Monumento resgata a memória do antigo Caminho do Peabiru

Obra de Guto Requena transforma em aço corten a lembrança de uma das rotas ancestrais que ligavam o interior do continente ao Atlântico

Por Vernihu Oswaldo

Caminho do Peabiru é uma rede de trilhas ancestrais que ligava Cusco, no Peru, ao Oceano Atlântico, e significa "caminho de gramado amassado"

Do Pacífico ao Atlântico. Cerca de 5.300 quilômetros separam os dois oceanos em seu ponto mais distante, na altura da Paraíba, na Ponta do Seixas. Traçando um paralelo que passa por Sorocaba, no Trópico de Capricórnio, essa distância cai para cerca de 2.600 quilômetros. Isso em linha reta. Mas quase nenhum caminho é reto. Eles obedecem ao relevo, aos rios e à geografia, sobretudo na América do Sul, marcada por florestas, montanhas e grandes cursos d’água.

Uma das rotas mais antigas conhecidas no continente americano é o Caminho do Peabiru, uma rede de trilhas ancestrais que ligava Cusco, no Peru, ao Oceano Atlântico. Peabiru significa, literalmente, “caminho de gramado amassado”. O trajeto atravessava a Cordilheira dos Andes, passava pela Colômbia e pelo Paraguai antes de chegar ao Brasil.

“O traçado de algumas ruas do Centro, como Penha, São Bento e XV de Novembro, seguiu aquele definido pelas antigas trilhas utilizadas pelos indígenas, como parte do Caminho do Peabiru”, destaca o historiador José Rubens Incao. Estudos apontam que alguns trechos da rota podem ter mais de quatro mil anos.

Por muito tempo, na cidade, a materialidade do Peabiru habitou apenas as histórias contadas, a tradição oral e os vestígios preservados pelo tempo. Todos os dias, milhares de pessoas percorrem esse caminho sem imaginar que, séculos antes, povos originários já passavam por ali. O Peabiru, apesar de real, morava principalmente na memória.

Em 2025, porém, essa história ganhou forma. O arquiteto sorocabano Guto Requena assinou um monumento que transporta para o plano físico a memória de um dos caminhos mais antigos das Américas. A obra, construída em aço corten e com mais de sete toneladas, homenageia a antiga rota.

Formado por grandes “pétalas” interligadas, o monumento conecta a Sorocaba contemporânea aos caminhos ancestrais. Em cada uma delas, palavras em tupi-guarani foram gravadas. A primeira, ou a última, é Sorocaba.

A obra também passou a integrar a paisagem cotidiana da cidade. Instalada em um espaço onde o público e o privado se encontram, acompanha crianças correndo pelo parquinho, idosos em suas caminhadas e moradores que atravessam a praça sem imaginar que, há milhares de anos, outros caminhos já passavam por ali.

O Peabiru, antes restrito à memória, voltou a fazer parte da paisagem.