Entre o vinho, o bacalhau e a solidariedade: a trajetória de Olivardo Saqui em São Roque
Olivardo Saqui gosta de dizer que nunca esqueceu de onde veio. E talvez seja justamente por isso que, mesmo diante do movimento intenso da Quinta do Olivardo, em São Roque, Região Metropolitana de Sorocaba, ele ainda faça questão de contar a própria história começando pelo período mais difícil da vida. “Desempregado, depressão, com três crianças”, resume.
A conversa com o Cruzeiro do Sul se deu durante um encontro que marcou a renovação da parceria entre a Quinta do Olivardo e o Serviço de Obras Sociais (SOS), entidade filantrópica responsável pelo evento Bacalhau Amigo. Entre lembranças da infância, histórias sobre o início do restaurante e falas sobre solidariedade, Olivardo relembrou o caminho que percorreu até transformar uma pequena produção de vinho em um complexo turístico e gastronômico que hoje recebe milhares de visitantes nos fins de semana.
Filho de um trabalhador rural, ele nasceu no Paraná e chegou ainda criança a São Roque depois da geada de 1975, que destruiu plantações de café e deixou seu pai sem trabalho. “Meu pai ficou desempregado naquela geada forte que deu lá [se referindo ao Paraná]. Ele trabalhava com café”, conta. “Meu tio estava aqui em São Roque e falou: ‘Vem para cá, que aqui está melhor’”.
Na cidade, o pai conseguiu emprego como caseiro. Olivardo começou cedo a trabalhar para ajudar a família. Estudou até a sétima série e depois passou anos empregado em uma vinícola da região, até que a empresa fechou as portas.
Foi nesse período que enfrentou a depressão e o desemprego. Segundo ele, a mudança começou em uma manhã comum, assistindo televisão. “Ela dizia exatamente essas palavras: ‘Se você tem um sonho, tem a obrigação de tentar’”, lembra, citando uma mensagem exibida no programa da apresentadora Ana Maria Braga.
A frase foi suficiente para tomar uma decisão considerada arriscada até por ele próprio. Vendeu a única casa e o único carro que possuía e comprou um terreno de 16 mil metros quadrados em São Roque para começar a produzir vinho e suco de uva.
O restaurante surgiu depois, quase por insistência dos próprios visitantes. “Eles chegavam aqui e perguntavam: ‘Mas, Olivardo, só vinho? Só suco de uva? Nada para comer?’”, recorda. Casado com uma portuguesa, encontrou dentro de casa o caminho para a gastronomia. “Com um caderninho de receitas que trouxeram de Portugal, foi ela e minha sogra colocando em prática um bolinho de bacalhau, uma alheira e, finalmente, o bacalhau.”
O que começou de forma simples acabou se transformando em referência de gastronomia portuguesa na região. Hoje, segundo Olivardo, a Quinta do Olivardo conta com mais de 380 colaboradores e recebe mais de cinco mil pessoas entre sábado e domingo.
Apesar do crescimento do negócio, ele afirma que nunca perdeu de vista a importância de ajudar outras pessoas. Foi esse sentimento que aproximou a Quinta do Olivardo do SOS em 2018. “Deus foi tão bom comigo, de ter mostrado esse caminho e me tirado de um momento tão difícil, que eu gosto de retribuir tudo isso que aconteceu na minha vida”, afirma.
Além do Bacalhau Amigo — que neste ano chega à 26ª edição em 18 de julho —, a parceria entre a empresa e a entidade também envolve outras ações beneficentes ao longo do ano. Presidente do SOS, João Carlos Wey diz que a trajetória do empresário ajuda a fortalecer o trabalho social desenvolvido pela instituição. “Só de ouvir a história do Olivardo a gente já se emociona”, acrescenta. “O SOS tenta fazer com que pessoas em situação de desnível social também se sintam vencedoras.”
Ao final da entrevista ao Cruzeiro do Sul, Olivardo voltou ao tema que atravessou toda a conversa: acreditar mesmo nos períodos mais difíceis. “Se você tem um sonho, você tem que acreditar.” (Da Redação)