Entre o silêncio e os sinais do abuso

Família, escola, sociedade e poder público têm papel fundamental na prevenção e identificação de abusos contra crianças e adolescentes

Por Thaís Verderamis

Conhecer mudanças de comportamento, manter diálogo e oferecer educação sexual estão entre as formas de reduzir a vulnerabilidade de crianças e adolescentes também no ambiente virtual

Existe um provérbio africano que diz que "é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança". No Brasil, o artigo 227 da Constituição Federal de 1988 estabelece que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, direitos fundamentais como vida, saúde, educação, lazer, cultura, dignidade, respeito, liberdade e convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

Afinal, a responsabilidade por uma criança ou adolescente se tornar vítima de abuso ou exploração sexual é dos pais ou da família? Não. De acordo com a delegada da Polícia Civil e coordenadora do Núcleo de Observação e Análise de Dados (Noad) do Estado de São Paulo, Lisandréa Zonzini Salvariego, cada família tem uma composição e uma realidade diferente. Pode haver mães, pais ou responsáveis que trabalham em mais de um emprego para garantir a sobrevivência de todos.

Como explica a psicóloga especializada em violência do Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (Caps IJ) "Ser e Conviver", Paula Mazzetti, o silêncio beneficia os abusadores. A informação, por outro lado, permite que a população conheça os riscos, fique atenta e possa agir para impedir que predadores encontrem espaço para fazer novas vítimas.

Família

Qual é o comportamento habitual de uma criança ou adolescente? Como ela se comporta no dia a dia, como interage, conversa, realiza as tarefas e ocupa o tempo livre? Conhecer os filhos, sobrinhos, netos, alunos ou qualquer criança ou adolescente que faça parte da rotina pode ser determinante para perceber quando algo está errado, ainda que a vítima não tenha coragem de falar ou contar sobre o problema que está enfrentando.

A delegada Lisandréa apresenta um caso real que considera emblemático. Uma vítima passou a apresentar um rendimento excepcional na escola, justamente o ambiente em que não tinha acesso ao celular e no qual se sentia segura. A mudança de comportamento chamou a atenção e ajudou a revelar que havia algo errado.

Os sinais nem sempre são iguais para todas as crianças e adolescentes, mas mudanças bruscas de comportamento devem servir como alerta. Segundo a delegada, um dos principais sinais é o isolamento social. Uma criança ou adolescente muito conectado às telas que, de repente, passa a evitá-las, demonstra medo ou passa a associá-las a algo negativo pode estar sinalizando que existe um problema.

Outros comportamentos também merecem atenção, conforme explica a psicóloga Paula Mazzetti. Entre eles estão o retorno da enurese, ou seja, voltar a fazer xixi na cama, choro frequente, tristeza, pesadelos e comportamentos ou falas que não correspondem à faixa etária. "Uma criança com comportamento mais sexualizado que não condiz com aquela faixa etária", afirma.

Evidências físicas de sofrimento são um alerta ainda mais grave. A automutilação também pode estar relacionada a situações de violência virtual. De acordo com a conselheira tutelar Lígia Guerra da Cunha Geminiani, em alguns casos os pais só percebem a dimensão do problema quando os filhos apresentam ferimentos. Ao investigar a situação, descobrem que a criança ou o adolescente estava sendo vítima de ameaças feitas por pessoas conhecidas em jogos, plataformas ou desafios virtuais.

Mas por que algumas vítimas acabam sendo mais suscetíveis à manipulação? Em determinadas situações, a criança ou o adolescente pode estar simplesmente buscando atenção. 

Depois do abuso, muitas vítimas não conseguem falar sobre o que aconteceu. Internamente, surgem questionamentos e sentimentos como culpa, medo e vergonha. "Ela não entende direito, mas o que é isso? É coisa da minha cabeça? Isso poderia ter acontecido? Será que eu tenho culpa? Então, fica tudo muito misturado e a criança é permeada por culpa, vergonha e nem sempre ela consegue buscar alguém, contar para alguém", acrescenta Paula.

A especialista explica ainda que crianças não possuem a compreensão sobre questões sexuais da mesma maneira que os adultos. Elas podem ter curiosidade, mas não interpretam essas situações com a maturidade de uma pessoa adulta. Por isso, a educação sexual, incluindo o conhecimento sobre o próprio corpo, a identificação das partes íntimas e as formas de proteção, é uma ferramenta importante para a prevenção.

