutido”. O candidato atribui parte da responsabilidade pela situação ao Senado, que, em sua avaliação, não estaria exercendo o papel de controle sobre o Supremo. Também critica o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, e considera que o Legislativo deveria reagir ao que considera excessos e invasões de competência.

Salles atribui a eleição de Alcolumbre a uma aliança entre setores do Partido dos Trabalhadores (PT) e do PL ligados a Valdemar Costa Neto. A afirmação foi feita pelo candidato durante a entrevista. Para ele, a crise deve ser acompanhada pela sociedade e discutida publicamente, enquanto o Senado assume uma atuação mais firme diante de decisões que, em sua interpretação, ultrapassem as atribuições do STF.

Renovação do Senado

A renovação de 54 cadeiras do Senado nas eleições de 2026 também esteve entre os temas da conversa. Salles diz que a atuação da Casa dependerá tanto de quem ocupar a Presidência da República quanto do perfil dos parlamentares eleitos.

Segundo ele, a filiação partidária não determina, por si só, como um senador votará. O candidato argumenta que parte dos parlamentares pode mudar de posição conforme negociações por cargos, recursos e emendas. Em contrapartida, avalia que senadores com posições ideológicas consistentes tendem a manter sua orientação mesmo diante de mudanças no governo.

“É muito importante que os novos integrantes tenham história política e coerência de posicionamento". Na visão dele, o Senado poderá atuar na fiscalização do Executivo ou contribuir para a aprovação de medidas, conforme a composição eleita e o governo que assumir.

Ao final, o entrevistado volta a criticar acordos políticos que, segundo ele, envolvem a distribuição de cargos e recursos em troca de apoio. Afirma que os custos dessas negociações recaem sobre a população por meio do uso de dinheiro público.