Violações de direitos contra mulheres crescem 111,8% em Sorocaba

Especialista aponta necessidade de fortalecer a rede de proteção, enquanto ministra das Mulheres defende integração entre os serviços e confirma avanço da Casa da Mulher Brasileira

Por João Frizo

Dados são de janeiro a julho de 2026. Canais de denúncias também registram aumento: de 118 ano passado, para 235

O Agosto Lilás, campanha nacional de conscientização e enfrentamento da violência contra a mulher, começa com um cenário de alerta em Sorocaba. Entre janeiro e julho deste ano, o município registrou 1.474 violações de direitos contra mulheres, aumento de 111,8% em comparação com o mesmo período de 2025, quando foram contabilizadas 696 ocorrências. Os dados são do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC).

As violações englobam diferentes formas de violência, entre elas agressões físicas e psicológicas, maus-tratos, exploração sexual, tráfico de pessoas e outras ocorrências. O levantamento também aponta crescimento na procura pelos canais oficiais de atendimento. Nos sete primeiros meses deste ano, foram registradas 235 denúncias, que resultaram em 156 protocolos de atendimento pela Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos. No mesmo período do ano passado, haviam sido contabilizadas 118 denúncias e 96 protocolos.

Embora o aumento dos registros não permita concluir, isoladamente, que houve mais casos de violência, os números indicam que um volume maior de ocorrências chegou aos canais oficiais de atendimento. Para especialistas, o cenário reforça a necessidade de ampliar a prevenção, incentivar as denúncias e fortalecer a rede de proteção às mulheres.

Na avaliação da coordenadora do curso de Direito da Faculdade Anhanguera, Taciana Cristina da Costa Cruz, o crescimento dos registros evidencia que a violência contra a mulher continua sendo uma realidade que exige atenção permanente do poder público e da sociedade. "O Agosto Lilás é um importante momento para conscientizar a população sobre os direitos das mulheres, divulgar os canais de denúncia e fortalecer a rede de apoio para que as vítimas se sintam acolhidas e seguras para buscar ajuda."

Segundo a advogada, denunciar é fundamental para interromper o ciclo da violência e permitir que a vítima tenha acesso aos serviços de proteção. Ela ressalta que a violência contra a mulher representa uma grave violação dos direitos humanos e produz consequências que vão além das agressões físicas, comprometendo a saúde mental, a autonomia, a segurança e a qualidade de vida das vítimas.

Aumento

Em entrevista à Rádio Cruzeiro FM 92,3, na manhã de ontem (4), a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, também classificou como preocupante o aumento das violações em Sorocaba. Segundo ela, os dados precisam ser analisados com profundidade para identificar quais formas de violência apresentaram maior crescimento e, assim, orientar políticas públicas mais eficientes. "A violência contra a mulher não é só o feminicídio. Precisamos entender a que tipo de violência esses dados de Sorocaba se referem."

Para a ministra, municípios do porte de Sorocaba têm estrutura para fortalecer o atendimento às vítimas, desde que haja integração entre os diferentes órgãos da rede de proteção. "É preciso que o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher funcione bem, tenha um bom diagnóstico e um plano municipal de atendimento às mulheres."

Ela acrescentou que a articulação entre unidades de saúde, assistência social, segurança pública e sistema de Justiça é essencial para identificar situações de violência, acolher as vítimas e evitar que os casos evoluam para agressões mais graves.

Márcia Lopes lembrou ainda que Sorocaba já conta com iniciativas apoiadas pelo governo federal, como a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) com atendimento 24 horas e o programa Protege Mulher, do Ministério da Justiça, que disponibilizou sete viaturas para a Guarda Civil Municipal atuar no acompanhamento de mulheres com medidas protetivas e no atendimento de ocorrências.

Casa da Mulher Brasileira

Outro projeto em andamento é a implantação da Casa da Mulher Brasileira em Sorocaba. Segundo a ministra, o governo federal analisa os terrenos apresentados pela Prefeitura para receber o equipamento, que reunirá em um único espaço serviços especializados de acolhimento, atendimento psicossocial, apoio jurídico e orientação às mulheres vítimas de violência. "Estamos analisando os terrenos e a expectativa é iniciar a obra no começo do próximo ano."

A ministra afirmou ainda que ampliar a rede de atendimento é uma das estratégias para reduzir a violência e facilitar o acesso das vítimas aos serviços públicos de proteção.

Os dados do MDHC mostram que o crescimento das violações não ocorreu apenas em Sorocaba. Entre janeiro e julho deste ano, o Estado de São Paulo registrou 64.957 violações de direitos contra mulheres. No mesmo período de 2025, foram contabilizadas 54.443 ocorrências, alta de 19,3%.

Como denunciar

Em situações de emergência, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo telefone 190. As vítimas também podem procurar a Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180), serviço gratuito, sigiloso e disponível 24 horas por dia para orientação, acolhimento e encaminhamento.

Em Sorocaba, o atendimento especializado é realizado pela Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), localizada na rua Caracas, 846, no Jardim America. Também é possível registrar ocorrências e solicitar medidas protetivas pela Delegacia Eletrônica.

Outra opção é o Disque 100, destinado ao recebimento de denúncias de violações de direitos humanos.