Moradores do Jardim Astro pressionam Câmara contra verticalização
Manifestação nesta quinta-feira foi marcada por protestos e discussão em plenário; autor da proposta afirma que apresentará novo projeto com coautoria dos demais vereadores
Moradores do Jardim Astro foram à Câmara Municipal de Sorocaba na manhã desta quinta-feira (3) para pedir apoio ao Projeto de Lei nº 115/2026, que propõe alterar o zoneamento de uma área do bairro de Zona Residencial 2 (ZR2) para Zona Residencial 1 (ZR1). A mobilização foi marcada por protestos nas galerias e uma discussão em plenário envolvendo uma emenda que previa a retirada da proposta da pauta.
A principal preocupação dos moradores é a possibilidade de verticalização do Jardim Astro. Segundo eles, o bairro é predominantemente formado por casas e a mudança de ZR1 para ZR2, realizada em 2014, teria ocorrido sem que a população tivesse conhecimento ou fosse consultada.
A manifestação ganhou força durante a sessão. Os moradores pediam a presença do vereador Cristiano Passos, autor da emenda que previa a retirada do projeto de pauta, para que ele retirasse a medida. Após o clamor, o parlamentar entrou no plenário e afirmou que retiraria a emenda.
Segundo o presidente da Câmara, Luis Santos (Republicanos), porém, a proposta já havia sido retirada de pauta anteriormente pela Presidência. Com isso, mesmo após a retirada da emenda por Passos, o projeto não foi submetido à votação. Outros vereadores tentaram intervir durante a discussão.
Moradores questionam mudança para ZR2
Moradora do Jardim Astro há 35 anos, Cleusa Bendinelli Gazonato afirma que o bairro era classificado como ZR1 e que a alteração para ZR2 ocorreu sem que os moradores fossem informados.
Ela questiona como foi realizada a reunião e a votação que resultaram na mudança.
“Os moradores não assinaram isso. Nós queremos saber quem votou, onde foi essa reunião e quem participou, porque isso está errado”, afirmou.
A preocupação aumentou, segundo ela, com a construção de edifícios no bairro. Cleusa relata que construiu um prédio de sete andares próximo à sua residência e afirma ter identificado rachaduras em sua casa. Ela também cita a possibilidade de construção de um empreendimento de 22 andares na região.
“Como que nós vamos ter um bairro pequeno, como é o nosso, para ter prédios dessa altura? Como vão ficar as nossas ruas, as nossas crianças, a nossa água, o nosso esgoto e a nossa luz?”, questionou.
Para os moradores, a discussão não envolve apenas a construção de novos edifícios, mas os impactos que a verticalização poderia provocar na infraestrutura e na rotina do bairro.
Moradora do Jardim Astro há sete anos, a especialista em projetos Eliette Alves de Souza afirma que cerca de 99% do bairro ainda é formado por residências térreas.
Segundo ela, a classificação como ZR2 permite não apenas a presença de comércio, mas também empreendimentos verticais de maior porte.
“Os prédios trazem sombra para as casas, maior impacto na questão do trânsito, infraestrutura de água, esgoto, energia elétrica e tudo isso não foi pensado”, afirmou.
Eliette diz que os moradores só passaram a discutir o zoneamento mais recentemente, depois que um empreendimento de vários andares começou a ser construído e uma empresa passou a divulgar a possibilidade de um prédio de 22 andares no bairro. “A maioria das pessoas nem sabia que estava em Zona Residencial 2”, disse.
Ela também questiona a existência de estudos que tenham embasado a mudança ocorrida em 2014 e defende que o Jardim Astro mantenha suas características residenciais.
Autor do Projeto de Lei nº 115/2026, o vereador Dylan Dantas (PL) afirmou que a proposta foi apresentada após ouvir os moradores do bairro.
Segundo ele, o objetivo não é alterar a área comercial existente, mas impedir que a classificação como ZR2 favoreça a verticalização em uma região predominantemente residencial.
“O bairro já é predominantemente residencial. Não vamos fazer alteração na faixa comercial, vai permanecer como está. O que os moradores estão preocupados é a questão da verticalização”, afirmou.
Dantas destacou ainda as dimensões reduzidas do bairro e as preocupações apresentadas pelos moradores com trânsito e infraestrutura. “O bairro é um bairro tradicional. Os moradores são muito antigos, os que residem ali na região, e eles merecem ser ouvidos”, disse.
O vereador também afirmou que os moradores estão insatisfeitos com a alteração realizada anteriormente e que não teriam sido consultados pelo poder público.
Projeto deve voltar a pauta
Após a discussão em plenário, Dantas avaliou que, apesar de o projeto não ter avançado, a mobilização deu visibilidade à reivindicação dos moradores. “O bairro teve a sua visibilidade. Os moradores tiveram a sua visibilidade. As suas demandas devem ser ouvidas pelo poder público. Nós estamos aqui para isso”, afirmou.
O vereador disse que havia articulado apoio suficiente entre os parlamentares para que a proposta avançasse na análise de constitucionalidade e seguisse para as comissões. Segundo ele, a emenda apresentada por Cristiano Passos impediu que isso ocorresse nesta quinta-feira.
Dantas afirmou que, diante do episódio, pretende apresentar uma nova proposta semelhante, mas com coautoria dos demais vereadores.
“Eu não faço questão de que ele seja aprovado no meu nome. Eu quero de fato que os moradores sejam atendidos”, afirmou.
O parlamentar também contestou o entendimento de que a proposta seria inconstitucional. Segundo ele, os questionamentos apresentados pela Comissão de Justiça envolvem a necessidade de estudo de solo e a realização de audiências públicas.
Dantas argumenta que não se trata de uma revisão completa do Plano Diretor, mas de uma alteração pontual de zoneamento. Ele também afirma que já houve audiência pública sobre a proposta na Câmara.
“Eu sou um vereador que também é um vereador técnico. O projeto é constitucional”, declarou.
Segundo ele, o próximo passo será conversar com o presidente da Câmara para avaliar a tramitação e, caso necessário, apresentar o novo projeto com a participação dos demais parlamentares.
Apesar da retirada da proposta, Eliette avaliou que a mobilização pode resultar em um apoio político maior à reivindicação dos moradores.
“Num primeiro momento, a gente ficou muito triste com a decisão, que foi retirada por uma questão técnica bem específica e pequena. A gente acredita que poderia ter seguido”, afirmou.
Para ela, porém, a discussão acabou aproximando os moradores dos demais vereadores.
“Por outro lado, esse percalço fez com que a gente agregasse a colaboração de todos os vereadores. Então não vejo como algo negativo, olhando agora, porque os vereadores todos se comprometeram a apoiar o nosso projeto numa próxima etapa”, disse.
Eliette afirmou que os moradores esperam que uma nova proposta seja apresentada com apoio amplo dos parlamentares.
“Então ele vai voltar, vai ser remendado literalmente, e nós vamos ter o apoio de todos os vereadores. É o que a gente espera”, afirmou.
Com a retirada de pauta, o projeto não avançou nesta quinta-feira. A expectativa agora é que uma nova proposta seja apresentada e passe novamente pela análise da Câmara, desta vez com a possibilidade de reunir vereadores de diferentes bancadas em torno da reclassificação do Jardim Astro para ZR1.