Beleza com segurança

Alta na procura por procedimentos estéticos e tratamentos para emagrecimento acende alerta para riscos de práticas irregulares, uso de produtos sem registro e atuação de profissionais sem habilitação

Por Caroline Mendes

Medicamentos conhecidos como "canetas emagrecedoras" exigem acompanhamento profissional e uso responsável para evitar riscos à saúde

A busca por procedimentos estéticos e tratamentos para emagrecimento nunca esteve tão em alta. Aplicações de toxina botulínica, preenchimentos faciais, bioestimuladores de colágeno, lipoaspiração e o uso das chamadas “canetas emagrecedoras” ganharam espaço nas redes sociais, em campanhas publicitárias e no cotidiano de clínicas de estética em todo o País. Ao mesmo tempo em que cresce o interesse por resultados rápidos e aparência mais jovem, aumentam também os alertas de especialistas e órgãos reguladores sobre os riscos envolvidos quando esses procedimentos são realizados sem segurança, acompanhamento adequado ou com produtos irregulares.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mantém uma campanha nacional chamada “Estética com Segurança”, que reúne orientações para pacientes e profissionais sobre os cuidados necessários antes de qualquer intervenção estética. A agência destaca que, apesar de muitos procedimentos serem considerados minimamente invasivos, eles envolvem diretamente a saúde do paciente e podem provocar complicações graves quando realizados de maneira inadequada.

Entre as principais recomendações da Anvisa está a verificação da regularidade dos produtos utilizados. Segundo o órgão, medicamentos, preenchedores, toxinas botulínicas, fios, equipamentos e cosméticos utilizados em clínicas estéticas precisam ter autorização para comercialização no Brasil. Produtos clandestinos, importados irregularmente ou vendidos sem registro representam um dos principais riscos para os pacientes.

A agência orienta que o consumidor peça para verificar a embalagem, o número de registro e a procedência dos produtos utilizados. Também recomenda atenção a itens vendidos exclusivamente pelas redes sociais, sem identificação clara de fabricante ou distribuidor. A consulta sobre a regularidade pode ser feita diretamente no portal da Anvisa.

Além dos produtos, o local do procedimento também exige atenção. A Anvisa reforça que clínicas e consultórios precisam possuir licença sanitária, condições adequadas de higiene e estrutura mínima de segurança para atendimento de possíveis intercorrências. Procedimentos realizados em quartos improvisados, residências ou locais sem fiscalização podem aumentar significativamente os riscos de infecção e complicações.

Procedimentos faciais e corporais

O cirurgião plástico Alexandre Kataoka afirma que houve uma mudança no perfil dos pacientes nos últimos anos. Segundo ele, cresce a procura por procedimentos capazes de proporcionar rejuvenescimento facial e melhora do contorno corporal de forma mais natural e com recuperação mais rápida. “Entre os procedimentos não cirúrgicos, destacam-se a toxina botulínica, os preenchimentos faciais, os bioestimuladores de colágeno e as tecnologias voltadas para flacidez e qualidade da pele. Já entre as cirurgias, lipoaspiração, abdominoplastia, mamoplastia e blefaroplastia continuam entre as mais realizadas”, explica.

De acordo com o médico, também há aumento da procura por procedimentos combinados, associando cirurgias plásticas e tratamentos minimamente invasivos para potencializar resultados.

O especialista, porém, alerta que a popularização desses procedimentos trouxe um crescimento paralelo de práticas irregulares, muitas vezes impulsionadas pela divulgação de resultados rápidos nas redes sociais e pela oferta de preços baixos. “Os riscos são extremamente sérios e podem comprometer o resultado estético e a saúde do paciente. Há possibilidade de infecções, deformidades, necroses, embolias e até perda de tecidos”, afirma.

Segundo Kataoka, uma das maiores preocupações é a atuação de pessoas sem formação adequada ou sem conhecimento anatômico suficiente para lidar com possíveis complicações. “Muitos desses profissionais atuam sem estrutura mínima de segurança e sem capacidade de reconhecer ou tratar intercorrências médicas”, diz.

Complicações

O médico relata que complicações decorrentes de procedimentos mal executados são cada vez mais frequentes nos consultórios especializados e hospitais.

Entre os problemas mais comuns estão infecções, assimetrias faciais, irregularidades no contorno corporal após lipoaspiração, cicatrizes inadequadas e alterações funcionais decorrentes de aplicações incorretas de toxina botulínica e preenchimentos faciais. “Também recebemos pacientes com complicações causadas por substâncias inadequadas ou permanentes, como PMMA e silicone industrial”, afirma.

Esses materiais podem provocar inflamações crônicas, endurecimento dos tecidos, migração do produto para outras regiões do corpo, deformidades severas e até necrose da pele. Em casos mais graves, os pacientes precisam passar por cirurgias reparadoras complexas e tratamentos prolongados.

Segundo especialistas, outro problema recorrente é a falsa sensação de segurança criada por procedimentos considerados “simples”. Embora muitos tratamentos sejam rápidos e feitos em consultório, qualquer intervenção que envolva aplicação de substâncias, perfuração da pele ou uso de medicamentos exige avaliação individualizada e acompanhamento adequado.

