Sorocaba registra quase 600 autuações por mês por uso de celular ao volante

Foram 4.192 notificações nos sete primeiros meses de 2026; média mensal já supera a de todo o ano passado

Por João Frizo

Fiscalização é feita por agentes de trânsito e também por videomonitoramento: distração compromete atenção e capacidade de reação

Uma mensagem que chega no celular, uma notificação que aparece na tela ou até mesmo uma ligação podem parecer motivos banais para desviar os olhos da rua por alguns segundos. No trânsito, porém, esse pequeno intervalo pode ser suficiente para fazer com que o motorista deixe de perceber um pedestre, uma motocicleta ou outro veículo e tenha menos tempo para reagir a uma situação inesperada. O uso do aparelho enquanto dirige é uma das condutas fiscalizadas em Sorocaba e já resultou em 4.192 autuações nos sete primeiros meses de 2026, segundo dados da Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob).

O número representa uma média de aproximadamente 599 autuações por mês neste ano. Em todo 2025, foram 6.419 registros, o equivalente a uma média mensal de cerca de 535 autuações. Assim, embora 2026 ainda esteja no sétimo mês do levantamento, a média mensal registrada até agora é superior à do ano passado.

As autuações são divididas em três categorias previstas no Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Em 2025, foram 4.862 por dirigir manuseando o celular, 1.176 por dirigir segurando o aparelho e 381 por dirigir utilizando o telefone — ligação telefônica. Já de janeiro a julho deste ano, foram 2.682 autuações por manusear, 1.424 por segurar e 86 por utilizar o celular.

A diferença entre as categorias está relacionada à forma como o motorista utiliza o aparelho durante a condução. Para a fiscalização, todas representam situações que podem comprometer a segurança no trânsito.

O supervisor de trânsito da Semob, Waner Oliveira Dias, explica que o problema não está apenas no fato de o condutor retirar uma das mãos do volante. Segundo ele, o uso do celular interfere em elementos fundamentais para a condução, como atenção, percepção e capacidade de reação. “Não é simplesmente tirar a mão do volante”, afirma.

Ainda de acordo com o supervisor, o celular deixou de ser utilizado apenas para chamadas e passou a concentrar diversas atividades, como mensagens, aplicativos e ferramentas de trabalho, o que amplia as possibilidades de distração do motorista.

Fiscalização

Em Sorocaba, a fiscalização ocorre tanto de forma presencial quanto por videomonitoramento, no Centro de Controle Operacional Integrado (CCOI), na sede da Semob. Os agentes podem constatar a infração nas ruas ou acompanhar as imagens das câmeras instaladas em diferentes pontos da cidade, principalmente nos cruzamentos. Segundo o supervisor de trânsito Waner Oliveira Dias, as duas formas de fiscalização são utilizadas pelos agentes.

A secretaria explica que, depois de constatada a infração, é lavrado o Auto de Infração de Trânsito (AIT). O documento formaliza o registro e dá início ao processo administrativo, com posterior envio da Notificação de Autuação ao proprietário do veículo. O condutor ou proprietário ainda pode apresentar defesa prévia.

Embora exista a fiscalização, ele afirma que a quantidade de motoristas que utiliza o celular é muito maior do que a capacidade de fiscalização. “Hoje, se for levar o uso do celular, a gente fiscaliza acho 10%. Porque o uso é muito grande”, observa. Ainda assim, o número de registros é considerado elevado pelo supervisor. Nos sete primeiros meses de 2026, foram 4.192 autuações por uso do celular em Sorocaba.

Além da fiscalização, a Prefeitura de Sorocaba afirma que trabalha com ações de educação e conscientização. Somente nos primeiros sete meses de 2026, mais de 94 mil pessoas foram alcançadas em 274 atividades educativas realizadas pela Secretaria de Mobilidade. A programação deste mês, por exemplo, prevê outras 45 iniciativas, voltadas a motoristas, motociclistas, passageiros, ciclistas e pedestres.

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Trânsito

Um dos comportamentos que mais chamam a atenção dos agentes é o motorista aproveitar o semáforo fechado para pegar o telefone. A justificativa costuma ser de que, naquele momento, o veículo está parado. Para ele, porém, isso não significa que o trânsito tenha parado. “O trânsito não para”, resume o supervisor de trânsito Waner Oliveira Dias.

