Diagnóstico preciso separa TDAH de distração

Avaliação clínica continua sendo o único caminho seguro para identificar a condição e indicar o tratamento adequado

Por Vernihu Oswaldo

Médicos devem verificar se sintomas se manifestaram antes dos 12 anos de idade e estar presentes em diferentes ambientes

A popularização de conteúdos sobre saúde mental nas redes sociais ampliou o debate sobre o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), mas também contribuiu para o aumento dos autodiagnósticos. Embora desatenção, impulsividade e dificuldade de concentração sejam frequentemente associadas ao transtorno, esses comportamentos não são suficientes para confirmar o diagnóstico. A avaliação clínica continua sendo o único caminho seguro para identificar a condição e indicar o tratamento adequado.

O psicanalista José Milton Castan Junior explica que o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, ligado ao funcionamento do cérebro. A psicóloga Thais Mazotti reforça essa perspectiva clínica. Segundo ela, o TDAH pode se manifestar de diferentes formas. Algumas pessoas apresentam sintomas de desatenção, outras de hiperatividade e impulsividade, enquanto muitas apresentam uma combinação dessas características.

Segundo Castan, a principal característica do transtorno é a dificuldade persistente de autorregulação. "Trata-se de uma alteração na capacidade de regular o próprio comportamento, as emoções e os processos cognitivos conforme as demandas do ambiente", explica.

Distração fora do normal

A diferença entre uma distração passageira e o TDAH está na frequência e, principalmente, no impacto causado na vida da pessoa. "Todos nós nos distraímos, temos períodos de baixa concentração ou ficamos mais impulsivos. Mas isso não quer dizer que temos TDAH. A principal diferença é se estamos diante de um padrão persistente de funcionamento que provoca prejuízos importantes na vida da pessoa", afirma Castan.

A dificuldade de autorregulação não fica só no comportamento, mas afeta também o campo afetivo. A psicóloga Thais destaca que muitas pessoas com TDAH também apresentam dificuldades na regulação emocional. "Isso pode se manifestar por maior intensidade na vivência das emoções, dificuldade para lidar com frustrações, irritabilidade e impulsividade emocional", detalha. Ela explica que, embora a desregulação emocional não faça parte dos diagnósticos formais, ela é frequentemente observada na prática clínica e contribui para o sofrimento e prejuízos nas relações interpessoais.

Rotina, adaptação e hiperfoco

A adaptação varia de pessoa para pessoa. Castan cita o exemplo de dois irmãos gêmeos diagnosticados com TDAH: um precisa manter o uso da medicação para desempenhar suas atividades profissionais. O outro conseguiu controlar os sintomas com adaptações na rotina. "É caso a caso. O mais importante é ter um diagnóstico preciso para que se adote condutas mais apropriadas", diz.

Quem convive com o TDAH confirma que o tratamento exige constância. A servidora pública Nathalia Loiola Loureiro de Almeida, de 41 anos, relata que procurou ajuda ao perceber que trabalhava em excesso por causa do hiperfoco e, ao mesmo tempo, tinha dificuldade para manter a atenção. "Eu prestava atenção em tudo e queria me envolver no trabalho de todo mundo", conta.

A psicóloga Thais explica que fenômeno vivido por Nathalia é muito comum, mas não faz parte dos critérios diagnósticos formais.

Para Nathalia, o tratamento se tornou um processo permanente de autoconhecimento. "É um processo e vai ser sempre parte da minha vida. Foi e sempre vai ser um processo de autoconhecimento."

Avaliação clínica

Não existe exame laboratorial ou de imagem capaz de confirmar o transtorno. "O diagnóstico não se dá por fazer um questionário na internet ou por ler os sintomas e concluir que tem TDAH. O psiquiatra precisa avaliar o paciente com cuidado e descartar outras condições que podem apresentar sintomas semelhantes", explica Castan. A prevalência do transtorno na população é estimada entre 3% e 5%.

Para garantir a precisão dessa avaliação, existem critérios rígidos. "Os sintomas precisam persistir por pelo menos seis meses, estar presentes em intensidade incompatível com o nível de desenvolvimento da pessoa e provocar prejuízos significativos", pontua Thais Mazotti.

Além disso, os sintomas devem ter surgido antes dos 12 anos e estar presentes em diferentes ambientes, como casa ou trabalho. A avaliação pode envolver profissionais de diferentes áreas para garantir um diagnóstico preciso e um tratamento adequado.