Gasolina com mais etanol gera debate sobre impactos nos motores
Mudança eleva mistura obrigatória de etanol de 30% para 32%; mecânicos alertam para aumento no consumo
A decisão de elevar a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%, válida por 180 dias a partir do dia 1º, voltou a colocar em debate os possíveis efeitos da medida sobre os veículos. A alteração ocorre em um cenário de instabilidade nos preços do petróleo e tem como objetivo ampliar a participação do biocombustível na composição da gasolina vendida no país.
Embora a medida tenha sido adotada como uma resposta ao cenário econômico, especialistas e profissionais do setor automotivo alertam que o impacto pode variar conforme o tipo de veículo, a idade do motor e a compatibilidade dos componentes com maiores índices de etanol.
Para o reparador de veículos automotores Manoel Francisco Vasques, de 60 anos, que atua há 49 anos na profissão, um dos primeiros efeitos percebidos pelo motorista deverá ser o aumento no consumo de combustível, principalmente nos veículos abastecidos apenas com gasolina.
"O aumento da mistura vai elevar automaticamente o consumo. Como haverá maior quantidade de álcool na gasolina, a autonomia tende a diminuir", explica.
Segundo ele, motores movidos exclusivamente a gasolina e veículos mais antigos merecem atenção especial. "Esses carros não foram projetados para trabalhar com um teor tão elevado de etanol. Componentes podem sofrer mais com corrosão, principalmente velas, filtros, mangueiras e peças que não possuem tratamento adequado contra esse tipo de desgaste", afirma.
Vasques ressalta, porém, que ainda é cedo para conclusões definitivas. "Os próximos seis meses serão fundamentais para observar como os veículos vão se comportar. Não adianta criar uma euforia ou gastar dinheiro antecipadamente com soluções que talvez nem sejam necessárias. O importante é acompanhar o funcionamento do veículo no dia a dia."
Veículos antigos
O proprietário da Rede Blumo Mecânica Automotiva, Cláudio Elvis dos Santos, compartilha da avaliação de que os maiores impactos deverão atingir veículos mais antigos, carburados, movidos apenas a gasolina e também alguns modelos importados.
"Esses veículos não possuem sistemas eletrônicos capazes de ajustar automaticamente a nova proporção de etanol. Já os modelos mais modernos conseguem fazer esse gerenciamento com muito mais eficiência", explica.
Segundo Cláudio, além do aumento no consumo, o motorista pode perceber alterações no funcionamento do veículo.
"A marcha lenta pode ficar mais instável, o carro pode apresentar dificuldade para dar partida a frio e pequenas falhas durante a aceleração. Com o passar do tempo, componentes como bicos injetores, velas, sensores e o sistema de alimentação também podem sofrer um desgaste maior."
O mecânico estima que a perda de autonomia possa chegar a cerca de 12%, devido ao maior teor de etanol na gasolina.
Manutenção preventiva
Apesar dos alertas, os dois profissionais recomendam que os motoristas não tomem medidas precipitadas.
Para Manoel Vasques, o momento é de observação, principalmente porque a mudança ainda está em período de avaliação.
Já Cláudio Santos reforça que a melhor forma de evitar prejuízos continua sendo a manutenção preventiva.
"O motorista deve ficar atento a sinais como dificuldade para ligar o carro, oscilações na marcha lenta, falhas durante o funcionamento e aumento no consumo. Ao perceber qualquer alteração, o ideal é procurar um mecânico de confiança para fazer um diagnóstico antes que pequenos problemas se transformem em reparos mais caros."
Ele também destaca que abastecer com gasolina aditivada não elimina os possíveis efeitos da nova mistura. "O aditivo tem função detergente, mas não altera a quantidade de etanol presente na gasolina. O mais importante continua sendo manter a manutenção em dia e acompanhar o comportamento do veículo durante esse período de adaptação."
Segundo os mecânicos, os primeiros reflexos da mudança deverão aparecer rapidamente no consumo de combustível, enquanto eventuais desgastes em componentes tendem a ser percebidos ao longo dos próximos meses de uso.
Por fim, Manoel Vasques faz questão de desfazer um equívoco que, segundo ele, tem circulado entre alguns motoristas. "É importante frisar que muita gente comenta que isso seria bom para os mecânicos porque aumentaria o volume de serviços. Isso não é verdade. O profissional da reparação não precisa de mais trabalho por causa de problemas gerados pelo combustível. Hoje é uma categoria formada por pessoas muito bem treinadas, que já têm bastante demanda. Ninguém quer um aumento de serviço para corrigir falhas em um sistema que, talvez, não estivesse preparado para essa nova mistura", conclui. (Gabriel Cacciacarro - programa de estágio)