Iniciativa de alunos da Unesp Sorocaba mira justiça climática
Eventos climáticos extremos, como o El Niño, podem impactar cidades
Sob a ameaça de eventos climáticos cada vez mais extremos impulsionados pelo fenômeno El Niño, Sorocaba enfrenta um ponto de inflexão em seu planejamento urbano. Foi com o alerta de que chuvas intensas e ondas de calor não atingem a população de forma igual que especialistas, acadêmicos e ativistas se reuniram no "Ciclo de Debate Ferramentas para a Justiça Climática e Cidades Sustentáveis".
O evento, promovido pela Liga de Adaptação às Mudanças Ambientais e Resiliência (Lamar) ligada ao campus da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Sorocaba, colocou em xeque o atual paradigma de infraestrutura do município, exemplificado pelo desmatamento na Marginal Direita, cobrando do poder público a transição imediata de medidas paliativas para políticas reais de proteção aos mais vulneráveis.
El Niño
Eventos climáticos extremos estão cada vez mais comuns, como afirma o professor de sustentabilidade André Cordeiro. "Esse aquecimento acontece algumas vezes a cada 3, 4 anos. O que a gente tem notado é que, com o aquecimento global, esse aquecimento está ficando mais frequente. O que podia acontecer a cada três ou quatro anos, está ocorrendo com uma frequência menor e com uma intensidade maior".
O El Niño é o fenômeno de aquecimento da água do Oceano Pacífico. Com a alta das temperaturas, mais água vira vapor e as nuvens ficam mais densas; elas são empurradas pelo vento em direção à América do Sul, mas se chocam contra a cadeia de montanhas dos Andes, descendo pela América até o fim da cordilheira, quando adentram no continente e chovem, principalmente na região central e sul do continente, explica André.
De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia, "a previsão de conjunto de multi-modelos (North American Multi-Model Ensemble NMME) indica o fortalecimento do El Niño até o verão 2026-2027. Além disso, há 63% de chance de um El Niño muito forte durante o trimestre Novembro-Dezembro-Janeiro, o que poderia classificá-lo como um dos eventos mais fortes nos registros históricos desde 1950."
Justiça climática
Durante o evento, o foco foi dado para a justiça climática, que, de forma simplificada, é a forma assimétrica com que os eventos climáticos atingem as diferentes áreas da cidade e populações. De acordo com alguns pesquisadores presentes, as catástrofes tendem sempre a atingir de forma mais séria as pessoas vulneráveis socioeconomicamente.
Para Sandra Lanças, palestrante no evento e presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil, departamento de São Paulo, Região Metropolitana de Sorocaba, a resposta da cidade às enchentes ainda se baseia em medidas paliativas, ignorando a raiz do problema. Ela relembra o emblemático alagamento do Hospital do Câncer Infantil, na região do Vale do Tatuí, como a prova concreta de quem paga a conta pelas falhas no planejamento.
"Eu lembro que naquela vez que choveu pra caramba e alagou o Hospital do Câncer Infantil. Você vê que afeta tudo. Afeta o atendimento para as crianças. Quer dizer, esse é um caso que exemplifica que quem é mais prejudicado são justamente os mais vulneráveis", relata Sandra.
Diante da inércia em retirar famílias de áreas de risco que podem deslizar ou alagar, Sandra propõe o que chama de "mobilização do cuidado".
A ideia é implementar soluções rápidas e baratas a curto prazo: abrigos preparados em locais estruturados com antecedência para acolher e minimizar o trauma de crianças e famílias desalojadas. Também tendas de alívio térmico, inspiradas em projetos de Campinas, com hidratação gratuita distribuídas em pontos quentes da cidade para proteger idosos e hipertensos durante as ondas de calor extremo.
O Paradigma do Asfalto: O Caso da Marginal Direita
A urgência climática esbarra, no entanto, na concepção de cidade que está sendo construída. Um dos principais alvos das críticas durante o debate foi o avanço das obras na Marginal Direita, que têm reduzido drasticamente as Áreas de Preservação Permanente (APP) do rio Sorocaba.
A faixa de proteção, que pela lei original exigia 120 metros, foi espremida para 50 metros e continua sofrendo pressões para acomodar o fluxo de automóveis, em uma cidade que já soma cerca de 344 mil veículos para 760 mil habitantes, como explica Sandra.
"Eu uso todo o investimento da cidade e passo por cima das leis ambientais e das outras prioridades da sociedade para atender uma parcela da população", critica Sandra, apontando a inversão de prioridades.
O organizador do evento, professor de Engenharia Ambiental William Vichette, alerta para as consequências físicas diretas dessa supressão vegetal. Segundo ele, a impermeabilização das margens cria um ciclo perigoso de enchentes e escassez: "Se a gente tem chuvas e pode ter certeza que com precipitações menores teremos impactos mais intensos, sem essa mata ciliar, a gente vai ter problema de mobilização com pouquíssima chuva (...) e prejudica a infiltração da água para os aquíferos."