Furtos em condomínios expõem falhas na segurança e no controle de acesso

Especialistas apontam que tecnologia, regras rígidas e participação dos moradores são essenciais

Por Caroline Mendes

Reconhecimento facial é um dos dispositivos utilizados nas portarias para identificar moradores e visitantes

Muros altos, cercas elétricas, portarias e câmeras de monitoramento costumam transmitir sensação de segurança para quem vive em condomínios residenciais. No entanto, a realidade mostra que esses empreendimentos continuam sendo alvo de furtos e invasões, muitas vezes facilitados por falhas no controle de acesso ou pelo descumprimento de regras básicas de segurança.

Em Sorocaba, a Polícia Civil registrou 44 ocorrências em condomínios residenciais ao longo de 2025. Segundo levantamento do Departamento de Polícia Judiciária do Interior (Deinter-7), o número de casos no primeiro quadrimestre de 2026 foi inferior ao registrado no mesmo período do ano anterior. A Polícia Civil, no entanto, não informou à reportagem o quantidade de ocorrências contabilizadas neste ano, mas afirmando que houve redução. Apesar da queda, especialistas alertam que os riscos permanecem e exigem atenção constante.

De acordo com a Polícia Civil, não existe atualmente uma região da cidade que concentre de forma significativa esse tipo de crime. O modo de atuação dos criminosos, porém, varia conforme as características dos empreendimentos.

Nos condomínios horizontais, os registros apontam invasões por meio da transposição de muros e cercas. Os criminosos costumam furtar objetos deixados em áreas externas, especialmente bicicletas e capacetes armazenados em garagens. Também há ocorrências envolvendo prestadores de serviço que circulam pelos empreendimentos.

Nos prédios residenciais, uma prática comum é a entrada de suspeitos durante a abertura ou fechamento dos portões de garagem. Em outros casos, os invasores acompanham moradores pela portaria principal e se passam por residentes para acessar áreas internas.

Em maio, duas jovens de 18 anos foram presas pelo furto de joias em um apartamento de alto padrão no centro da cidade, ocorrido em março. Elas entraram no condomínio dizendo que eram parentes da moradora, que estava viajando.

A Polícia Civil destaca que o controle rigoroso de entrada e saída de pessoas continua sendo uma das principais ferramentas de prevenção. O investimento em sistemas de monitoramento também é considerado fundamental para dificultar a ação criminosa e auxiliar nas investigações.

Segurança em camadas

Para o supervisor operacional do Grupo Golphe, Marco Antonio Terra Santos, um dos erros mais comuns é acreditar que uma única tecnologia será capaz de resolver todos os problemas de segurança. “A segurança condominial é feita em camadas. O reconhecimento facial, por exemplo, é uma camada importante no combate à intrusão, desde que seja um equipamento com certificação e de alta qualidade, devido à alta taxa de acurácia, à rapidez da liberação e ao fato de ser anticlonagem”, afirma.

Segundo ele, os sistemas mais eficientes atualmente utilizam dupla checagem de acesso. Nos veículos, a combinação de leitor facial e TAG eletrônica tem sido adotada por diversos empreendimentos. Para pedestres, o especialista recomenda o uso de clausuras inteligentes, equipadas com câmeras analíticas capazes de identificar quantas pessoas estão no local antes da liberação do segundo portão.

Apesar do avanço tecnológico, o supervisor operacional ressalta que equipamentos sozinhos não garantem proteção. “O principal erro operacional em condomínios é a abertura do portão baseada apenas no conhecimento pessoal do morador ou do veículo. Esse erro é o que mais coloca o condomínio em risco”, alerta.

Tecnologia acessível

A adoção do reconhecimento facial tem crescido nos condomínios da região. Para Stephan August, diretor comercial do Grupo Samuray, a tecnologia se tornou mais acessível e oferece vantagens em relação a métodos tradicionais.”Hoje existe uma ferramenta muito útil, que é o controle de acesso com reconhecimento facial. O rosto da pessoa é uma identificação intransferível. Diferentemente de cartões, senhas ou TAGs, que podem ser compartilhados ou utilizados indevidamente”, explica.

Segundo ele, a atualização tecnológica tem sido uma das principais demandas dos condomínios nos últimos anos. “Muitos condomínios consolidados ainda utilizam tecnologias ultrapassadas, que têm custo de manutenção elevado e menor efetividade. Hoje vemos uma busca muito grande por modernização, especialmente com sistemas que utilizam inteligência artificial”, afirma.

