Transferência de Sandro divide opiniões após decisão da Justiça

Vereador Fernando Dini critica remoção do elefante para santuário em Mato Grosso; promotor Jorge Marum defende medida e afirma que mudança é a melhor opção para o animal

Por João Frizo

Entrevista vereador Fernando Dini

A decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) que determinou a transferência do elefante Sandro, morador do Zoológico Municipal Quinzinho de Barros há mais de 40 anos, para o Santuário de Elefantes Brasil, em Chapada dos Guimarães — localizada no Mato Grosso —, continua gerando repercussão em Sorocaba. Durante entrevistas concedidas à rádio Cruzeiro FM 92,3 na manhã de ontem (19), o vereador Fernando Dini (Progressistas) e o promotor de Justiça de Sorocaba, Jorge Alberto de Oliveira Marum, apresentaram posições divergentes sobre o futuro do animal.

Segundo Dini, a transferência representa um risco para a saúde do elefante, que atualmente tem 53 anos de idade e convive com problemas típicos da idade avançada. O vereador destacou que Sandro vive há décadas em Sorocaba, recebe acompanhamento veterinário permanente e alimentação adaptada às suas condições físicas. “Recebemos essa decisão com muita indignação, pensando principalmente no comprometimento da vida do nosso idoso elefante Sandro. Ele está totalmente ambientado aqui e recebe cuidados específicos diariamente”, afirma.

O parlamentar também questiona a logística necessária para transportar o animal por cerca de 1.600 quilômetros até o Mato Grosso. Segundo ele, é preciso considerar os impactos do deslocamento para um elefante idoso, com artrose e outras limitações físicas. “Nós estamos falando de um animal com necessidades especiais e que precisará enfrentar uma longa viagem. É uma preocupação legítima”, afirma.

Prefeitura

Apesar de defender a permanência de Sandro em Sorocaba, Fernando Dini também atribuiu parte da responsabilidade pela situação à Prefeitura. Segundo ele, o município teve tempo suficiente para realizar adequações exigidas pelos órgãos ambientais e melhorar as condições do recinto do elefante.

“A Prefeitura recebeu orientações para realizar adequações no recinto e teve tempo para isso. Se chegamos a essa situação, também existe uma responsabilidade da administração municipal”, afirma.

O vereador defende que a Prefeitura utilize todos os recursos jurídicos cabíveis para tentar suspender a transferência enquanto novas análises judiciais são realizadas. Ele também cobrou investimentos mais amplos no Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, apontando problemas relacionados à manutenção, segurança, limpeza e conservação dos recintos.

Justiça

Já o promotor Jorge Marum, autor da ação civil pública que pede a transferência do elefante, sustenta que a mudança representa a melhor alternativa para o bem-estar do animal. Segundo ele, a decisão foi tomada com base em laudos técnicos e análises realizadas ao longo de vários anos de tramitação judicial.

Marum explica que a principal questão não está relacionada ao tratamento recebido por Sandro, mas sim às limitações do espaço disponível no zoológico. “Eu não questiono o tratamento dado ao Sandro. Tenho certeza de que ele recebe os melhores cuidados possíveis. A questão é o espaço. Um zoológico não é um local adequado para um elefante”, afirma.

Segundo o promotor, a situação ganhou maior atenção após a morte da elefanta Raíssa, companheira de Sandro por muitos anos. Desde então, estudos técnicos passaram a avaliar a possibilidade de transferência para um ambiente considerado mais adequado às necessidades da espécie.

Marum argumenta que o santuário oferece uma área significativamente maior, contato com outros elefantes e condições mais próximas às encontradas no habitat natural da espécie. “Ele merece uma aposentadoria tranquila, em um lugar mais adequado para envelhecer em paz. O fato de estar há 40 anos em um local não significa que essa seja a melhor condição para ele”, afirma.

Transporte

Questionado sobre os riscos da viagem, o promotor afirmou que o tema foi amplamente debatido durante o processo judicial e analisado por especialistas. Segundo ele, os laudos apontaram que a transferência apresenta riscos controlados e inferiores aos benefícios esperados com a mudança.

“Toda essa questão foi discutida no processo. Um perito especializado avaliou a situação e concluiu que, embora exista algum risco, ele é considerado baixo diante dos benefícios que a transferência pode proporcionar ao animal”, afirma.

Marum lembrou ainda que o santuário já realizou operações semelhantes envolvendo elefantes transportados por distâncias até maiores do que a existente entre Sorocaba e Chapada dos Guimarães. Atualmente, segundo ele, uma elefanta proveniente do parque Beto Carrero World também está sendo transferida para o local.

Próximos passos

O acórdão da decisão ainda não foi publicado oficialmente. Após a publicação, o Ministério Público deverá solicitar o cumprimento da sentença. A Prefeitura de Sorocaba informou que pretende recorrer da decisão e estuda as medidas judiciais cabíveis.

Segundo Marum, mesmo com a possibilidade de novos recursos, a expectativa é de que a transferência possa ocorrer em aproximadamente 30 dias após a publicação do acórdão, prazo necessário para planejamento logístico e preparação da equipe responsável pela operação. “É uma estimativa. Tudo dependerá dos recursos apresentados e das decisões que vierem a ser tomadas pela Justiça”, afirma.