Sorocaba enterra a maior parte do lixo que produz
Com reciclagem de apenas 2%, município ainda concentra sua política de resíduos no envio de material para aterro sanitário
Em Sorocaba, aquilo que chamamos de fim é, na verdade, apenas o começo de uma conta bilionária e silenciosa. Nas engrenagens da cidade, as cerca de 630 toneladas de resíduos descartadas diariamente não desaparecem. Elas se acumulam, ocupam espaço, geram impactos ambientais e, inevitavelmente, cobram seu preço. De um lado está a comodidade do descarte. Do outro, uma bomba-relógio ambiental, econômica e social que o poder público tenta administrar, muitas vezes, simplesmente enterrando o problema.
Quando a análise se amplia para o cenário nacional, a realidade sorocabana revela apenas uma face de uma crise muito maior. Em 2024, o Brasil ultrapassou a marca histórica de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos gerados, consolidando um dos maiores volumes já registrados pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema).
Desse total, mais de 41%, cerca de 28 milhões de toneladas, ainda têm como destino lixões a céu aberto, terrenos baldios ou cursos d’água. Enquanto o país mantém metas de sustentabilidade no papel, o índice nacional de reciclagem permanece em apenas 8,7%. O contraste entre uma legislação moderna e uma prática ainda precária é evidente.
Apesar da proibição dos lixões pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, o problema está longe de ser resolvido. Segundo o professor e engenheiro ambiental Renan Angrizani, os desafios continuam presentes em diferentes frentes. “Enquanto ainda precisamos eliminar os lixões existentes, também é fundamental fortalecer a coleta seletiva municipal”, afirma.
De acordo com ele, grande parte dos materiais recicláveis ainda depende da atuação de catadores informais, que naturalmente priorizam resíduos com maior valor de mercado. “Muitos materiais que poderiam ser reciclados deixam de ser reaproveitados simplesmente porque não existe uma estrutura de coleta capaz de absorvê-los”, explica.
Conta de R$ 1 bilhão
Em Sorocaba, a matemática do desperdício assume proporções expressivas. Nos últimos dez anos, o município consumiu aproximadamente R$ 1 bilhão dos cofres públicos apenas para lidar com os resíduos sólidos gerados pela população.
São cerca de 19 mil toneladas produzidas mensalmente, mais de 630 toneladas por dia. A principal solução adotada pelo município continua sendo o envio da maior parte desse material para um aterro sanitário privado localizado em Iperó, distante 29 quilômetros de Sorocaba.
O índice de reciclagem da cidade, uma das mais desenvolvidas do interior paulista, permanece em apenas 2%. Isso significa que somente dois quilos de cada 100 produzidos retornam ao ciclo produtivo.
Paradoxalmente, exemplos locais demonstram que resultados muito mais expressivos são possíveis. Instituições como a UniFacens alcançaram recentemente 97,2% de desvio de resíduos de aterros sanitários, obtendo a certificação internacional Lixo Zero.
O lixo revela muito sobre uma sociedade. Expõe hábitos de consumo, desigualdades e, sobretudo, aquilo que ela escolhe ignorar.
Mercado da sobrevivência
Na ponta mais vulnerável dessa cadeia estão aqueles que transformam o que muitos chamam de lixo em fonte de renda e dignidade. Em Sorocaba, cooperativas de reciclagem como a Coreso e a Coopereso enfrentam um estrangulamento silencioso. Embora recebam apoio estrutural do poder público, com cessão de barracões e caminhões, a remuneração dos cooperados depende diretamente das oscilações do mercado de recicláveis.
Nos últimos meses, a desvalorização dos materiais foi significativa. O quilo do papelão caiu de R$ 1,50 para R$ 0,30. Já a lata de alumínio teve seu valor reduzido pela metade. Como se não bastasse a queda nos preços, uma recente mudança tributária passou a incidir 3,65% de PIS/Cofins sobre o valor líquido comercializado.
Há uma ironia amarga nesse sistema: os resíduos só possuem valor enquanto despertam interesse econômico. Quando deixam de ser rentáveis, se tornam invisíveis. E, junto deles, também se tornam invisíveis as pessoas que dependem da reciclagem para sobreviver.
O discurso ambiental costuma celebrar indicadores e metas, mas raramente volta o olhar para quem separa, transporta, prensa e comercializa os materiais descartados pela cidade.
