Entre pontes, romarias e devoção, a fé que moldou Sorocaba

Catedral Nossa Senhora da Ponte, Romaria de Aparecidinha e tradições populares revelam como a religiosidade ajudou a construir a identidade da cidade ao longo dos séculos

Por Vernihu Oswaldo

Catedral Nossa Senhora da Ponte está na praça, bem no Centro, como um farol para referenciar as direções dos fieis

A fé brasileira é desses fenômenos que, mesmo entre especialistas, é difícil de definir: em cada rincão, uma nova forma de se enxergar o mundo. Mesmo no panteão de religiões, o fato é um só: a fé popular não se prende a diretrizes; ela se desenvolve em cada lugar de uma forma, com os monumentos próprios falando e falando demais. Misturando diversas tradições.

Nossa Senhora é um caso à parte na devoção popular brasileira. E na sorocabana. O escritor Luiz Antônio Simas explica: “No mundo inteiro, a fé no poder da Virgem Maria se expressa numa profusão de títulos que Nossa Senhora recebe, pelos quais é incomodada nos ritos marianos. Como diz a sabedoria popular, há uma Nossa Senhora para cada necessidade do fiel”.

E em Sorocaba não é diferente. Ali na praça, bem no Centro, como um farol para referenciar as direções, está a Catedral Nossa Senhora da Ponte. Como explica padre Tadeu Rocha Moraes: “O título ‘Ponte’ é um título de Nossa Senhora. É a única catedral do Brasil que tem esse título. É uma devoção pessoal do fundador da cidade, Baltazar Fernandes, que trouxe essa devoção de Portugal.”

Independente da geografia da história, a referência é a mesma: ao lado da tal ponte havia uma capela, e os fiéis repetiam: “Vamos rezar na ponte, na capela da ponte”. E ali nascia a devoção a Nossa Senhora da Ponte. Luiz Antônio Simas divide as denominações da Virgem Maria em três: cotidiana, litúrgica e histórica. Nossa Senhora da Ponte, provavelmente, está no primeiro grupo, junto com Nossa Senhora do Bom Parto e Nossa Senhora dos Navegantes.

Marcos religiosos rapidamente se transformam em marcos cotidianos. Marcos cotidianos quase sempre se tornam monumentos. E monumentos sempre contam histórias. A Catedral de Nossa Senhora da Ponte guarda milhares de histórias, bem no coração de Sorocaba: desde as mais íntimas, como casamentos, batizados e confissões, até as mais gerais, como a fé de Baltazar Fernandes — o mesmo que foi homenageado ali perto, no começo da Rua São Bento, olhando para a praça e para a catedral.

A igreja também guarda os corpos dos que vieram antes: “Aqui na nossa igreja estão sepultados Dom José Carlos de Aguirre [primeiro bispo], Dom José Melhado Campos [segundo bispo] e Dom José Lambert [terceiro bispo e primeiro arcebispo]”.

A Ponte se conecta com Sorocaba de milhares de formas. Padre Tadeu também faz uma leitura simbólica: “Outra questão já é uma questão assim, mais espiritualizada: qual é a função de uma ponte? A função de uma ponte é unir o que está separado. Aqui em Sorocaba nós temos várias pontes sobre o Rio Sorocaba, e seria difícil a gente transpor, passar o rio sem essas pontes. A ponte aproxima, une o que está separado, aproxima o que está distante. E Nossa Senhora é esta ponte. Ela nos deu Jesus”.

A catedral de Sorocaba, além do clichê, se conecta com a cidade de um jeito próprio. O padre, mesmo depois de 28 anos à frente do local, ainda estranha algumas características: “Muita circulação de pessoas. E os nossos horários de missas aqui são horários muito esquisitos até, né? Por exemplo, missa ao meio-dia. Muito estranho pode parecer isso, mas, entretanto, é a missa mais frequentada, de segunda a segunda”. À noite, o Centro se aquieta e as missas ficam mais vazias.

Fé, estradas e tradições

Mas não é só de pedra e cimento que se fazem os monumentos. Às vezes, as melhores histórias estão em pequenos monumentos, cuidados e levados não apenas pelas mãos dos historiadores e religiosos, mas pelo povo. Simas define: “A santinha bochechuda e sorridente, ainda que esteja coroada com ouro e diamantes, parece mais ser como certa feita me falou uma tia-avó: aquela amiga que mora na vizinhança e socorre a gente na hora do sufoco”.

A Catedral também é o ponto de partida e de chegada de uma das maiores expressões da fé no estado de São Paulo: a Romaria de Aparecidinha. Padre Tadeu lembra a grandiosidade do evento que toma conta do centro de Sorocaba logo nas primeiras horas da manhã. “Às cinco horas da manhã, a Praça Coronel Fernando Prestes estava tomada de fiéis”, relata.

Na missa da Catedral, cerca de 2.500 comunhões dão a dimensão do volume de pessoas que encaram uma jornada longa, de 16 a 17 quilômetros, que começa ao raiar do dia e se estende até as 18h. “O diminutivo é sempre carinhoso, né? Aqui é ‘Aparecidinha’”, resume o padre sobre a devoção popular.

Embora o Brasil celebre a padroeira em 12 de outubro, a romaria sorocabana tem seu próprio calendário, moldado pelas marcas da história e das crises sanitárias. A tradição secular remonta ao século 19, quando preces contra a seca, tempestades e doenças mobilizaram os fiéis.

Foi no final daquele século, assolado por uma grave epidemia de febre amarela, que o Monsenhor João Soares do Amaral fixou as datas tradicionais: o dia primeiro de janeiro para trazer a imagem a Sorocaba, e o segundo domingo de julho para levá-la de volta. Ironia trágica da história, o próprio Monsenhor viria a falecer vítima da mesma epidemia, em abril de 1899. Monsenhor, hoje, está sepultado na Santa Casa de Sorocaba.

Diferente da imagem de Nossa Senhora da Ponte — trazida por Baltazar Fernandes —, a pequena imagem de Aparecidinha, com seus 13 centímetros, chegou à região pelas mãos de tropeiros, não os famosos como Baltazar, mas os desconhecidos que abriram estradas pelos rincões paulistas. Eles a abrigaram em um nicho na árvore antes de chegar ao santuário. E até os detalhes de sua guarda carregam a identidade local: a redoma que envolve a pequena escultura foi moldada nas oficinas da própria Estrada de Ferro Sorocabana. Os monumentos são interligados. Como pontes.