Empresa de farmácia de manipulação e médico de Sorocaba são alvos da PF
Investigação aponta fabricação e venda clandestina de medicamentos à base de tirzepatida e semaglutida
Um dos sócios da farmacêutica Unikka Pharma, investigada pela Polícia Federal (PF) por produção e venda clandestina do princípio ativo tirzepartida, encontrado em medicamentos para diabetes e obesidade, havia anunciado anteriormente a instalação de uma fábrica do chamado “genérico do Ozempic” em Sorocaba. Em 2024, a empresa divulgou investimento de R$ 60 milhões no Parque Tecnológico da cidade, com promessa de gerar cerca de 300 empregos. O anúncio contou com a presença do prefeito Rodrigo Manga (Republicanos).
As investigações policiais começaram após denúncia feita por outra farmacêutica, responsável pela patente do medicamento Mounjaro. A acusação afirma que a empresa investigada teria ultrapassado os limites autorizados para manipulação de medicamentos e iniciado uma produção industrial irregular da substância, o que poderia configurar violação de propriedade industrial.
Com base nas denúncias, a Justiça Federal autorizou operações de busca e apreensão realizadas em 2025 e 2026. A Polícia Federal investiga a possível atuação de uma organização criminosa voltada à importação e fabricação irregular dos medicamentos.
De acordo com informações da Prefeitura de Sorocaba, a empresa havia anunciado sua instalação no Parque Tecnológico de Sorocaba mas, por motivos internos, optou pela locação de outro espaço.
A empresa Unikka foi procurada pelo Cruzeiro do Sul e questionada a respeito das acusações e da desistência da instalação de uma fábrica em Sorocaba, mas não respondeu até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.
Operação Slim
A segunda fase da Operação Slim, realizada pela Polícia Federal (PF) em abril deste ano, colocou o sócio como principal alvo da investigação. Durante a ação, veículos ligados ao profissional foram apreendidos. A operação busca desarticular uma organização criminosa suspeita de atuar na importação, fabricação e comercialização irregular de medicamentos para emagrecimento.
A Operação Slim é um desdobramento da primeira fase da investigação, realizada em novembro de 2025. Na ocasião, a PF apurava a atuação de uma quadrilha envolvida na produção, fracionamento e venda ilegal de tirzepatida, substância usada no tratamento de diabetes e obesidade.
Ao todo, foram cumpridos 24 mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. As ações ocorreram em clínicas, laboratórios, estabelecimentos comerciais e residências ligadas aos investigados. Durante a operação, foram apreendidos carros de luxo, relógios de alto valor e até uma aeronave.
Segundo a Polícia Federal, o grupo mantinha uma estrutura de fabricação considerada incompatível com os padrões sanitários exigidos. “A investigação identificou que o grupo realizava envase, rotulagem e distribuição do produto de forma irregular”, informou a corporação.
Ainda conforme a PF, os medicamentos eram divulgados e vendidos por plataformas digitais, sem garantias mínimas de qualidade, esterilidade ou rastreabilidade, o que poderia representar risco à saúde dos consumidores. A investigação também aponta que estratégias de marketing levavam o público a acreditar que a produção em série da tirzepatida seria permitida pela legislação brasileira.
Entre os pedidos feitos pela corporação está a abertura de procedimento no Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) para apurar possível incompatibilidade entre o exercício da medicina e atividades farmacêuticas exercidas por investigados. Até a publicação desta matéria, não houve retorno do Cremesp. O espaço segue aberto.
O que diz a Anvisa
Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), os únicos medicamentos registrados atualmente no Brasil com o princípio ativo semaglutida são Ozempic, Rybelsus, Wegovy, Poviztra e Extensior, todos da farmacêutica Novo Nordisk. Já para o princípio ativo tirzepatida, os únicos produtos autorizados são Mounjaro e Mounjaro Multidose.
A Anvisa informou ainda que analisa 16 pedidos de registro feitos por outras empresas interessadas em comercializar medicamentos com semaglutida no país. O órgão reforça que qualquer medicamento só pode ser vendido no Brasil após aprovação e registro oficial, processo que avalia critérios de eficácia, segurança, fabricação e embalagem do produto.
De acordo com a legislação, a manipulação de medicamentos é permitida apenas para atender necessidades específicas e individualizadas de pacientes, com doses personalizadas. A investigação da PF, porém, aponta indícios de produção em larga escala, prática proibida para farmácias de manipulação.