Segundo Renan Angrizani, cerca de dois terços dos materiais que chegam à indústria recicladora são recuperados por trabalhadores independentes, que tendem a priorizar os resíduos mais valorizados pelo mercado.
Caso UniFacens
A UniFacens se tornou a primeira universidade da América Latina a conquistar a certificação internacional Lixo Zero ao desviar 97,2% dos resíduos sólidos gerados no campus dos aterros sanitários entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026.
Segundo Ana Paula Leite, o projeto surgiu do compromisso institucional de transformar a gestão de resíduos dentro da universidade. “A meta é de todo mundo. Não adianta ter estrutura se as pessoas não compreenderem a importância do descarte correto”, comenta.
Para alcançar o resultado, a instituição investiu em treinamento, infraestrutura e monitoramento contínuo. Grande parte desse desempenho está ligada à separação adequada dos recicláveis e à compostagem dos resíduos orgânicos. Atualmente, cerca de 80% dos resíduos orgânicos produzidos no campus são reaproveitados em leiras de compostagem juntamente com folhas, galhos e restos de poda, gerando adubo utilizado nos jardins e na horta da universidade.
O líder da equipe de jardinagem, Ademar Felinto da Silva, resume o processo de forma simples: “É a natureza cuidando da natureza”. Segundo ele, folhas recolhidas no campus e restos de alimentos do restaurante são encaminhados para oito baias de compostagem, onde permanecem por cerca de três meses até se transformarem em húmus utilizado novamente nas áreas verdes da instituição.
A compostagem se tornou um dos símbolos do projeto. O sistema utiliza inclusive gongolos composteiros, artrópodes que ajudam a acelerar a decomposição da matéria orgânica. “Antes a gente comprava muita coisa para as plantas. Hoje, a maioria das mudas e da compostagem é produzida aqui mesmo”, conta Ademar.
Além dos benefícios ambientais, o sistema também reduziu significativamente os custos com jardinagem e paisagismo.
Resíduo que retorna
O trabalho desenvolvido pela empresa Céu Azul Resíduos demonstra o potencial da compostagem em uma escala ainda maior. Segundo Felipe Pedrazzi, diretor da empresa e integrante da Associação Brasileira de Compostagem, boa parte dos resíduos orgânicos produzidos diariamente continua sendo tratada como problema, quando poderia retornar ao ciclo produtivo como matéria-prima.
Atualmente, a empresa recebe em Sorocaba cerca de 300 toneladas mensais de resíduos provenientes de podas urbanas. Dependendo da época do ano, esse volume varia entre 200 e 450 toneladas. Em vez de seguir para aterros sanitários, o material é encaminhado para uma unidade de compostagem em Pereiras, cerca de 83 quilômetros distante de Sorocaba, onde é misturado a outros resíduos orgânicos, como restos de alimentos, lodos de frigoríficos e resíduos agroindustriais. Após um processo controlado de decomposição, se transforma em composto orgânico utilizado na agricultura.
Para Felipe, a compostagem representa uma alternativa mais inteligente do que simplesmente enterrar resíduos. “O aterro sanitário imobiliza uma área para o resto da vida. Mistura tudo e não aproveita nada”, afirma. Ainda segundo ele, os benefícios da separação da matéria orgânica se espalham por toda a cadeia. “A partir do momento em que você retira a matéria orgânica do lixo comum, aumenta a taxa de reciclagem, melhora as condições de trabalho dos catadores, fortalece a gestão municipal de resíduos e melhora o desempenho ambiental da cidade.”
O especialista estima que cerca de metade do conteúdo de um saco de lixo doméstico seja composta por resíduos orgânicos passíveis de compostagem. Outros 45% poderiam ser reciclados, restando apenas uma pequena parcela com destinação inevitável aos aterros. “Teoricamente, seria possível dar uma destinação adequada a 95% dos resíduos que produzimos.”
O ciclo continua
Para o professor e engenheiro ambiental Renan Angrizani, os aterros sanitários representam um avanço importante em relação aos lixões, mas estão longe de ser uma solução definitiva. “Eles continuam gerando impactos ambientais e possuem vida útil limitada”, ressalta.
Na avaliação de Renan, o desafio passa pela redução da geração de resíduos, pela ampliação da reciclagem e pelo fortalecimento da educação ambiental. “Caso contrário, continuaremos apenas transferindo o problema de lugar.”