Do relato à proteção: como agir diante da violência

Denúncia, acolhimento adequado e atuação integrada da rede de proteção são fundamentais para interromper abusos e evitar a revitimização de crianças e adolescentes

Por Thaís Verderamis

Em Sorocaba, serviços especializados acompanham vítimas e o Noad monitora ambientes digitais

Ouvir um relato de abuso ou exploração sexual é difícil até mesmo para adultos. O tema é evitado por muitas pessoas, inclusive para conhecimento e discussão, por parecer distante da realidade, dos princípios, do caráter ou até mesmo da própria humanidade. Trata-se, porém, de uma violência que ultrapassa limites e atinge a dignidade humana em sua dimensão mais íntima.

É uma realidade presente em todo o mundo, inclusive entre crianças e adolescentes. Por isso, é necessário que a sociedade esteja consciente dos riscos e preparada para proteger, agir e acolher quando necessário. 

Em caso de suspeita, é possível fazer uma denúncia, anônima ou não, pelo Disque 100, canal dos Direitos Humanos; pelo Conselho Tutelar, no número 125; ou pela Guarda Civil Municipal, no 153. Os serviços funcionam 24 horas por dia. Também é possível entrar em contato diretamente com o Conselho Tutelar pelo telefone (15) 3235-1212, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h.

Quando uma criança ou adolescente confia em um adulto e revela o que está acontecendo, é preciso ter cuidado com a maneira de conduzir a situação. O primeiro passo é ouvir, sem pressionar ou questionar excessivamente, e procurar ajuda sem expor a vítima desnecessariamente. O objetivo é evitar a revitimização.

Segundo a psicóloga especializada em violência do Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (Caps IJ) "Ser e Conviver", Paula Mazzetti, a vítima não deve ser submetida repetidamente ao relato da violência. 

Ouvir é essencial

"Evitar muita interferência quando a criança está relatando. 'Mas e isso?', 'Mas e aquilo?', 'Como que foi?', 'Como que você estava?'. Evitar esse tipo de postura", afirma Paula.

De acordo com a delegada da Polícia Civil e coordenadora do Núcleo de Observação e Análise de Dados (Noad) do Estado de São Paulo, Lisandréa Zonzini Salvariego, a preservação da saúde da vítima deve ser prioridade, principalmente quando há ferimentos ou sinais de sofrimento.

"Primeiro lugar, eu digo sempre que é preservação da saúde da vítima. Então, se ela estiver machucada, se ela estiver muito abalada, procure um tratamento psicológico, procure um tratamento médico imediatamente e depois registre a ocorrência", orienta.

Ainda de acordo com a delegada, informação e prevenção são fundamentais para impedir que a violência aconteça. 

A proteção de crianças e adolescentes, porém, depende da atuação conjunta de diferentes setores da sociedade. "Quando chega para segurança pública, alguma coisa se perdeu muito antes. Quando eu entro em jogo, quando a gente aqui [no Noad] entra e salva alguém, essa vítima já não foi salva muito antes", comenta.

Rede de proteção de Sorocaba

A proteção de crianças e adolescentes é formada por diferentes serviços e instituições. Quando há uma situação de violência, existe um fluxo de atendimento destinado a acolher, atender e proteger a vítima. O primeiro passo é identificar quem precisa de ajuda.

A descoberta pode ocorrer por meio de denúncia, registro de Boletim de Ocorrência (BO), atendimento pela rede de saúde, revelação espontânea — quando a própria criança ou adolescente relata o que aconteceu — na escola ou em projetos de assistência social, ou ainda pela identificação de indícios, como marcas, lesões, mudanças de comportamento e outros sinais de alerta.

Quando a vítima está em situação de risco, pode ser encaminhada ao Conselho Tutelar, responsável pela aplicação das medidas de proteção e pelos encaminhamentos necessários. Conforme o caso, a criança ou adolescente pode ser direcionada para a Escuta Especializada do Gpaci, para a delegacia, para o Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (Caps IJ) ou para outros serviços de saúde e assistência social.

