Vida após o diagnóstico

Pacientes relatam como informação, acolhimento e apoio ajudam a enfrentar o câncer e a transformar o medo em força

Por Thaís Verderamis

Elizabeth Cerquinho: "Isso não me define. O que me define é a minha essência"

Um exame de rotina, um resultado inesperado, novos testes e, de repente, a confirmação: câncer. A sensação, para muitos pacientes, é de que o chão desapareceu. O medo, a insegurança e as dúvidas surgem quase ao mesmo tempo. Cada pessoa reage de uma forma. Alguns travam, outros choram e há quem procure imediatamente entender o que está acontecendo. Apesar do impacto da notícia, especialistas lembram que receber o diagnóstico não significa uma sentença de morte.

A aposentada Elizabeth de Fátima Daniel Cerquinho Miranda conhece bem esse sentimento. Depois de um exame de rotina, surgiu uma suspeita. Vieram a biópsia e, em seguida, o laudo.

Conhecida como Beth, ela decidiu enfrentar o problema de forma prática. Cadeirante desde a infância em razão de sequelas da poliomielite, não permitiu que o diagnóstico a intimidasse. No dia seguinte ao resultado dos exames, foi à primeira consulta com um oncologista, reorganizou sua rotina e iniciou o tratamento.

Nem todos, porém, encontram esse caminho logo no início. Uma forte dor no estômago sempre que se alimentava levou a comerciante Jacqueline Rossi a desconfiar de que algo não estava bem. "Era como se o estômago torcesse. Procurei um gastroenterologista, mas a consulta foi marcada para quase dois meses depois", relata.

A endoscopia foi o primeiro exame realizado. Ainda durante o procedimento, a médica responsável fez um alerta. "Ela chegou e falou assim para mim: 'Você está muito doente. Você está com câncer'. Assim, na lata", lembra.

A primeira reação foi negar a possibilidade. "Pensei: não, eu só estou com gastrite."

A médica recomendou que Jacqueline retornasse com urgência ao gastroenterologista. Dois dias depois, ela voltou ao consultório, realizou uma biópsia e recebeu um resultado negativo.

O problema, porém, estava longe de ser resolvido. "Quando saiu a biópsia, deu negativo. O médico falou que aquilo não queria dizer nada e pediu outro exame. Também deu negativo, porque analisaram a mesma lâmina. Então ele continuou tratando como gastrite durante quase sete meses. Só que minha barriga começou a inchar, eu emagreci muito e o abdômen cresceu", conta.

Nesse período, Jacqueline passou por três endoscopias e uma laparoscopia. Mesmo assim, os sintomas continuaram a piorar. Ao procurar atendimento de emergência, fez uma ressonância magnética que mostrou alterações importantes no útero.

Segundo ela, a gravidade do quadro fez com que alguns profissionais hesitassem em assumir o caso. "O médico do pronto atendimento falou que não podia pôr a mão em mim. No dia seguinte liguei para o meu ginecologista e ele disse que eu precisava procurar um oncologista."

Foi durante essa consulta que recebeu o diagnóstico definitivo. "Foi horrível ouvir. O nome desse tumor é tumor de Krukenberg. É quando o câncer do estômago atinge o ovário. Eu já estava com metástase", lembra.

O medo fez com que Jacqueline demorasse a buscar uma segunda opinião. "Eu não queria enfrentar a realidade."

Com a perda de 16 quilos e o agravamento do quadro, decidiu insistir na busca por atendimento. "Desesperada, procurei vários médicos e nenhum quis assumir o risco de me internar ou fazer alguma coisa. Eu estava muito mal."

Depois de muitas tentativas, encontrou uma oncologista que aceitou conduzir o tratamento. Jacqueline foi diagnosticada com carcinoma de células em anel de sinete e tumor de Krukenberg e iniciou a quimioterapia.

Quase dois anos depois, comemora os resultados. "Fiz vários exames e eles vieram positivos para o tratamento. Estou reagindo bem. Meus marcadores tumorais normalizaram."

