Dos trilhos da Sorocabana às redes sociais
Ao longo de 123 anos, Cruzeiro do Sul atravessa mudanças tecnológicas, institucionais e editoriais sem abrir mão do compromisso que marcou sua primeira edição
O jornal Cruzeiro do Sul nasceu deixando clara, desde sua primeira edição, sua vocação republicana. Como ocorreu com diversos veículos da imprensa brasileira, que reuniam nomes importantes da literatura e do pensamento nacional, o Cruzeiro iniciou sua trajetória sob a liderança de figuras de destaque, como o poeta e escritor Francisco Vera Cruz, os irmãos Almeida — Levi, Gamaliel e Aquiles — e seu fundador, Joaquim Firmiano de Camargo Pires, o Nhô Quim.
O crescimento foi rápido. Em 1914, o jornal já contava com 17 colaboradores, incluindo personalidades ilustres da cidade, como Genésio Machado e Achilles de Almeida. As primeiras edições circulavam não apenas em Sorocaba, mas também em diversas cidades da região, transportadas pelos trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana. O jornalismo ainda era transmitido de pai para filho, como tantos outros ofícios da época.
Desde os primeiros anos, o caderno de esportes chamava a atenção dos leitores. A diferença estava nas modalidades em destaque. Além do onipresente futebol, a esgrima também ocupava espaço nas páginas do jornal.
Ao longo das décadas, o Cruzeiro do Sul atravessou diferentes gestões e reuniu proprietários, editores e repórteres que contribuíram para consolidar sua reconhecida qualidade editorial.
Em 1950, o historiador Aluísio de Almeida registrou um elogio que se tornaria um retrato da publicação naquele período: “O jornal era de quatro páginas grandes, muito bem impresso, cheio de notícias da cidade e dos lugares vizinhos, da Capital e de Santos (por correspondentes especiais) e de todo o mundo por transcrição de telegramas. Revisão perfeita. Português de gente limpa”.
Uma década antes, em 1940, ocorreu um marco decisivo em sua trajetória. A Rádio Clube de Sorocaba adquiriu o jornal e promoveu a histórica mudança para a esquina das ruas São Bento e Santa Clara. Como diria a canção, alguma coisa aconteceu no coração daquele jornal. O novo endereço trouxe equipamentos modernos e inaugurou um ciclo de crescimento sem volta.
A grande transformação institucional começou a ser desenhada nos anos 1960, impulsionada por um propósito essencialmente social. Paulo Pence Pereira, então presidente da Loja Maçônica Perseverança III (PIII), buscava uma solução definitiva para garantir recursos às entidades beneficentes mantidas pela instituição. O objetivo era criar uma fonte de receita sólida e permanente, capaz de sustentar as ações assistenciais sem depender exclusivamente de eventos e arrecadações pontuais. A missão de encontrar esse caminho foi confiada a Laelso Rodrigues.
Com visão estratégica, ele identificou uma oportunidade dentro da própria Perseverança III, por intermédio de Hélio da Silva Freitas. Naquele momento, a família Freitas estudava negociar seus ativos de comunicação: a rádio PRD-7 e a Editora Cruzeiro do Sul S/A. Após uma análise detalhada das operações, Laelso apresentou à diretoria da PIII um relatório recomendando a aquisição do jornal. A proposta foi aprovada.
Um grupo de 21 maçons uniu esforços para adquirir as ações da família Freitas, assumindo o controle da editora e lançando as bases do modelo filantrópico que sustenta o jornal até os dias atuais. Sob essa nova estrutura de gestão — que daria origem à Fundação Ubaldino do Amaral (FUA) —, o Cruzeiro do Sul viveu uma fase de forte expansão, se consolidando entre os mais importantes jornais do interior brasileiro. O crescimento exigiu novos espaços e novos investimentos.
Pensando no futuro, a Fundação adquiriu, em 1980, uma ampla área no Alto da Boa Vista. Já em 1997, o jornal passaria por outra mudança histórica. Desta vez, sem caminhões de mudança ou novos prédios. A nova sede seria digital. Nascia o portal Cruzeiro do Sul. O tempo confirmou a força desse modelo institucional.
No centenário do jornal, em 2003, a Fundação Ubaldino do Amaral empregava mais de 400 pessoas. Somente a redação reunia 62 profissionais, distribuídos entre funções que permanecem até hoje e outras que desapareceram com a evolução tecnológica.
Na edição comemorativa dos 100 anos, a essência do jornal foi sintetizada em um de seus textos mais marcantes: “Sonhos, paixões, intrigas. Finais felizes ou não, eternos recomeços, histórias sem fim. Não, não é a próxima novela das oito. É de nossas vidas — a vida de todo o mundo narrada por gente como a gente. A vida sem retoques, impressa às pressas. A divina comédia do cotidiano, eternizada entre anúncios de xarope, editais e sonetos, nas páginas de um jornal que completa um século de vida”.
Com os ideais preservados, o mundo continuou mudando. E veio a maior revolução tecnológica da história da comunicação. As máquinas de escrever deram lugar aos computadores. As notícias que antes chegavam por telégrafo e seguiam pelos trilhos da Sorocabana passaram a ser transmitidas em tempo real, primeiro pelo portal, depois pelas redes sociais e plataformas digitais.
A velocidade mudou. Os meios mudaram. Mas a essência permanece a mesma. Levar ao leitor a informação mais completa, confiável e relevante possível.