Justiça rejeita recurso de empresa e mantém nulidade de licitação de R$ 22 milhões em Sorocaba

R. Clean tentava afastar condenação às custas em ação sobre kits musicais considerados obsoletos pelo MP

Por Caroline Mendes

Prefeitura de Sorocaba informou que não realizou pagamentos pelos kits e suspendeu a distribuição dos materiais após o questionamento judicial

A Justiça rejeitou mais uma tentativa da empresa R. Clean Comercial Eireli de reverter os efeitos da decisão que anulou a licitação da Prefeitura de Sorocaba para a compra de kits musicais destinados à rede municipal de ensino, com valor estimado em R$ 22 milhões. Em decisão publicada na terça-feira (28), o juiz Cassiano Gomes Zimmermann, da Vara da Fazenda Pública de Sorocaba, negou provimento aos embargos de declaração apresentados pela empresa e manteve a condenação ao pagamento das custas e despesas processuais.

A empresa alegava haver contradição na sentença anterior, que anulou o Pregão Eletrônico nº 023/2022 e o contrato administrativo firmado, mas afastou sua responsabilidade civil por eventual ressarcimento aos cofres públicos. O magistrado, porém, entendeu que não há conflito entre as decisões, pois a nulidade do procedimento licitatório e a responsabilização individual da empresa tratam de questões distintas.

Segundo Zimmermann, a R. Clean participou da licitação como vencedora de um dos lotes e integrou a relação contratual posteriormente declarada inválida. Por esse motivo, os efeitos da sentença também atingem a empresa. O juiz destacou ainda que a condenação ao pagamento das custas processuais decorre da sucumbência no pedido de declaração de nulidade do contrato, e não do reconhecimento de responsabilidade civil.

A decisão também rejeitou o argumento da empresa de que a sentença não definiu o destino dos materiais entregues. De acordo com o magistrado, a retirada, restituição ou guarda dos kits constitui providência material decorrente da anulação do contrato, e não uma omissão judicial.

Investigação

O Pregão Eletrônico nº 023/2022 foi alvo de uma Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) ainda em 2022. A investigação apontou possíveis irregularidades na contratação para o fornecimento de kits musicais às escolas municipais.

A R. Clean venceu o lote 1 da licitação, que previa a entrega de 29.586 kits destinados à educação infantil. Os produtos eram compostos por materiais da coleção Palavra Cantada, incluindo livros, CDs e DVDs, ao custo de R$ 343,50 por kit de aluno e R$ 448,50 por kit de professor.

Já a empresa Ville Editora e Comércio Ltda. venceu o lote 2, destinado ao ensino fundamental, com previsão de fornecimento de 20.703 kits.

Na ação, o Ministério Público sustentou que os materiais eram considerados obsoletos, pois muitas unidades escolares não possuíam equipamentos compatíveis para reproduzir CDs e DVDs. O órgão também afirmou que parte do conteúdo já havia sido adquirida anteriormente pela prefeitura, em 2011, e permanecia disponível nas escolas.

Outro ponto levantado pelo MP foi que o conteúdo poderia ser acessado gratuitamente pela internet, enquanto os valores cobrados pelas empresas seriam significativamente superiores aos praticados no mercado.

Indícios apontados

Durante a investigação, o Ministério Público também apontou indícios relacionados à estrutura das empresas participantes. Segundo a ação, a sócia da R. Clean havia sido investigada na Operação Aletéia, que apurou suspeitas de fraudes em licitações. Além disso, a empresa não possuía funcionários registrados à época e apresentava patrimônio composto por um veículo de alto valor.

Em relação à Ville Editora, o MP apontou possível incompatibilidade entre o capital social declarado e a capacidade econômica dos sócios.

Com a decisão mais recente, permanece válida a sentença que declarou a nulidade do Pregão Eletrônico nº 023/2022 e do contrato decorrente da licitação. Ainda cabe recurso.

A Prefeitura de Sorocaba informou anteriormente que não efetuou pagamentos referentes à aquisição dos kits e que a distribuição dos materiais às escolas municipais foi suspensa após o questionamento judicial. O Ministério Público segue acompanhando o caso.

O Cruzeiro do Sul procurou a R. Clean Comercial Eireli para comentar a decisão, informar se pretende recorrer e esclarecer os questionamentos levantados pelo Ministério Público. Até o fechamento desta edição, porém, a empresa não havia se manifestado. O espaço permanece aberto.