Ferrovia transforma Sorocaba e deixa marcas que atravessam gerações
Estrada de Ferro Sorocabana impulsiona a indústria, cria bairros e forma trabalhadores que ajudaram a construir a identidade do município
Poucas coisas são mais sorocabanas do que os caminhos. Desde aqueles abertos pelos povos originários, que desenhavam as rotas da América do Sul, até as picadas abertas por tropeiros armados com seus facões, chegando àqueles que ainda estão lá, marcados por madeira e aço no território paulista.
O romance gaúcho “O Tempo e o Vento” conta a história da família Terra e sua chegada ao Rio Grande do Sul, onde participa da formação histórica e social daquele lugar. Maneco Terra, Dona Henriqueta, Antônio Terra, Horácio Terra e Ana Terra saíram de Sorocaba para migrar para o Estado.
A Estrada de Ferro Sorocabana marcou para sempre a história do município e das pessoas que nele moravam ou que chegaram a bordo das imensas marias-fumaças que desbravaram o país. A cidade, que já era conhecida pelos fornos de ferro, pelas feiras e pelas mulas, começava a conhecer os cavalos de aço.
A Sorocabana foi, essencialmente, fruto do próprio desenvolvimento econômico da cidade. O capital acumulado durante décadas de Feiras de Muares enriqueceu uma burguesia local que, no final do século 19, buscava novos horizontes para investir. O dinheiro das tropas de mulas financiou as indústrias têxteis e os grandes algodoais. Para escoar essa produção, nascia a estrada de ferro, que mais tarde se tornaria um dos principais caminhos para o café paulista.
Diferentemente de estátuas e obeliscos, o monumento erguido pela ferrovia tem proporções continentais. No coração da cidade, se espalham cerca de 40 prédios distribuídos em quase 200 mil metros quadrados de área. A infraestrutura era tão robusta que Sorocaba não apenas operava os trens, mas também os construía.
“Entre as décadas de 1930 e 1940, esses foram os maiores barracões de reforma e construção de vagões da América Latina”, explica Luciano Rodrigues Leite, produtor cultural e autor do livro “Estrada de Ferro Sorocabana e a Invenção do Passado”. “Você tinha fundição, carpintaria, usinagem. Era um conjunto industrial muito heterogêneo onde se fazia de tudo. É para entender por que temos prédios tão grandes e um conjunto arquitetônico tão robusto”, comenta.
O monumento, no entanto, extrapolou as paredes das oficinas e moldou a própria sociedade sorocabana. A ferrovia foi responsável por desenhar e erguer bairros inteiros, como Vila Santana e Santa Rosália, construídos para abrigar operários e suas famílias. Ser funcionário da Sorocabana conferia um status valorizado. Em uma época sem cartões de crédito, bastava dizer que era ferroviário para ter o crediário imediatamente aprovado no comércio local.
A necessidade de mão de obra especializada também deixou um legado educacional. Foi dentro das instalações da Sorocabana que surgiu o curso ferroviário, voltado a treinar os filhos dos trabalhadores para que substituíssem seus pais no futuro. A iniciativa é considerada por historiadores como um dos embriões do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e do ensino técnico no Brasil.
Entre as famílias que estão na cidade há mais tempo, é comum a história de um avô ou de um tio que trabalhou nas locomotivas. Em alguns casos, em famílias numerosas, cada filho nasceu em uma cidade diferente, já que a casa acompanhava o avanço dos trilhos.
Monumentos
A ferrovia não deixou apenas suas dezenas de prédios como memória. Alguns deles, hoje bem cuidados, abrigam museus e secretarias; outros, porém, estão abandonados. O complexo das oficinas, por exemplo, está, aos poucos, se deteriorando. Ainda assim, o potencial do espaço impressiona.
A resistência desse patrimônio também passa pela ressignificação: antigos armazéns e residências de engenheiros hoje abrigam museus, como o Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba (Macs), e centros culturais.
Presença
Andar por Sorocaba e conversar com os sorocabanos quase sempre traz memórias da ferrovia. Seja nas histórias de família, seja na presença dos vagões abandonados na paisagem ou nos trilhos que ainda traçam marcas no coração do município. A aparência fragilizada, a ferrugem e a ação do tempo escondem parte do legado construído a partir do século 19.
Para entender a real magnitude dessa herança, aponta Luciano, é preciso olhar para o trem com os olhos daquele tempo. “Se você for pensar em revolução tecnológica, hoje a gente fala do trem, que parece algo arcaico. A gente tem que se colocar naquele tempo. É como se hoje fosse a inteligência artificial, que é o suprassumo do contemporâneo, do moderno. O trem significou isso no final do século 19. O que havia de mais moderno em termos de tecnologia era o trem. E Sorocaba foi pioneira nisso. Isso explica a importância da cidade de Sorocaba ser industrial e moderna.”
O DNA sorocabano parece ser meio nômade, gosta de se movimentar, de abrir espaços. Seja na literatura, nas trilhas, nos trilhos ou no lombo das mulas, a simbiose industrial que até hoje move o município começou a pulsar, de forma definitiva, sobre essas veias de aço.