Sessão da Câmara tem confusão e manifestações

Presidente do Legislativo pediu que GCM retirasse um cidadão da galeria

Por Vernihu Oswaldo

Guardas municipais atuam atendendo a um pedido da presidência do Legislativo

A palavra “canalha” norteou toda a sessão da Câmara dos Vereadores de Sorocaba, ontem (26). Uma homenagem à vereadora Iara Bernardi (PT), feita por mulheres, desencadeou um momento de grande tensão que terminou com a determinação da retirada de um manifestante pelo presidente da Casa, vereador Luis Santos (Republicanos). Esta é a segunda vez na história da Câmara em que um manifestante é retirado à força.

A confusão começou após um grupo de mulheres realizar uma manifestação que incluiu a entrega de flores para a vereadora Iara Bernardi, que na semana passada foi chamada de “canalha” pela vereadora Tatiane Costa (PL). Após a homenagem, algumas palavras de ordem foram gritadas pelos manifestantes, momento em que um homem se dirigiu ao presidente da Câmara com as palavras “canalha” e “machão”.

O parlamentar ordenou, então, que a Guarda Civil Municipal (GCM) retirasse o homem. A entrada dos agentes da GCM trouxe um momento de tensão; a ordem gerou protestos do público e de alguns vereadores. O episódio envolvendo as vereadoras Tatiane e Iara foi relembrado, com manifestantes questionando o motivo de a vereadora não ter sido tratada da mesma forma, já que se tratava do mesmo insulto.

O homem retirado machucou a mão durante o confronto com os GCMs, deixando um rastro de sangue no chão da Câmara. Ele passou por atendimento no ambulatório do local e, de acordo com informações, recebeu pontos no ferimento posteriormente. Durante a confusão, uma porta da área reservada à imprensa da Casa foi danificada e retirada do local.

Durante a confusão, uma advogada também foi contida pela GCM. A contenção deixou marcas em seus braços. A Ordem dos Advogados do Brasil — OAB — Sorocaba se manifestou em nota sobre o caso:

“Em relação à agressão sofrida pela advogada Margarete Walter Pereira, durante sessão ordinária na Câmara Municipal de Sorocaba, na manhã desta terça-feira (26/05), a presidência da OAB Sorocaba informa que acompanha o caso e apoia a advogada em todos os procedimentos feitos após o ocorrido. A advogada está a caminho da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), acompanhada pela vice-presidente da OAB Sorocaba, Adriana Mazzarino, e pela presidente da Comissão de Violência de Gênero, Nayara Thibes, para registro da ocorrência, o que também foi feito por guardas civis municipais na Câmara Municipal”.

Em entrevista após o ocorrido, Margarete Walter Pereira relatou que tentava acalmar o manifestante quando foi abordada de forma violenta por uma agente. “Estava tentando conter o cara lá. Falei para ele que, do jeito que estava, era melhor sair. Ela pegou o meu braço como se eu fosse uma presa, ficou todo vermelho. O que me admira e me deixa decepcionada é uma mulher fazer isso com outra mulher”, desabafou a advogada, que registrou o caso na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM).

A Prefeitura de Sorocaba afirmou em nota que “a GCM atendeu à solicitação da presidência da Câmara Municipal, para cumprir determinação legal de manutenção da ordem, para retirada de um homem do plenário, que iniciou tumulto e perturbou o andamento da sessão. Ele resistiu à ordem dos guardas, segurando na estrutura de porta de acesso restrito. Por sua vez, uma mulher que o acompanhava interveio na tentativa de impedir os guardas e foi contida por uma GCM feminina. Ambos foram levados para o ambiente externo e alegaram que foram agredidos pelos guardas, que negaram a acusação. Os guardas compareceram ao Plantão da Polícia Civil, onde foi registrado boletim de ocorrência por desacato, resistência e danos ao patrimônio. A GCM acompanha o caso.”

Caso raro na história da Câmara

Antes da ordem proferida ontem pelo presidente da Câmara, apenas uma outra vez uma pessoa havia sido retirada do local, de acordo com a própria Casa. Na ocasião, um homem teria sido retirado após ficar apenas em roupas íntimas para protestar contra o aumento dos salários dos vereadores.

Troca de acusações entre vereadoras

A confusão que deu início ao problema foi a troca de farpas entre Tatiane e Iara. Na sessão do dia 19 de maio, a vereadora Tatiane Costa subiu à tribuna e afirmou: “Os canalhas envelhecem também e continuam destruindo a nossa sociedade, como é o caso da vereadora Iara”. O presidente da sessão repreendeu a vereadora.

Ao comentar o episódio, Iara Bernardi criticou a postura do comando da Casa: “Defendi a vida inteira a presença feminina nos espaços de poder. Recebi muitas agressões, eu não vou nem repetir os nomes. Parece que o presidente da Câmara não toma nenhuma providência efetiva com relação a isso”. Ela informou que registrará um Boletim de Ocorrência, pedirá indenização e acionará a Comissão de Ética da Câmara.

Em contrapartida, Tatiane Costa declarou que a emenda serviu apenas para prejudicar seu projeto e manteve o teor de suas declarações: “Chamei a vereadora de canalha e não retrocedo na minha fala, porque para mim quem defende aborto e invasão de propriedade é esse tipo de gente. Ela já me chamou de estropício também, a diferença é que eu não sou vitimista”.

A vereadora Jussara Fernandes (Republicanos), presidente da Comissão dos Direitos da Mulher da Câmara, afirmou: “É um grande desafio. Porque a comissão é composta por três vereadoras: eu, a Iara e a Tatiane, que estão envolvidas nessa discussão que aconteceu no início da semana passada e em que houve realmente ali o xingamento, a utilização do termo canalha.”

Sobre a agressão sofrida pela advogada, Jussara disse: “Nenhuma mulher pode ser contida dessa maneira. Agora, dentro de uma Casa de Leis é pior ainda a situação. Seja pela comissão ou pelo meu mandato, eu vou acompanhar de perto o decorrer desses dois casos.”

Após a confusão, a sessão foi retomada para votação dos projetos.