August observa que câmeras inteligentes passaram a desempenhar papel importante na prevenção de invasões. “Elas ajudam na investigação, mas também possuem efeito inibitório. Quem pretende praticar um crime normalmente procura o local onde terá menor risco de ser identificado”, observa.

Elo mais frágil

Embora a tecnologia tenha avançado, especialistas concordam que o comportamento dos moradores continua sendo um dos principais fatores de vulnerabilidade. “Não só compromete como o mau comportamento é o maior facilitador para a ação de bandidos, principalmente os oportunistas”, afirma Marco Antonio Terra Santos.

Entre as atitudes consideradas perigosas estão segurar portões para desconhecidos, liberar visitantes sem confirmação adequada, permitir acesso de pessoas não cadastradas e pressionar a equipe da portaria para acelerar procedimentos.

Stephan August considera que o chamado “jeitinho brasileiro” ainda é um desafio constante. “Não adianta ter o melhor sistema de controle de acesso, vigilância armada e rondas ostensivas se o morador decide burlar tudo isso. Quando alguém diz ’pode liberar porque eu conheço’ ou ’quem chegar para minha festa pode entrar sem cadastro’, está colocando toda a comunidade em risco”, afirma.

Golpes

Outra preocupação crescente são os golpes praticados por pessoas que se apresentam como parentes, prestadores de serviço ou representantes de empresas conhecidas.

Para Terra Santos, o combate a esse tipo de fraude exige treinamento constante das equipes de portaria. “O porteiro deve ser orientado a não aceitar liberações por números de telefone ou mensagens desconhecidas, mesmo que a voz pareça familiar. Também é importante confirmar ordens de serviço junto às concessionárias e verificar a identidade de oficiais de Justiça ou técnicos que precisem acessar o condomínio”, explica.

August concorda e destaca que muitos casos decorrem de falhas nos procedimentos. “O falso parente e o falso prestador de serviço normalmente conseguem acesso porque houve uma quebra de protocolo. O controle de acesso precisa ser desenhado por profissionais especializados e seguido rigorosamente”, afirma.

Responsabilidade

Além dos prejuízos materiais, furtos em condomínios podem gerar disputas judiciais. O advogado Murilo Raszl Cortez explica que a responsabilização do condomínio ou de empresas terceirizadas depende das circunstâncias de cada caso. “Existe uma legítima expectativa dos condôminos em relação aos serviços prestados pelo condomínio. Se uma falha no controle de acesso resultar em dano, é possível cogitar responsabilização, mas são os detalhes do caso concreto que vão determinar isso”, afirma.

Segundo ele, quando existe uma empresa terceirizada responsável pela portaria ou segurança, a análise jurídica pode envolver também as regras do Código de Defesa do Consumidor. “Pode haver uma maior facilidade em alcançar a responsabilização da terceirizada por conta da relação de consumo estabelecida”, explica.

Cortez destaca ainda que os próprios moradores podem responder civilmente quando desrespeitam regras de segurança e contribuem para a ocorrência de um crime. “Os moradores devem seguir as regras previstas pelo condomínio. Eventualmente, quem descumpre essas normas e dá causa a um dano pode ser responsabilizado na esfera civil”, avisa o advogado.

Preservar provas é importante para esclarecimento da polícia

Após um furto ou invasão a moradias em condomínios, a recomendação é agir rapidamente para preservar provas, a fim de auxiliar o trabalho policial. “É importante registrar boletim de ocorrência, preservar imagens, registros de acesso, dados biométricos e documentos internos. Essas informações são fundamentais para esclarecer os fatos e também para demonstrar que o condomínio adotou as medidas adequadas”, orienta o advogado Murilo Raszl Cortez.

Para ele, manter um histórico detalhado das ocorrências também ajuda na proteção jurídica dos empreendimentos.

Os especialistas em segurança consideram que, de maneira geral, não existe solução única. “A segurança é um conjunto de medidas. Não adianta ter os melhores equipamentos se os procedimentos não são seguidos”, diz Marco Antonio Terra Santos, supervisor operacional do Grupo Golphe.

Na avaliação de Stephan August, diretor comercial do Grupo Samuray, os condomínios têm demonstrado maior preocupação tanto com a modernização dos sistemas quanto com a escolha das empresas responsáveis pela proteção dos moradores. “São caminhos importantes para reduzir vulnerabilidades e evitar problemas futuros”, conclui. (C.M.)