Manchester Paulista: Sorocaba troca o algodão pelo aço sem perder a vocação industrial
Do ciclo das tecelagens à expansão dos setores metalmecânico e automotivo, diferentes fases da industrialização transformaram a paisagem e a economia do município
Um dos muitos apelidos de Sorocaba é Manchester Paulista. A referência à cidade inglesa de mesmo nome, um dos símbolos da Revolução Industrial, está ligada às indústrias têxteis que marcaram a história dos dois municípios.
O historiador e membro da Academia Sorocabana de Letras, Henrique Cavalcanti, afirma que “Sorocaba tem um papel fundamental na indústria têxtil. Aqui, ao contrário do resto do estado de São Paulo, que tinha muito café, o café não foi muito importante. Foi mais o algodão. Isso gerou uma industrialização precoce na cidade”.
Enquanto a economia do restante do estado era baseada na produção agrícola do fruto que dava origem a uma das bebidas mais consumidas do mundo, em Sorocaba as plantações de algodão ocupavam espaço de destaque.
O pesquisador João Paulo da Silva explica, em sua tese, que a inserção do algodão em Sorocaba foi motivada “sobretudo pela recessão do mercado dos Estados Unidos provocada pela Guerra Civil que assolou o país entre 1861 e 1865. Assim, Sorocaba apresenta durante a década de 1860 uma expansão da produção e exportação de algodão. Em 1875, a Estrada de Ferro Sorocabana foi inaugurada com o objetivo primordial de transportar o algodão do município até o porto de Santos, onde o produto era encaminhado essencialmente para a Inglaterra”.
A primeira grande indústria, chamada Nossa Senhora da Ponte, em homenagem à padroeira da cidade, foi fundada em 1882 por Manoel José da Fonseca, comerciante de Sorocaba. Na década seguinte, chegaram diversas tecelagens, como as fábricas Votorantim, Santa Rosália e Santa Maria. No início do século 20, surgiram também uma indústria de chapéus e outra de bebidas.
Nos anos 1920, estima-se que Sorocaba tivesse 164 estabelecimentos industriais e empregasse cerca de 18 mil operários. O município era a segunda maior concentração operária do estado.
Vilas operárias
Passear por Sorocaba quase sempre é sinônimo de percorrer ruas que se repetem, antigas vilas que foram se transformando com o tempo, mas mantiveram parte de suas histórias. Vila Hortência, Vila Santana, Santa Rosália, Vila Progresso, entre outras.
Moradores de Santa Rosália, por exemplo, contam que, até aproximadamente os anos 2010, ainda era possível ouvir o apito da antiga fábrica Santa Rosália. O equipamento não havia sido desativado e soava pela manhã, na hora do almoço e no fim da tarde, marcando o ritmo dos operários.
Os antigos prédios das fábricas foram se transformando com o tempo, ganhando novos usos e formas de ocupação. Henrique comenta que hoje, os prédios que viraram um shopping, um supermercado, são exemplos desse grande ciclo da indústria têxtil da cidade. “Mesmo o caso do shopping que foi feito lá na antiga fábrica: o prédio está lá. O prédio foi repensado, ressignificado e está lá. Não tem problema nenhum você alterar o monumento. Pior seria destruir, jogar no chão ou deixar abandonado”, acrescenta.
A vocação operária de Sorocaba continuou ao longo dos anos. As indústrias foram se sucedendo, e o parque industrial do município continuou em expansão. “É quase como se Sorocaba tivesse uma vocação industrial mesmo. Veja a metalurgia lá em Ipanema, a represa da Light [em Votorantim], depois a região do alumínio e do cimento... Pela logística e pela localização, sempre foi um polo industrial.”
O algodão trouxe dinheiro para Sorocaba. A ferrovia trouxe velocidade. As fábricas transformaram esse dinheiro em indústria. E a indústria transformou a própria cidade.
Novas tecnologias
A partir da segunda metade do século 20, o apito das fábricas têxteis começou a dividir espaço com um ruído mais pesado. O algodão, que ditou o ritmo da cidade por décadas, cedeu protagonismo ao aço, às engrenagens e à graxa das metalúrgicas.
A abertura da Rodovia Castello Branco, no final dos anos 1960, funcionou como uma nova ferrovia para o município. Se antes os paredões de tijolos precisavam acompanhar os trilhos da Sorocabana no Centro, o novo eixo rodoviário levou as fábricas para as bordas da cidade. Bairros como Éden, Cajuru e Aparecidinha, até então com características de áreas rurais, passaram a abrigar um novo polo industrial.
Um marco dessa mudança foi a instalação, em 1969, da Fábrica de Aços Paulista, posteriormente incorporada à estrutura que daria origem à Metso.
Henrique explica: “Esse primeiro grande ciclo, a indústria têxtil, é muito rico pra história da cidade. E depois a indústria metalmecânica, principalmente. A chegada das grandes multinacionais, boa parte delas de origem alemã, pra dar suporte às outras indústrias da área automobilística”.
O ápice dessa migração para o setor metalmecânico veio na década passada, simbolizado pela chegada da montadora Toyota, em 2012, que consolidou Sorocaba no mapa automotivo global e trouxe consigo uma cadeia de fornecedoras para a região.
A história industrial de Sorocaba, portanto, não coube nos galpões do Centro. Segundo dados da prefeitura, das mais de duas mil indústrias que operam atualmente no município, são as linhas de montagem e a metalurgia que ditam o compasso econômico.
A paisagem acompanhou o deslocamento das fábricas. Longe dos casarões históricos, grandes plantas industriais produzem veículos e equipamentos para mineração. Enquanto isso, onde antes havia apenas chaminés e fardos de algodão, hoje os sorocabanos passeiam por corredores de shopping centers, empurram carrinhos de supermercado ou assistem a peças de teatro.
A “Manchester Paulista” não desapareceu. Ela apenas mudou de tecido.