Elvira Casonato, 109 anos: uma vida longa, ativa e cheia de histórias
Moradora de Sorocaba comemorou aniversário ontem: trajetória marcada por independência, afeto e muitas lembranças
Os cabelos totalmente brancos como uma nuvem, curtos, emolduram o rosto em delicadas ondas, a pele carrega as marcas do tempo e o olhar sereno. Na hora da foto, um sorriso espontâneo bem aberto, sem perder o clique. Já na cadeira de rodas, debilitada pelo tempo e pela idade, calçava pantufas, uma calça preta e uma blusa roxa de lã com botões, bem arrumada e cuidada. Elvira Casonato da Rocha completou 109 anos ontem (17).
De acordo com o Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), baseado no censo demográfico realizado em 2022 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres acima de 90 anos em Sorocaba representam apenas 0,3% da população. Enquanto os homens representam 0,1%.
Em 2022, o IBGE divulgou que 45 mulheres de Sorocaba atingiram mais de 100 anos. Entre os homens, foram 17. Na época, Elvira já estava na marca, com 105 anos.
Dona Elvira já apresenta dificuldade para conversar, cansada pelo efeito colateral de um remédio que deu reação nos dias que antecederam a entrevista ao Cruzeiro do Sul, e cochilava de tempos em tempos. No nariz, um curativo para proteger um machucado que, distraída, insiste em voltar a mexer.
A filha, Maria José Antunes Rocha Rodrigues da Costa, de 82 anos, conta um pouco da história da mãe. Nascida em 17 de agosto de 1917, na zona rural de Tietê, Região Metropolitana de Sorocaba (RMS), Elvira teve uma infância marcada por alegria e tristeza. "Mamãe estudou na escola da cidade, que era perto. Ia junto com os primos, então teve uma infância feliz na convivência com eles. Por outro lado, perdeu a mãe com quatro anos de idade. Foi criada pela avó paterna e conviveu muito com os primos", lembra.
Já adulta, se casou. Com quatro anos de casamento, teve a Maria José e, pouco depois, o filho caçula, que nasceu com síndrome de Down e um problema cardíaco. No entanto, o menino morreu ainda novo, aos 19 anos.
O marido passou a trabalhar na Estrada de Ferro Sorocabana e a família se mudou para Laranjal Paulista. "Ela levou uma vida muito regrada. Nunca trabalhou fora, era dona de casa e cuidava de tudo para o meu pai, que tinha horário para tudo. Sempre foi muito ativa e ajudava toda a família. Ia ao médico com as irmãs, cuidava de quem precisava", conta Maria José.
A viuvez chegou cedo: o marido faleceu aos 59 anos. Desde então, Elvira continuou na casa em que moravam por muitos anos, um terreno com muitas plantas, que ela sempre gostou de cultivar. "Ela ficou morando sozinha em Laranjal Paulista. Sempre gostou muito de plantas. Morava em uma casa com um quintal enorme. A primeira casa onde moramos tinha umas vinte goiabeiras, manga e várias outras frutas. Parecia uma chácara dentro da cidade. Depois que meu pai morreu, ela mudou para outra casa, também com bastante quintal, bananeiras e muitas plantas. Sempre gostou de cuidar do quintal", conta a filha.
Também chegou a voltar para Tietê, mais próxima da família. Em 2003, se mudou para um apartamento em Sorocaba, mais próximo da filha. Morou sozinha até os 91 anos, sempre ativa e independente. "Depois comecei a insistir para que viesse morar comigo, porque o apartamento onde ela vivia tinha escada e achei que já era perigoso. Então ela veio morar comigo em 2013, aproximadamente."
A longevidade impressiona e instiga a pergunta clássica: "Qual o segredo?" Maria José ouviu a mãe responder por anos e repete a resposta: "Comer pouco e dormir muito" ou, sempre bem-humorada, "Não tomo água, tomo pinga".
Os longos anos são uma característica da família, conta Maria. "No geral, a família é bem longeva. A família Casato vive bastante. Acho que comeram muita polenta lá no sítio, queijo, frutas sem agrotóxico. Levaram uma vida muito saudável. E também tem a genética, que é muito boa", explica.
De acordo com a médica Nellie Parra Rubio Boscariol, "envelhecer é um privilégio que nem todos têm. A gente não tem um único segredo para a longevidade. Ela é resultado da combinação de vários fatores. Entre eles estão a genética, que é bastante importante, os estilos de vida e o acesso aos cuidados de saúde".
Na casa, fotos da família estão espalhadas pelas paredes e móveis, mostrando todas as gerações. Elvira sempre sorridente e carinhosa. Tem três netas e sete bisnetos.
Longevidade
A médica geriatra Nellie Parra Rubio Boscariol explica que hábitos como uma alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, sono adequado, controle de doenças crônicas, baixo consumo de tabaco e álcool e manter uma vida social e intelectual ativa são fatores que auxiliam no envelhecimento saudável.
De acordo com a doutora, "os anos de vida podem ser influenciados pela genética, mas a qualidade desses anos depende muito das nossas escolhas pessoais", afirma. Para chegar à terceira idade, a prevenção tem papel fundamental.
As consultas regulares são importantes. "Nessas consultas conseguimos identificar medicações inapropriadas, remédios que podem causar tontura, fraqueza e quedas, além de tratar doenças como hipertensão e diabetes. Também é o momento de revisar as vacinas e identificar casos de automedicação, que são muito comuns no Brasil", afirma.
Os cuidados podem ser observados desde a juventude. No entanto, Nellie afirma que nunca é tarde para começar. "Tem uma frase de que eu gosto muito: o melhor momento para cuidar da nossa saúde foi anos atrás, e o segundo melhor momento é hoje."
A médica afirma ainda que há estudos que mostram que mudanças de hábitos até mais de 80 anos são benéficas para a saúde. "Praticar atividade física, melhorar a alimentação e parar de fumar são atitudes que fazem diferença em qualquer idade. Mesmo quando a pessoa para de fumar depois de idosa, ela reduz o risco de doenças cardiovasculares ao longo dos anos seguintes. Fortalecer a musculatura também reduz o risco de quedas e melhora a qualidade de vida."
Não é só envelhecer, mas envelhecer com qualidade. "O objetivo não é apenas acrescentar anos à vida, mas acrescentar vida aos anos", conclui a médica.