Atuação regulamentada

O Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) esclarece que enfermeiros habilitados podem atuar na área estética, desde que cumpram as exigências previstas pelo sistema Cofen/Corens.

Segundo o conselho, os enfermeiros estetas podem realizar diversos procedimentos injetáveis e não injetáveis previstos nas resoluções vigentes, incluindo aplicação de toxina botulínica, preenchimentos dérmicos, bioestimuladores de colágeno e aplicação de substâncias contendo vitaminas e aminoácidos.

Para atuar na área, o profissional deve possuir especialização reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC), com carga mínima de 100 horas práticas supervisionadas, além do registro da especialidade junto ao conselho profissional.

O Coren-SP destaca que a segurança do paciente depende de uma série de cuidados que vão desde a escolha dos produtos até o acompanhamento após o procedimento. “Os produtos precisam possuir registro na Anvisa e rastreabilidade. Além disso, é necessário realizar consulta adequada, avaliação clínica, acompanhamento pós-procedimento e seguir todos os protocolos de biossegurança”, informou o conselho.

A entidade ressalta que profissionais sem qualificação adequada podem colocar a saúde do paciente em risco. “Procedimentos realizados por pessoas não habilitadas podem gerar deformidades, emergências e intercorrências graves. O profissional precisa estar preparado para reconhecer e agir diante dessas situações”, afirma.

Habilitação profissional

Especialistas reforçam que pesquisar a formação e a regularidade do profissional é uma etapa essencial antes de qualquer procedimento.

No caso dos médicos, é possível consultar o registro ativo no Conselho Regional de Medicina (CRM) e verificar se o profissional possui título de especialista reconhecido pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), quando se tratar da área cirúrgica.

Já no caso dos enfermeiros, o Coren-SP disponibiliza em seu site a ferramenta ‘Pesquisa Profissional’, na qual é possível verificar se o registro está ativo e se há especialização cadastrada.

Além da formação, especialistas orientam que o paciente observe se a clínica possui autorização de funcionamento, condições adequadas de higiene e equipe preparada para emergências.

Outro ponto importante é a transparência na consulta. O paciente deve receber explicações claras sobre os riscos, contraindicações, tempo de recuperação e limitações do procedimento. Promessas de resultados milagrosos ou ausência de avaliação individualizada devem servir como sinal de alerta.

“Canetas emagrecedoras”

O crescimento acelerado do uso dos medicamentos agonistas de GLP-1, conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”, também entrou no radar das autoridades sanitárias.

Neste ano, a Anvisa anunciou um plano de monitoramento ativo desses medicamentos no Brasil, diante do aumento do consumo e da popularização do uso para fins estéticos e emagrecimento rápido. A iniciativa busca ampliar o acompanhamento de possíveis eventos adversos relacionados a esses produtos e reforçar a fiscalização sobre prescrição e comercialização.

A agência alerta que esses medicamentos devem ser utilizados apenas com indicação profissional e acompanhamento adequado. O uso indiscriminado, sem avaliação clínica, pode causar efeitos adversos importantes, como náuseas intensas, vômitos, alterações gastrointestinais, desidratação e outras complicações.

Para o cirurgião plástico Alexandre Kataoka, os medicamentos representam um avanço importante no tratamento da obesidade e do sobrepeso quando bem indicados. “As canetas emagrecedoras podem trazer benefícios importantes, mas preocupa o uso motivado apenas por padrões estéticos e promessas de emagrecimento rápido”, afirma.

Segundo ele, todo tratamento para perda de peso precisa ser individualizado e acompanhado por profissionais habilitados. “É necessário considerar histórico clínico, exames, hábitos de vida e acompanhamento multidisciplinar. Não existe solução milagrosa”, ressalta.

O Coren-SP explica que a prescrição de medicamentos por enfermeiros está prevista na legislação profissional, desde que siga protocolos institucionais e que o profissional possua capacitação técnica adequada, além de obedecer às regras da Anvisa.

 

Cuidados antes de qualquer procedimento

Especialistas e órgãos reguladores alertam que alguns cuidados simples podem ajudar a evitar complicações graves em procedimentos estéticos e tratamentos para emagrecimento.
Antes de realizar qualquer procedimento, a recomendação é:
- Verificar se o profissional possui registro ativo no conselho de classe;
- Confirmar se há especialização reconhecida na área;
- Pesquisar se a clínica possui licença sanitária;
- Exigir informações sobre os produtos utilizados e conferir se possuem autorização da Anvisa;
- Desconfiar de preços muito abaixo do mercado e de promessas de resultados imediatos;
- Evitar procedimentos realizados em locais improvisados;
- Solicitar orientações por escrito sobre os cuidados antes e depois do procedimento;
- Procurar atendimento imediato em caso de dor intensa, febre, inchaço excessivo, alterações na pele ou qualquer sintoma incomum após o tratamento.
Especialistas reforçam que procedimentos estéticos não devem ser tratados apenas como tendência ou consumo rápido. Para médicos, conselhos profissionais e órgãos reguladores, segurança, qualificação e acompanhamento adequado precisam estar acima de qualquer promessa de transformação imediata.