Segundo ele, mesmo com o veículo parado, o movimento continua ao redor. “Ali você parado no celular, você está parado. O trânsito no seu entorno não está parado”, explica.

Pedestres continuam atravessando, motociclistas circulam entre os veículos e outras situações podem surgir de forma inesperada. Quando o sinal abre, o motorista que estava olhando para o celular pode não perceber o que acontece ao redor e ter menos tempo para reagir.

Waner cita esse tipo de situação como um dos riscos da distração. Segundo ele, o motorista pode deixar de perceber “um pedestre passando à sua frente” ou “um motociclista que está passando ao seu lado”.

A consequência pode ser uma reação tardia diante de uma situação inesperada. O supervisor diz que pequenas colisões relacionadas à distração com o aparelho ocorrem diariamente. “Pequenas colisões por distração do celular é direto. Colisões traseiras, colisões laterais”, relata. Ele também cita casos em que o motorista muda de faixa sem perceber outro veículo ao lado.

A Prefeitura de Sorocaba, porém, não apresentou um levantamento estatístico específico que permita quantificar quantos acidentes na cidade foram provocados pelo uso de celular. Por isso, o relato do supervisor serve como percepção da fiscalização, e não como número oficial de sinistros.

Quase 100 metros

O risco fica mais fácil de dimensionar quando se transforma o tempo de distração em distância. A 70 quilômetros por hora, um veículo percorre aproximadamente 19,4 metros a cada segundo. Se o motorista passar quatro segundos olhando para o celular, terá percorrido cerca de 78 metros. Em cinco segundos, serão aproximadamente 97 metros.

Isso significa que uma mensagem curta, que exige apenas alguns segundos de atenção, pode fazer com que o motorista percorra quase 100 metros sem concentrar os olhos na via.

Mas o problema não está apenas em digitar ou olhar uma mensagem. Waner explica que até mesmo o uso de sistemas de viva-voz pode provocar algum nível de distração, dependendo da conversa. “De certa maneira, podemos analisar que atrapalha sim. Porque, dependendo da conversa que está tendo naquele momento, você pode ter uma distração também”, comenta.

A diferença, acrescenta ele, é que o viva-voz utilizado pelo próprio veículo é menos prejudicial do que situações em que o condutor precisa segurar ou olhar diretamente para o aparelho. “Mas é menos gravoso do que você está olhando. Segurando e olhando para o celular, manuseando o celular.”

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Conscientização

A Secretaria de Mobilidade de Sorocaba afirma que as ações de segurança no trânsito são permanentes e envolvem três frentes: fiscalização, educação e engenharia de tráfego. A intenção é reduzir comportamentos que colocam motoristas, passageiros, motociclistas, ciclistas e pedestres em risco.

Para o supervisor de trânsito Waner Oliveira Dias, porém, a fiscalização sozinha não é suficiente. Ele destaca a necessidade de combinar a atuação dos agentes com ações de conscientização. “No trânsito em si não é só a fiscalização, tem que ter a conscientização através da educação, tem que ter a fiscalização, a parte de engenharia e tudo mais.”

Já a prefeitura informa que mais de 94 mil pessoas foram alcançadas em 274 atividades educativas realizadas pela Semob até julho deste ano. A programação de setembro prevê 45 novas iniciativas.

Os números das autuações mostram que o comportamento continua presente nas ruas. Em sete meses, Sorocaba já registrou mais de quatro mil autuações relacionadas ao uso do celular.

Para Waner, a mudança depende também da conscientização individual. “O uso do celular compromete a segurança”, afirma. Segundo ele, mesmo com campanhas, informações e fiscalização, ainda falta consciência por parte de alguns condutores.

A orientação, portanto, é evitar qualquer interação com o aparelho enquanto estiver dirigindo. Se o telefone tocar ou chegar uma mensagem, a recomendação é procurar um local permitido para estacionar antes de atender ou responder. “Tocou o celular, vai atender? Olha um lugar onde é permitido estacionar. Estaciona, atenda. Responda a mensagem ou veja a mensagem. Que é muito mais seguro. Para ele e para outro”, orienta.