Mercado Municipal mantém viva a memória e a rotina da cidade

Prédio inaugurado em 1938 reúne comerciantes, famílias e frequentadores que transformaram corredores em pontos de encontro

Por Vernihu Oswaldo

Inaugurado no feriado de Nossa Senhora Aparecida, em 12 de outubro de 1938, edifício de traços art déco, estilo arquitetônico foi erguido no antigo Largo Santo Antônio, ocupando o espaço de uma antiga igreja dedicada ao santo

A história de Sorocaba é marcada pelos caminhos que se cruzam e formam feiras, mercados e pontos de encontro. Incrustado no Centro da cidade, entre as ruas Francisco Scarpa e Padre Luiz, está o imponente Mercado Municipal. O local já nasceu com essa vocação: inaugurado no feriado de Nossa Senhora Aparecida, em 12 de outubro de 1938, o edifício de traços art déco, estilo arquitetônico que estava em destaque na época, foi erguido no antigo Largo Santo Antônio, ocupando o espaço de uma antiga igreja dedicada ao santo.

O historiador Henrique Cavalcanti conta que a localização não foi obra do acaso, mas resultado de um projeto logístico. Posicionado de forma estratégica desde a época dos tropeiros, o novo prédio ficava a poucos passos da estação de trem e da importante fábrica de tecidos Nossa Senhora da Ponte, hoje Shopping Pátio Cianê. A localização facilitava o deslocamento dos consumidores e garantia acesso aos bairros mais distantes, com o objetivo de abastecer os milhares de operários da indústria têxtil. Era o grande centro comercial de Sorocaba em uma época em que a palavra “supermercado” sequer existia.

Passear pelos longos corredores do mercado, reconhecido e tombado como patrimônio municipal desde 1988, é uma experiência, antes de qualquer coisa, sinestésica. Os aromas chegam primeiro, em uma mistura de temperos, carnes e fumo de corda. Em seguida, vem a diversidade visual de produtos de cores, formas e tamanhos diferentes, à vista e ao alcance do toque. Mas nenhuma dessas dimensões é maior do que a humana.

Pelas bancas, as histórias se confundem. Muitos comerciantes estão ali há várias décadas, vendendo produtos típicos da mesa sorocabana e mantendo vivas referências da cidade. São itens que evocam diretamente a memória tropeira: fumo, facas, couro. Ferro.

Foi essa atmosfera que, em 1964, chamou a atenção de um barbeiro de Porto Feliz. Passeando com o pai, ele parou para tomar um café, soube que o dono queria vender a lanchonete, voltou para sua cidade, vendeu a barbearia e fincou raízes naqueles corredores.

“O meu pai chegou aqui há 61 anos. Eu nasci e cresci aqui dentro”, conta João Carlos Padovani Cortez, filho daquele barbeiro, que hoje comanda a mesma lanchonete e preside a organização social que administra o prédio.

Sob seu olhar, o Mercado Municipal de Sorocaba mostra que é um organismo vivo, capaz de unir diferentes épocas. Se nos porões ainda resistem bancas com quase 70 anos de tradição, no telhado o prédio exibe placas solares que o tornam autossuficiente em energia. O passado e o futuro dividem, todos os dias, o mesmo corredor.

Pelos corredores

Os produtos podem até contar histórias centenárias, mas nada se compara às histórias das pessoas que constroem o mercado todos os dias. Seu Hélio Ramos, por exemplo, está lá desde os anos 1960 e, em 1972, abriu sua lanchonete, que permanece até hoje. Com a voz baixa e divertida, ele conta: “Eu sou um satélite do mercado. O senhor não sai lá da sua casa só para vir comer um salgadinho meu. O senhor vem comprar outras coisas, passa aqui e acaba com tudo”.

Em sua vitrine, se destacam salgados tradicionais das antigas padarias sorocabanas: a coxa-creme e o bolinho caipira. De produção própria, os salgados agradam aos sorocabanos há décadas.

