De Olho no Material Escolar amplia atuação na educação
Entidade defende ensino baseado em evidências e aproximação entre escolas e setor produtivo
Criada durante a pandemia, a Associação De Olho no Material Escolar nasceu da iniciativa de pais e mães que passaram a analisar os conteúdos dos materiais didáticos usados pelos filhos. A identificação de abordagens consideradas negativas em relação ao agronegócio levou a um levantamento e, depois, à ampliação da atuação da entidade para questões ligadas à qualidade da educação brasileira.
Durante visita à Fundação Ubaldino do Amaral (FUA), mantenedora do jornal Cruzeiro do Sul e do Colégio Poli, ontem (9), a diretora de comunicação da associação, Fernanda Manzini Sleutjes, falou sobre a atuação da entidade e os projetos desenvolvidos em diferentes regiões do país.
Segundo Fernanda, o levantamento inicial apontou que apenas cerca de 3,4% a 3,7% das citações relacionadas ao agronegócio nos materiais analisados apresentavam referências teórico-científicas. A partir daí, a organização passou a defender mudanças nos conteúdos didáticos e uma discussão mais ampla sobre aprendizagem, formação de professores, gestão escolar e preparação dos estudantes para o futuro profissional. "Não bastava acionar editoras e trabalhar na sensibilização da mudança desse conteúdo. Quando nós olhamos para os indicadores de educação a nível de Brasil, entendemos que precisávamos trabalhar pela educação brasileira, com melhoria da qualidade voltada à aprendizagem", explicou Fernanda.
A diretora governamental e institucional da associação, Andréia Bernabé, destaca que um dos objetivos atuais é aproximar a ciência dos livros didáticos, ampliando o escopo de atuação da entidade para além da discussão sobre a representação do agronegócio nos materiais escolares.
Plano Nacional
Entre 2023 e o período atual, uma das principais frentes de trabalho da associação esteve ligada ao Plano Nacional de Educação (PNE), documento que estabelece diretrizes e metas para a educação brasileira. Segundo Andréia, a organização analisou a proposta do plano, promoveu reuniões com editoras e parlamentares e fez articulações no Congresso Nacional — atuação que, segundo ela, contribuiu para alterações em aproximadamente 70% do texto original analisado pela associação.
Entre os temas prioritários estão a educação infantil e básica, a segurança nas escolas e a adoção de indicadores que permitam comparar o desempenho educacional brasileiro com padrões internacionais. A associação defende ainda o acompanhamento contínuo das metas do PNE, com avaliação periódica dos indicadores de aprendizagem e correção de rumos das políticas públicas.
Materiais didáticos
A entidade esclarece que não exerce função oficial de fiscalização dos materiais usados pelas escolas: o trabalho ocorre principalmente a partir de demandas de pais, professores, escolas e integrantes da sociedade civil.
A associação também repete estudos anteriores para avaliar possíveis mudanças na abordagem do agronegócio nos materiais didáticos após suas ações. A nova análise segue metodologia semelhante à do levantamento inicial e conta com parceria acadêmica, permitindo comparar os materiais analisados anteriormente com os conteúdos mais recentes e medir possíveis impactos das ações da organização.
Vivenciando a Prática
Entre os projetos está o Vivenciando a Prática, que promove visitas técnicas e imersivas de estudantes, professores e representantes de editoras a diferentes ambientes do setor produtivo. Desde 2021, as atividades incluem institutos de pesquisa, feiras, agroindústrias e propriedades privadas, proporcionando contato e troca de experiências entre estudantes, professores, técnicos, profissionais e cientistas. Segundo a associação, as atividades seguem metodologia própria e abordam os pilares social, econômico e ambiental.
Em 2025, quase 16 mil estudantes e professores de escolas públicas e privadas participaram das atividades, realizadas em nove estados brasileiros. A proposta é aproximar o conhecimento da sala de aula da realidade prática, com informações atualizadas e baseadas em evidências científicas — o que, segundo a entidade, amplia a visão de mundo dos estudantes, desenvolve empatia e apresenta novas oportunidades e possibilidades de escolha e prosperidade para as futuras gerações.
O programa também conta com a peça teatral #SeLigaNoCampo - Das culturas do campo para as culturas do palco, que usa a linguagem artística para apresentar aspectos relacionados ao campo e à produção agropecuária.
A associação mantém ainda a Agroteca, biblioteca digital com materiais atualizados sobre diferentes aspectos do agronegócio, voltada a estudantes e profissionais da educação. Os conteúdos multimídia são baseados em fatos e dados científicos, usam linguagem acessível e passam por curadoria da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), oferecendo uma fonte de consulta técnica e científica para professores e estudantes.
Formação
Outra iniciativa é o Mestres no Agro, programa de capacitação de professores que aborda temas do agronegócio presentes nos materiais didáticos e inclui uma etapa prática de imersão no campo. Segundo a associação, o objetivo é oferecer aos educadores conhecimento técnico e experiências aplicáveis ao ambiente escolar, já que o contato com a realidade do setor produtivo ajuda professores e estudantes a compreender os avanços tecnológicos e os processos envolvidos na produção.
Apoio a municípios
A entidade também mantém um programa de relacionamento e parceria com prefeitos e secretários de Educação, com o objetivo de melhorar a qualidade do ensino municipal.