A ordem dos atendimentos pode variar de acordo com cada situação. A Escuta Especializada, por exemplo, recebe encaminhamentos dos demais órgãos que integram a rede de proteção. "É um trabalho muito seguro, porque exige um sigilo muito grande. As crianças chegam até aqui geralmente assustadas e ameaçadas. Elas precisam criar uma confiança muito grande para conseguir relatar o que aconteceu. Por isso o atendimento é feito por psicólogos especializados", explica a presidente do Gpaci, Maria Lúcia Neiva de Lima.

Em 2025, a Escuta Especializada registrou 1.236 casos de abuso. Em 2026, até o período informado, foram registrados 604 casos, com média de 103 atendimentos por mês. Entre as ocorrências também estão situações relacionadas ao ambiente virtual.

O serviço é voltado ao acolhimento especializado e não tem função investigativa. "A escuta especializada não é uma investigação. Nosso papel é realizar esse atendimento e, a partir dele, fazer os encaminhamentos para que toda a rede de proteção dê continuidade ao acompanhamento", complementa Maria Lúcia.

Os casos atendidos pela Escuta Especializada são encaminhados ao Conselho Tutelar, que atua de forma integrada com os demais serviços. Conforme a necessidade, o órgão pode direcionar a vítima ao Caps, às Unidades Básicas de Saúde (UBSs), para atendimentos ginecológicos ou pediátricos, ou ainda aos serviços de assistência social.

Em situações de vulnerabilidade social, podem ser acionados o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) ou o Centro de Referência de Assistência Social (Cras). Quando há suspeita ou constatação de crime, o caso também é encaminhado à autoridade policial.

Núcleo de Observação e Análise Digital

Os crimes também estão migrando cada vez mais para o ambiente digital. À medida que a tecnologia avança, novas formas de abordagem são utilizadas por aliciadores e abusadores. Um jogo aparentemente inofensivo ou uma plataforma de conversa por voz ou vídeo pode se transformar em um ambiente de violência.

Criado em 2024 e ligado à Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP), o Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad) surgiu inicialmente com o objetivo de investigar ataques a escolas.

"Em 2023, nós tivemos dois ataques aqui em São Paulo e aí, quando houve a conclusão dos inquéritos policiais, estava muito claro para a gente que eles haviam sido combinados, transmitidos por uma determinada plataforma. Houve a necessidade da gente entender o que o agressor ativo consumia online", explica Lisandréa.

Durante as investigações, porém, os policiais identificaram uma série de outros crimes praticados ou estimulados no ambiente virtual. "Inúmeros outros crimes aconteciam. E eram consumidos por esse mesmo agressor ativo e, dentre esses crimes, estava o estupro virtual", conta a delegada.

A partir dessas descobertas, o núcleo ampliou sua atuação e passou a monitorar ambientes digitais. Os profissionais acompanham plataformas e observam interações que possam indicar a prática ou preparação de crimes.

Muitas situações acontecem em plataformas com salas abertas e transmissões ao vivo. 

O contato com familiares pode ser uma das formas mais rápidas de interromper a situação. Dependendo do caso, policiais e viaturas próximas ao endereço da vítima também podem ser acionados.

Desde a criação do núcleo, a equipe afirma ter evitado que 416 vítimas sofressem novas violências. "Salvas porque um policial conseguiu entrar em contato com a família. Salvas de automutilação. Salvas de indução ao suicídio e até mesmo de estupros virtuais", conta Lisandréa.

O Noad atua como uma unidade de inteligência e utiliza softwares específicos de segurança pública. "A gente usa softwares específicos de segurança pública, que não são vendidos fora do circuito de segurança pública. E o nosso trabalho é esse, é assim que a gente investiga", acrescenta a delegada.

O trabalho também cobra um preço emocional dos profissionais que acompanham situações de extrema violência. Por isso, informação, diálogo e prevenção continuam sendo fundamentais.

Conhecer os riscos, acompanhar o que crianças e adolescentes fazem e consomem na internet, estabelecer limites e utilizar os mecanismos de proteção disponíveis são algumas das formas de reduzir a exposição à violência.

No ambiente virtual, assim como fora dele, o silêncio favorece o agressor. Diante de uma suspeita ou de um relato, denunciar e procurar ajuda são passos fundamentais para interromper a violência e proteger a vítima.

Este conteúdo encerra a série de reportagens que abordou o abuso e a exploração sexual virtual de crianças e adolescentes.