As histórias se misturam e se confundem no mercadão, assim como os aromas e até os sabores. Rafael Gomes da Silva é a terceira geração atrás do balcão da peixaria da família. “Antes do mercado, meu avô e meu pai vendiam miúdos na rua, no lombo do cavalo. Desde os anos 1980 estão aqui”, relata.

E, se o assunto é tradição em carnes e miúdos, o Açougue Santo Antonio resiste desde 1953. Mais do que história, o balcão esconde talentos de nível internacional. José Elder Reis Dias, que trabalha no local há mais de duas décadas, é campeão mundial. Em 2025, ele foi campeão com a seleção brasileira de açougueiros na Copa do Mundo da profissão, disputada em Paris, desossando bois, porcos e cordeiros em uma arena cronometrada.

Mas o mercado é, acima de tudo, o retrato de quem soube resistir e se reinventar. A delicadeza de Yolanda Tomiko Serikiaku abriga uma vida inteira de feira. Ela começou ali mesmo, aos 15 anos, em um cantinho modesto, vendendo frutas e verduras que a própria família plantava na chácara. Após dez anos vivendo em São Paulo, retornou na década de 1990 para oferecer temperos e produtos orientais a uma clientela fiel, que recusa os grandes hipermercados para comprar diretamente de suas mãos.

As mudanças de hábito da cidade também ditam o ritmo das vendas e ajudam a manter o movimento. Alexandra Ishii, há 30 anos no local com sua banca de produtos naturais, percebeu que a busca por saúde transformou os corredores.

“O mercado virou referência. O pessoal vem procurando coisas a granel, porque, além de ser mais barato, como a gente repõe todos os dias, os produtos são bem mais frescos”, explica.

Entre um atendimento e outro, as pessoas entram e saem do mercadão, levando produtos a granel e carnes embrulhadas em papel-pardo. Como sempre foi, como ainda é. Atualmente, as 55 bancas do local estão ativas e cerca de cinco mil pessoas passam por ali todos os dias. Um espaço que, aos poucos, recupera sua movimentação e se mantém como ponto de referência para os sorocabanos.

Entre confrarias e escritórios

Cinco mil pessoas passam diariamente pelo local. Algumas em busca de produtos, outras atrás de coisas que não encontram em nenhum outro lugar: fumo de rolo, erva-mate para um chimarrão que relembra o Rio Grande do Sul.

Mas algumas são diferentes. Elas buscam se reconhecer nos balcões do Mercado Municipal. O som inconfundível das risadas soltas, por exemplo, tem endereço e horário fixos na lanchonete de João Carlos. É ali, entre um gole de café e outro, que um grupo de aposentados montou seu “escritório”.

Diariamente, Gilson Lima senta-se à mesa, ladeado pelos companheiros de longa data: Francisco Yabiku, Nilson Rodrigues da Silva, Jeferson Sampaio e, agora, pelo neto Davi Miramontes Akaishi, que leva a tradição no sangue. “Aqui a gente discute os problemas do mundo, dá as soluções, damos risada, contamos piada. O gostoso desse ambiente é isso, é descontraído, é familiar”, resume Gilson.

A relação dele com o espaço vem de berço. Criado na rua Miranda Azevedo, ele frequenta o local desde criança. Conhece todas as famílias fundadoras, viu repórteres crescerem e faz questão de manter a tradição viva.

Para a confraria de aposentados, o mercado é tão acolhedor que as visitas costumam acontecer em dose dupla. “Eu bato o ponto aqui duas vezes por dia. De manhã, lá pelas dez horas, e à tarde. O amigo me liga quando estou dormindo e me acorda: ‘vamos nos encontrar lá no escritório?’. E a gente vem para cá, porque a gente se sente bem, acolhido”, brinca.

As conversas do grupo não se limitam aos problemas do mundo. Vira e mexe, passa um conhecido e a conversa, naquele tom sorocabano de sempre, logo começa: “Como tá o seu pai?”, “Continua morando no mesmo lugar?”.

Os velhos conhecidos dividem as xícaras de café antes de continuar a caminhar pela cidade. Pelo Centro. Pela velha Sorocaba.