Diagnóstico e acolhimento

Receber o diagnóstico de câncer desperta sentimentos como medo, insegurança e incerteza. Além das dúvidas sobre o tratamento, muitos pacientes também temem o sofrimento da família e a possibilidade da morte. Para a oncologista clínica do Instituto de Oncologia de Sorocaba, Luciana Buttros, o acolhimento é tão importante quanto o tratamento médico. "O acesso à informação hoje é enorme. Você tem Google, inteligência artificial, ChatGPT, seja lá o que for. Você faz uma pergunta e encontra uma resposta. Mas o que o paciente não encontra em um computador é acolhimento. Ele precisa poder falar sobre os seus medos e receber não apenas uma resposta, mas uma resposta acolhedora", afirma.

Segundo a médica, muitos pacientes associam imediatamente o diagnóstico à morte. "A morte estava lá no futuro. O paciente vai e traz essa morte para o presente. Cola no rosto dele. Antes de querer saber qual será o tratamento, ele quer saber onde está a morte naquele momento. E eu digo: calma, ela continua lá no mesmo lugar."

Para Elizabeth, sentir segurança durante o tratamento faz toda a diferença. Segundo ela, o apoio recebido da equipe multiprofissional foi fundamental para enfrentar cada etapa da doença. "O primeiro acolhimento não é de vitimismo. É um acolhimento em que você sente sinceridade. São pessoas que trabalham por vocação. O cuidado não está apenas na quimioterapia ou na medicação. Eles fazem você se sentir à vontade o tempo todo", relata.

A empatia também faz parte da rotina do enfermeiro Leonardo Guarini de Souza, do Centro de Infusão e Quimioterapia do Hospital Miguel Villa Nova Soeiro, da Unimed Sorocaba. Ele acompanhou parte do tratamento de Elizabeth e acredita que pequenos gestos ajudam a tornar o processo menos doloroso. "Quando recebem o diagnóstico, os pacientes ficam muito fragilizados física, emocional e psicologicamente. Parece que o chão desaparece. Sempre procurei tratar cada paciente como gostaria de ser tratado. Faço brincadeiras para alegrar o dia deles e evitar que a tristeza tome conta. Esse também é o nosso papel", afirma.

Autoestima e força

Além dos desafios físicos, o tratamento contra o câncer costuma afetar a autoestima. Entre as mulheres, a queda dos cabelos é uma das mudanças que mais provocam insegurança. Ainda assim, muitas descobrem novas formas de enxergar a própria imagem e encontram força para seguir em frente.

Ao receber a reportagem do Cruzeiro do Sul, Elizabeth e Jacqueline demonstravam essa transformação. Elizabeth estava com os cabelos ainda curtos, em fase de crescimento. Usava vestido estampado de um ombro só, colar, brincos, óculos marcantes, tatuagens aparentes e um par de Crocs do personagem Pateta, marca registrada de seu estilo.

Jacqueline também transmitia confiança. Vestia camisa listrada em azul e branco, calça jeans, sandálias, acessórios discretos e um corte de cabelo curto e repicado.

As duas precisaram reconstruir a forma como se enxergavam durante o tratamento.

Jacqueline passou por um emagrecimento acentuado e enfrentou o medo de perder os cabelos. "No começo fiquei desesperada. Não queria nem me olhar no espelho. Brincava com o meu marido que parecia um ET. Quando me via daquele jeito, achava que estava morrendo. Mas chegou um momento em que precisei decidir se ficaria na cama chorando ou se faria o possível para me recuperar. E tive de tomar essa decisão sozinha", conta.

Elizabeth escolheu outro caminho. Antes mesmo do início da quimioterapia, decidiu raspar a cabeça. "Antes da primeira sessão, fui ao salão e falei: raspa tudo. Eu não queria cabelo caindo pela casa", lembra, entre risos.

A decisão foi bem recebida pela família e acabou fortalecendo sua autoestima. "Até brinquei que economizaria tempo e dinheiro com cabelo."

Hoje, as duas compartilham a mesma convicção: a doença e a perda dos cabelos não definem quem são. 

Embora tenham enfrentado tipos diferentes de câncer e trajetórias distintas, Elizabeth e Jacqueline compartilham sentimentos semelhantes. A coragem para enfrentar o diagnóstico, a perseverança durante o tratamento e a esperança de seguir em frente unem histórias marcadas pela dor, mas também pela capacidade de recomeçar. As duas continuam em tratamento e transformaram a própria experiência em exemplo de força para familiares, amigos e outros pacientes.