Pelourinho atravessa séculos e ajuda a contar a origem de Sorocaba

Símbolo da elevação do povoado à condição de vila, monumento teve papel central nas disputas que definiram os primeiros anos da cidade

Por Vernihu Oswaldo

Monumento que representava a autonomia e a autoridade da vila também era utilizado como local de castigos

A história de Sorocaba é cheia de idas e vindas. O imenso território foi caminho para a passagem de diferentes povos desde os primeiros tempos de ocupação, mas algumas dessas jornadas ainda são pouco conhecidas.

“É importante conhecer a dinâmica da época colonial: a elevação de um lugarejo à condição de vila significava que, a partir daquela data, haveria certa autonomia, com a instituição de uma Câmara e cadeia e o levantamento de um Pelourinho”, explica o professor Carlos Cavalheiro.

A trajetória desse marco de madeira e pedra revela disputas, ambições e negociações políticas do período colonial. O monumento carregava uma mensagem ambígua: ao mesmo tempo em que representava a autonomia e a autoridade da vila, também era utilizado como local de castigos.

Um pelourinho é uma coluna de pedra ou madeira erguida em praça pública que servia como símbolo da autoridade da Justiça e local de castigo físico e exposição pública de criminosos e pessoas escravizadas. O reconhecimento do status de vila significava que o local passava a ter maior autonomia administrativa e autoridade para definir determinadas questões, inclusive penas e castigos. Por isso, o Pelourinho era um símbolo importante.

O ex-prefeito de Sorocaba Paulo Mendes afirma: “O fundador de Sorocaba sempre buscava estar próximo das águas, dos rios, porque água é vida. E ali naquele bairro do Itavuvu (...) é que foi o início do povoado. E foi por isso que ele implantou ali o Pelourinho, que é o símbolo da autoridade”.

Nas andanças de Afonso Sardinha pelo Estado, enquanto buscava metais preciosos, ele encontrou magnetita de ferro no Morro Araçoiaba. Por volta de 1611, o povoado foi transferido para a região do Itapeboçu, local que, segundo a tradição histórica, corresponde ao atual bairro do Itavuvu. Ali, foi refundado como Vila de São Felipe, em homenagem ao rei da Espanha durante o período da União Ibérica.

Foi apenas meio século depois, em 1661, que Baltazar Fernandes pleiteou a elevação de Sorocaba à condição de vila. O pedido encontrou resistência do governador Sá e Benevides, que questionou a proximidade com a já existente Vila de São Felipe. A argumentação de Baltazar foi estratégica: alegou que o povoado vizinho estava praticamente abandonado. Mediante o compromisso formal de transferir o Pelourinho do Itavuvu para Sorocaba, o governador cedeu, oficializando a criação da vila.

O resgate da memória no século 20

Na gestão do ex-prefeito Paulo Mendes (1993-1997), um movimento de valorização do patrimônio histórico ganhou força. Orientada por pesquisadores da história local, como Adolfo Frioli e Porfírio Rogich Vieira, a prefeitura voltou os olhos para o Itavuvu.

“Em 1994, ouvindo o Rogich Vieira e o Adolfo Frioli, eles me convenceram de que realmente o começo de Sorocaba, o início do povoado, foi no bairro do Itavuvu. (...) Fomos visitar o local e foi ali implantado o Pelourinho. E uma placa onde diz: ‘As raízes de Sorocaba se iniciaram aqui’, com a introdução do Pelourinho”, conta Paulo Mendes.

Durante sua gestão, o ex-prefeito transferiu o início da semana de comemoração do aniversário de Sorocaba para o local do monumento ao Pelourinho. “Eu acho que é muito importante a gente cultuar essas tradições para que as novas gerações conheçam a nossa origem, os desafios que a Vila de Sorocaba enfrentou, e sempre com muito otimismo. É isso que caracteriza a nossa história e o perfil do sorocabano.”

Com a voz firme e os olhos brilhantes, Paulo, aos 78 anos, relembra não apenas os monumentos de pedra da cidade, mas também as pessoas que ajudaram a construir e preservar esse legado.

“Nós vemos isso com um sentimento de gratidão àqueles que já não estão entre nós, que já partiram desta vida. Eram pessoas que tinham sempre um ideal de pioneirismo, sempre demonstrando um imenso amor à nossa terra, à nossa Sorocaba.”

A lembrança do Pelourinho, erguida em pedra, permanece no Itavuvu. O tempo, porém, deixou suas marcas. A placa que acompanhava o monumento foi retirada, e a conservação do espaço já não é a mesma.