Salário mínimo sobe, mas custo de vida pode corroer ganho em 2027
Economista Marcos Canhada afirma que reajuste deve estimular o consumo
O salário mínimo deve passar de R$ 1.621 para R$ 1.741 em 2027, mas o aumento de R$ 120 pode ter seu efeito reduzido pela alta dos preços ao longo do ano. A avaliação é do economista e professor universitário da Universidade de Sorocaba (Uniso) Marcos Canhada, entrevistado pelo Jornal da Cruzeiro, da Cruzeiro FM 92,3, na manhã de ontem (27). Segundo ele, o reajuste representa uma correção de valores do passado e não garante, sozinho, aumento significativo do poder de compra.
Canhada afirma que o reajuste pode estimular o comércio, já que amplia a renda disponível das famílias. Por outro lado, destaca que o aumento também eleva despesas do governo, já que benefícios como aposentadorias e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) são vinculados ao salário mínimo. Segundo ele, cada R$ 1 de aumento representa cerca de R$ 400 milhões a mais por ano nas despesas públicas, o que levaria a um impacto próximo de R$ 50 bilhões com o reajuste previsto.
"Então, há um dilema. Se, por um lado, aumentar a renda para preservar o poder de compra, estimular o comércio. Então, quando a gente tem R$ 120,00 a mais para as pessoas poderem consumir, isso pode trazer um estímulo no comércio. Por outro lado, há um impacto muito significativo nas contas do governo", afirma.
Ganho corroído
Para o economista, o trabalhador pode perceber rapidamente a perda do ganho com o reajuste caso os preços dos produtos básicos continuem subindo. Ele afirma que o aumento do salário mínimo começa a valer em janeiro, mas os preços de alimentos, água, energia e aluguel também podem sofrer reajustes no período. "Então, reajustou R$ 120,00 lá em janeiro. Você já começa a ter impactos em janeiro de alterações de preços que vão levar o cidadão a perceber que ele continua sempre correndo atrás da sua renda", afirma.
Canhada cita ainda a cesta básica de Sorocaba como exemplo. Segundo levantamento mencionado por ele, em 1995 o conjunto de produtos custava R$ 123,22, enquanto o salário mínimo era de R$ 100. Atualmente, a cesta básica está em R$ 1.211, enquanto o salário mínimo é de R$ 1.621. Para o economista, embora a relação entre os dois valores tenha melhorado, as necessidades das famílias também aumentaram ao longo das últimas décadas.
Ele ressalta que a cesta básica considera principalmente alimentação, higiene e limpeza, enquanto o salário mínimo deveria atender também despesas como transporte, saúde, lazer e outras necessidades do trabalhador e de sua família. Estudos do Dieese citados por Canhada apontam que o valor necessário para atender a essas necessidades estaria próximo de R$ 8 mil mensais.
Alimentos
Entre os fatores que podem pressionar o orçamento em 2027, o economista destaca especialmente os alimentos. Canhada demonstra preocupação com possíveis eventos climáticos e seus efeitos sobre a produção agrícola. Ele também cita impactos provocados por conflitos internacionais e custos de insumos. "Porque o básico é aquilo que preocupa. É o alimento, a higiene, a limpeza. Essa é a preocupação básica", afirma.
Segundo ele, a preocupação é que essas pressões ocorram justamente no início do ano, quando o reajuste do salário mínimo começa a valer, reduzindo o ganho real recebido pelo trabalhador.
Contas públicas
Canhada também defende que o governo busque reduzir custos para absorver o aumento das despesas provocado pelo reajuste. Segundo ele, a alternativa não deveria ser simplesmente elevar a carga tributária para compensar o crescimento dos gastos.
O economista afirma que o aumento do salário mínimo é uma medida importante para a distribuição de renda, mas exige que o poder público melhore a gestão dos recursos. "Nós precisamos resolver as diminuições desses custos que estão aí para que sobre o dinheiro, para que se faça aquilo que efetivamente nós precisamos para a sociedade", afirma.
Para as famílias, Canhada aponta a necessidade de aumentar a renda por meio de capacitação, educação e formação profissional. Quando isso não for possível, afirma que a redução e reorganização das despesas podem ser alternativas para evitar o endividamento.
Segundo ele, tanto o governo quanto as famílias enfrentam o desafio de equilibrar receitas e despesas. "O governo gestacionando melhor os seus custos para ter disponibilidade para arcar com aquilo que é responsabilidade social. E do lado da família, estimulando a possibilidade de aumentar a renda", afirma.