Educação sexual e proteção

Segundo Paula, a educação sexual é importante e deve começar desde cedo. "A educação sexual acontece desde bebê", atesta. Isso não significa antecipar discussões sobre sexualidade, mas ensinar a criança a nomear as partes do corpo, compreender quem pode ajudá-la durante momentos de higiene e reconhecer comportamentos incomuns que devem ser comunicados aos responsáveis.

Esse conhecimento também funciona como instrumento de proteção no ambiente virtual.

Conforme a idade e o nível de acesso às redes, os pais ou responsáveis devem orientar e acompanhar o que crianças e adolescentes consomem, quais jogos utilizam e com quem se comunicam nas plataformas digitais.

Os profissionais ressaltam que acompanhar a atividade dos filhos no ambiente on-line não significa necessariamente invadir sua privacidade. Trata-se, segundo eles, de uma forma de cuidado e proteção.

A conselheira tutelar Lígia destaca que o diálogo entre pais e filhos é fundamental e que os responsáveis precisam conhecer os ambientes digitais frequentados pelos menores. Ela também cita o ECA Digital, que estabelece regras para a proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual.

Além dos riscos representados pelo contato com desconhecidos, o ambiente digital expõe crianças e adolescentes a outro tipo de violência: o acesso precoce a conteúdos sexuais. A apresentação de material sexual para menores também pode configurar uma forma de violência sexual no ambiente virtual.

A exposição pode ser especialmente prejudicial durante a fase de crescimento, quando crianças e adolescentes ainda estão formando sua compreensão sobre relacionamentos, corpo e sexualidade.

Pornografia

A exposição precoce à pornografia pode levar a uma percepção distorcida sobre relacionamentos e sobre a própria sexualidade. Sem maturidade para compreender que o conteúdo exibido é uma produção destinada ao público adulto, crianças e adolescentes podem interpretar a ficção como representação da realidade.

Durante o crescimento e o desenvolvimento, esse contato pode contribuir para a reprodução de comportamentos abusivos apresentados nas telas ou para dificuldades nos relacionamentos reais, diante da diferença entre a expectativa criada pelo conteúdo e a realidade.

O consumo também pode levar à busca por conteúdos cada vez mais extremos para produzir o mesmo nível de estímulo. "Chega uma hora que consumir a pornografia pode não satisfazer mais", afirma a psicóloga especialista em psicologia jurídica e professora de graduação e pós-graduação Rosana Cathya Ragazzoni.

Sociedade

A violência sexual contra crianças e adolescentes também precisa ser compreendida dentro de um contexto social mais amplo. Estruturas culturais que reproduzem desigualdades entre homens e mulheres podem contribuir para a manutenção de comportamentos abusivos e para a naturalização de relações baseadas em poder e controle.

O machismo estrutural, por exemplo, coloca homens e mulheres em posições desiguais. Em determinados grupos e movimentos on-line, como os chamados "red pills", termo associado à ideia de "pílula vermelha", discursos misóginos — de aversão ou desprezo às mulheres — podem reforçar essa visão.

Esses comportamentos também podem ser reproduzidos dentro de casa. Um pai que grita com a mãe, agride ou não respeita a companheira transmite uma mensagem às crianças. Da mesma forma, filhas que recebem mais restrições e responsabilidades domésticas enquanto filhos homens são educados sem os mesmos limites podem aprender, desde cedo, papéis desiguais entre os gêneros.

Na escola, comportamentos como meninos que não respeitam o "não" das meninas também fazem parte desse processo de construção social de limites e relações.

De acordo com Rosana, os fatores socioculturais têm peso importante na compreensão da violência. "Culturalmente, os aspectos socioculturais, dentro desses múltiplos fatores, têm um peso enorme. Porque a gente ainda tem o parâmetro da mulher mais submissa, a gente ainda tem a desigualdade salarial, a gente ainda tem as diferenças todas de gênero que acabam trazendo as desigualdades", explica.

Essas questões, segundo a especialista, podem contribuir para a formação de um ambiente social em que determinadas atitudes são naturalizadas conforme o gênero. "Esse caldo sociocultural traz autorizações e negações conforme o gênero e normalmente quem sofre é a mulher", conclui Rosana.

Continua... 

Este conteúdo faz parte de uma série de reportagens que aborda o abuso e a exploração sexual virtual de crianças e adolescentes. Na próxima edição será abordado como denunciar, como acolher a vítima e como funciona a rede de proteção de Sorocaba.