Atualização da NR-1 amplia atenção à saúde mental no trabalho

Empresas devem adotar medidas para reduzir riscos psicossociais

Por Vernihu Oswaldo

Principais riscos são situações de estresse e jornadas prolongadas

A partir deste ano, as empresas brasileiras passaram a ter de incluir os riscos psicossociais na gestão de saúde e segurança dos trabalhadores. A mudança ocorre com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entrou em vigor em maio e passou a exigir que fatores como assédio moral, assédio sexual, burnout, bullying e sobrecarga de trabalho sejam considerados na avaliação dos riscos ocupacionais.

Apesar da repercussão recente, a NR-1 não é uma norma nova. Segundo o especialista em segurança e medicina do trabalho José Oswair Drigo, trata-se de uma atualização dentro do conjunto de normas que regulamentam a saúde e a segurança dos trabalhadores.

"A NR-1 é a norma geral que padroniza como funcionam as demais normas regulamentadoras. O que houve foi a inclusão dos riscos psicossociais dentro dos riscos ergonômicos", explica.

Até então, os riscos mais conhecidos eram os físicos, químicos e biológicos. Com a atualização, fatores relacionados ao ambiente organizacional e às relações de trabalho também passam a ser considerados na prevenção de doenças e acidentes.

Entre os principais pontos estão situações de estresse excessivo, jornadas prolongadas, metas incompatíveis com a capacidade dos trabalhadores e casos de assédio. Para Drigo, a atuação das lideranças é fundamental para evitar esses problemas.

"Quem toca a empresa é a liderança. Os gestores precisam saber conversar com os funcionários, criar um ambiente harmonioso e identificar situações que possam prejudicar a saúde emocional dos trabalhadores", afirma.

O psicanalista e diretor empresarial José Milton Castan Junior destaca que a norma surge em um contexto de crescimento dos problemas de saúde mental em todo o país. Segundo ele, o ambiente de trabalho não é o único responsável pelo fenômeno, mas pode funcionar como um importante fator de agravamento.

"A NR-1 não criou o problema. Ela simplesmente pegou um problema que já existia e trouxe para o centro da discussão", diz.

Castan lembra que os índices de ansiedade, depressão e burnout aumentaram significativamente após a pandemia, tanto entre trabalhadores quanto na população em geral. Para ele, fatores como pressão por resultados, excesso de trabalho e ambientes tóxicos podem contribuir para o adoecimento.

"Hoje as empresas já olham para riscos financeiros, jurídicos e operacionais. Agora também precisam olhar para o risco humano", ressalta.

A norma determina que as empresas identifiquem possíveis riscos psicossociais e adotem medidas para reduzi-los. Isso pode incluir treinamentos, canais de denúncia, programas de qualidade de vida, avaliações periódicas do ambiente de trabalho e ações voltadas ao desenvolvimento das lideranças.

Segundo Castan, indicadores como afastamentos por saúde, absenteísmo e rotatividade de funcionários podem ajudar a identificar problemas antes que eles se agravem.

"As empresas precisam entender que um ambiente saudável não é apenas uma questão de bem-estar. Ele impacta diretamente os resultados do negócio", afirma.

Para os especialistas, a principal mudança promovida pela atualização da NR-1 é o reconhecimento de que a saúde mental também faz parte da segurança do trabalho. A expectativa é que a norma incentive empresas a desenvolver ambientes mais saudáveis e atentos às necessidades dos trabalhadores.