Há 55 anos, um encontro diário com o Cruzeiro do Sul

Aos 90 anos, Sidney de Oliveira mantém o hábito de ler o jornal todas as manhãs, comenta as reportagens com a família e guarda, nas páginas impressas, parte da própria história

Por Thaís Verderamis

Aos 90 anos, Sidney de Oliveira mantém o hábito de ler o jornal todas as manhãs

Aos 90 anos, Sidney de Oliveira ainda mantém um compromisso que atravessa gerações: todas as manhãs, espera a chegada do Cruzeiro do Sul. Há 55 anos, o jornal faz parte de sua rotina, acompanha sua história e ocupa um lugar especial na memória da família.

Leitor atento e apaixonado por informação, seu Sidney também faz questão de manter contato com a redação. De vez em quando, o telefone toca. Do outro lado da linha, ele comenta uma reportagem, pergunta para qual time torce a equipe do jornal, defende, com bom humor, o São Paulo Futebol Clube e ainda recomenda uma música de Elomar Figueira de Mello ou uma composição de Claude Debussy. Antes de encerrar a conversa, se despede como faz questão de fazer com todos: "Desculpe qualquer coisa. Deus abençoe!"

A ligação resume bem quem é seu Sidney. Educado, curioso e dono de uma sensibilidade admirável, ele transformou a leitura do jornal em um ritual diário, cultivado há mais de cinco décadas. Nem mesmo o passar dos anos mudou esse hábito. Em 2010, a saúde começou a exigir mais cuidados e a memória já não era a mesma. A família passou por momentos delicados, mas seu Sidney continua encontrando maneiras de manter a mente ativa. Escreve, ouve música erudita, gosta da casa organizada e faz questão de abençoar quem está por perto.

Sempre muito culto, costuma compartilhar reflexões que revelam sua maneira de enxergar o mundo. Uma das preferidas da família diz respeito à música: "Se a sensibilidade dos músicos fosse empregada na política, o mundo era outro".

Todas as manhãs, o jornal chega à casa da família, no Jardim Maria do Carmo, zona norte de Sorocaba. Sidney lê as reportagens, separa aquelas que considera mais interessantes e faz questão de mostrá-las aos familiares. Entre todas as páginas, há uma que recebe atenção especial: o editorial. "O editorialista tem muita responsabilidade, porque influencia o nosso pensamento, o nosso comportamento. Parabéns para ele", afirma.

Quando chega a segunda-feira, porém, a rotina muda. Acostumado a encontrar o jornal logo cedo, ele não esconde a saudade. "De segunda-feira não tem jornal", comenta à esposa, Maria Onice Barbosa de Oliveira, 85 anos, e à filha Edilene, que mora com o casal.

A relação da família com o Cruzeiro do Sul atravessa gerações. Sidney e dona Maria são pais de quatro filhos: Silvio César, Edilene, Fábio e Soraia. Todos cresceram vendo o jornal fazer parte da rotina da casa. "O jornal era diário. Todo dia, toda a vida. A gente acordava de manhã e ele já estava lendo. Fez parte da história da nossa família", recorda Fábio.

Entre as lembranças mais carinhosas está o Cruzeirinho. As atividades reuniam pai e filha, enquanto o restante da família acompanhava aquele momento simples que acabou se transformando em tradição. "Tinha o Cruzeirinho. A Soraia fazia as atividades com o meu pai. Minha mãe faz até hoje", conta Fábio, sorrindo.

Quando soube que receberia a equipe do Cruzeiro do Sul em casa, Sidney ficou ansioso. Avisou toda a família. No dia da entrevista, recebeu os jornalistas com orgulho. Mostrou uma edição em que apareceu na coluna do leitor, falou novamente sobre seus compositores favoritos e, como faz há décadas, conversou sobre o jornal como quem conversa com um velho amigo.

Ao longo de 55 anos, as páginas do Cruzeiro do Sul acompanharam diferentes momentos da vida de Sidney e de sua família. Em troca, o jornal ganhou um leitor que nunca deixou de acreditar no valor da informação, da boa leitura e do diálogo.

No fim da visita, como faz ao encerrar cada telefonema para a redação, seu Sidney sorriu, agradeceu pela conversa e repetiu as palavras que parecem resumir também sua forma de viver: "Desculpe qualquer coisa. Deus abençoe!"