Marginal Itanguá divide opiniões entre mobilidade e impacto ambiental

Por Caroline Mendes

Arte produzida com dados fornecidos pelo projeto da Prefeitura de Sorocaba

A implantação da segunda fase da Marginal do Córrego Itanguá, em Sorocaba, voltou ao centro do debate público após denúncias de impactos ambientais e discussões na Câmara Municipal. A obra, executada pela Prefeitura de Sorocaba com financiamento da Corporação Andina de Fomento (CAF), integra o programa municipal “Sorocaba Tem Pressa” e pretende criar um corredor viário entre as zonas oeste, norte e central.

Além das discussões ambientais, o secretário de Meio Ambiente, Antônio Genezzi Lopes, deve participar da próxima sessão da Câmara Municipal, na terça-feira (26), para prestar esclarecimentos sobre a intervenção e os questionamentos envolvendo supressão vegetal e supostos impactos à fauna local.

Do que se trata

A chamada Marginal Itanguá II é a continuação do primeiro trecho entregue em agosto de 2023, entre as avenidas Adão Pereira de Camargo e Américo Figueiredo. Agora, o novo trecho deverá ligar a Avenida Miguel Patrício de Moraes à Avenida Luís Mendes de Almeida, acompanhando o traçado do córrego Itanguá.

Segundo a Prefeitura, o novo viário terá aproximadamente quatro quilômetros de extensão e funcionará como uma rota alternativa para desafogar principalmente a Avenida General Carneiro, uma das mais movimentadas da cidade.

A proposta é criar um corredor com menos cruzamentos e semáforos, permitindo deslocamentos mais rápidos entre bairros das zonas oeste, norte e região central. O projeto também prevê ciclovias, iluminação em LED, drenagem, passeios acessíveis e a implantação de um parque linear às margens do córrego.

De acordo com a administração municipal, cerca de 70 mil moradores devem ser beneficiados diretamente pela obra.

Prefeitura se posiciona

A Secretaria de Parcerias (Separ) afirma que a obra segue todas as exigências ambientais previstas no processo de licenciamento junto à Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

Segundo a pasta, o projeto contempla compensações ambientais, recuperação de áreas degradadas e implantação do Parque Linear Itanguá. “A obra de implantação do Trecho 2 da Marginal Itanguá e do Parque Linear Itanguá é executada em conformidade com todas as exigências e premissas estabelecidas no processo de licenciamento ambiental junto à Cetesb”, informou a prefeitura.

Com relação as denúncias envolvendo morte de animais, a administração afirma que “não há confirmação de animais mortos devido às obras. Inclusive, a Seção de Controle de Zoonoses enviou equipe até o local, mas não encontrou vestígio desses animais”, diz a prefeitura.

Ainda segundo a Separ, antes das intervenções são realizados levantamentos da fauna local e ações de afugentamento dos animais.

O que diz a Cetesb

A Cetesb informa que notificará o município para apresentação de relatório atualizado comprovando o cumprimento das medidas ambientais previstas no licenciamento e afirmou que a intervenção possui autorização ambiental vigente prevendo ações específicas de proteção à fauna, incluindo passagens para animais.

Entre as medidas estão a implantação de passagem seca sob a avenida Ângelo Pupin e uma passagem aérea sobre a rua Carlos David Oetterer de Almeida para permitir a circulação da fauna entre fragmentos florestais remanescentes.

A companhia também informa que realiza inspeções periódicas no local e que, durante vistoria feita na quarta-feira (20), não foram encontradas irregularidades nem registros de animais mortos.

Divergências

Para o professor e especialista em logística e mobilidade urbana, Dr. José Itamar Monteiro, a obra pode trazer ganhos importantes para a circulação viária da cidade.

Segundo ele, a Marginal Itanguá tende a reduzir gargalos históricos e ampliar a conectividade entre regiões da cidade, principalmente para o transporte urbano e logístico. “O impacto deve ser analisado não apenas pela ampliação viária, mas também pela capacidade de integração urbana, fluidez logística e planejamento sustentável”, afirma.

Ele destaca, porém, que obras viárias sozinhas não resolvem os problemas de mobilidade. “A solução definitiva para congestionamentos não depende apenas da abertura de novas vias, mas também de políticas integradas de transporte público, planejamento urbano e gestão inteligente do tráfego.”

Já o professor de arquitetura e urbanismo da Universidade de Sorocaba (Uniso), Tiago da Guia, faz uma avaliação mais crítica do modelo adotado. Segundo ele, ampliar vias sem fortalecer o transporte coletivo e alternativas sustentáveis mantém um modelo ultrapassado de mobilidade urbana. “Novas vias não solucionam a mobilidade urbana. Obras viárias devem ser complementares dentro de um planejamento intermodal”, declara.

O urbanista também alerta para possíveis impactos ambientais e urbanos. “A alteração da vegetação modifica a relação de fauna e flora, reduz áreas permeáveis e pode gerar impactos diretos no córrego e na qualidade ambiental da região”, ressalta.

Munícipes argumentam

Entre moradores e comerciantes da região, as opiniões se dividem. O comerciante Carlos Roberto afirma que ainda não conhece detalhes do projeto. “Eu não tive oportunidade de ver o projeto ainda. Se tivesse uma placa explicando como vai ficar, ajudaria”, comenta.

Já o auxiliar de açougue Claudio dos Santos acredita que a nova via pode melhorar o acesso entre regiões da cidade. “Vai ficar bom o acesso para muitas áreas”, diz.

A moradora Talita Aparecida de Almeida demonstra preocupação com os impactos ambientais da intervenção. “Eu não sou contra fazer a avenida. Sou contra o que fizeram com o ambiente. Tiraram muitas árvores e os macaquinhos perderam espaço”, afirma.

As diferentes opiniões refletem o principal impasse em torno da obra: enquanto parte da população vê na Marginal Itanguá uma alternativa para melhorar o trânsito e integrar regiões da cidade, moradores, especialistas e ambientalistas alertam para os impactos ambientais e defendem maior transparência, fiscalização e planejamento urbano aliado à preservação ambiental.