Onça é filmada em área industrial e reforça importância de corredores ecológicos em Sorocaba
Animal foi registrado nas dependências da Ihara, na região do Éden; especialistas e autoridades apontam que ocorrência evidencia a conexão entre fragmentos de Mata Atlântica preservados no município
Uma onça foi filmada nas dependências da empresa Ihara, localizada na avenida Liberdade, na região do Éden, em Sorocaba, e reacendeu o debate sobre a presença de grandes mamíferos em áreas próximas à zona urbana. As imagens, registradas em 16 de junho e divulgadas por veículos de comunicação locais, mostram o animal circulando pelo pátio da indústria, situada nas proximidades da Estação Ecológica Municipal do Pirajibu.
O caso chamou a atenção pela proximidade do animal com uma área industrial e motivou discussões sobre a conservação ambiental e a conectividade entre os remanescentes de vegetação nativa existentes no município.
A reportagem procurou a empresa Ihara para comentar o episódio, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.
Área preservada
O promotor de Justiça do Meio Ambiente, Jorge Alberto Marum, explicou que a presença da onça está relacionada a uma região que passou por um amplo processo de preservação ambiental nas últimas décadas.
Segundo ele, há cerca de 20 anos a Promotoria de Justiça realizou um levantamento de grandes propriedades rurais que não possuíam a Reserva Legal devidamente registrada e implantada, conforme previsto pelo Código Florestal.
Uma dessas áreas pertencia à Iharabras, que firmou um acordo com o Ministério Público para a preservação de aproximadamente 500 mil metros quadrados de vegetação nativa. Posteriormente, outras áreas protegidas, resultantes de compensações ambientais exigidas em processos de licenciamento, foram incorporadas ao conjunto, formando uma extensa área verde que mais tarde daria origem ao Parque Pirajibu, atualmente consolidado como Estação Ecológica Municipal do Pirajibu.
Para Marum, embora a avaliação técnica caiba a especialistas da área ambiental, a presença do felino pode ser interpretada como um indicativo positivo dos resultados alcançados pela preservação da região.
Corredor ecológico
Em nota, a Secretaria do Meio Ambiente, Proteção e Bem-Estar Animal (Sema) informou que tomou conhecimento da ocorrência por meio da imprensa e destacou que o animal é de vida livre.
A pasta ressaltou que, com o avanço das áreas urbanizadas sobre regiões naturais, tornou-se mais comum o encontro entre seres humanos e animais silvestres, recomendando que a população não tente interferir na movimentação desses animais.
A secretaria também explicou que onças utilizam áreas muito maiores do que as unidades de conservação existentes, deslocando-se por fragmentos florestais e corredores ecológicos em busca de alimento e abrigo. Dependendo da disponibilidade de recursos, a área utilizada por esses animais pode ultrapassar mil quilômetros quadrados.
A Estação Ecológica Municipal do Pirajibu, criada por decreto em 2015, possui cerca de 450 mil metros quadrados e integra um dos mais importantes fragmentos florestais de Sorocaba. A unidade está inserida na bacia do rio Pirajibu e próxima ao Parque Natural Municipal Mário Covas, além de áreas consideradas prioritárias para conservação ambiental pelo governo federal.
De acordo com a prefeitura, a estação ecológica abriga remanescentes de Mata Atlântica, bioma reconhecido pela elevada biodiversidade e também pelo alto grau de ameaça decorrente da ocupação humana.
Competência
Durante a apuração, houve divergência inicial sobre qual esfera de governo seria responsável por eventuais providências relacionadas ao caso.
A Prefeitura de Sorocaba informou que a ocorrência envolvendo um animal silvestre de vida livre seria de competência estadual. Procurada pela reportagem, a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil), por meio da Diretoria de Biodiversidade e Biotecnologia (DBB), esclareceu que não havia sido informada sobre o avistamento da onça nas proximidades da empresa.
A pasta explicou que o Decreto Estadual nº 69.582/2025 trata de procedimentos relacionados ao resgate de fauna silvestre e não se aplica, em princípio, a situações de simples avistamento de animais em vida livre.
Segundo a Semil, os municípios possuem papel importante na orientação da população e na articulação com os órgãos competentes, enquanto o Estado presta apoio técnico e orientações especializadas quando necessário. A secretaria informou ainda que permanece à disposição para eventual apoio técnico ou visita ao local, caso seja solicitada.
Presença da fauna
Embora não haja informações oficiais sobre monitoramento ou manejo do animal após o registro, o episódio evidencia a existência de conexões ambientais capazes de permitir o deslocamento de espécies de grande porte pela região.
Para especialistas e gestores ambientais, a ocorrência reforça a importância da manutenção dos fragmentos florestais e dos corredores ecológicos, fundamentais para a sobrevivência da fauna silvestre e para a conservação da biodiversidade em uma região cada vez mais pressionada pela expansão urbana.